"...um repórter mestiço aproxima-se com certa timidez de uma velha casa do Espinheiro, residência atual do poeta Joaquim Cardozo, que possui inúmeros pontos de coincidência com Pound: poliglota, vanguardista, descobridor de talentos e, principalmente, grande poeta. Cardozo, que completa hoje 76 anos, estava vestido com um leve pijama azulado e conversava com uma pessoa de sua família. A minha chegada transtornou o ambiente, obrigando as gentis irmãs do poeta, as “três Marias”, como ele o diz carinhosamente, a se deslocarem com o televisor portátil para outro aposento — tudo isso para não incomodar o visitante e dar condições para realização da reportagem."  Alberto da Cunha Melo

 

               "Como verdadeiro sábio que é, não derrubou ninguém para entrar no carro do sucesso, cedeu inúmeras vezes o seu lugar e esperou mais de meio século para fazer a merecida viagem."  Alberto da Cunha Melo sobre Joaquim Cardozo      

 
          
 

"Ele foi parceiro de Oscar Niemeyer em obras que revolucionaram a arquitetura brasileira, como o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Palácio dos Arcos (Itamaraty). Publicou seu primeiro livro aos 50 anos de idade e morreu sem ter o reconhecimento do grande público. Mas os críticos sempre o classificaram como um dos maiores poetas da língua portuguesa no século XX."

Informações do site Pernambuco de A/Z. Para mais informações, clique aqui.

 

     
    Apresentação  
   

JOAQUIM CARDOZO

 
   


"O Poeta e o Repórter"

por Alberto da Cunha Melo

Copyright Diario de Pernambuco — 26  de  agosto 1972

 

 
   

 

 
   

Nota do Trilhas Literárias: Em 26 de agosto de 1972, Alberto da Cunha Melo entrevista Joaquim Cardozo, aos 76 anos, em um encontro memorável, que legou às páginas do Diário de Pernambuco uma das mais belas entrevistas da Literatura Brasileira.

 
       
 
"Joaquim Maria Moreira Cardozo

(Recife PE 1897 - Olinda PE 1978) 



Concluiu o curso de Engenharia Civil em 1930; já havia, então, trabalhado como diretor e colaborador da Revista do Norte, de Recife. Poeta e engenheiro, conviveu com os grupos das revistas modernistas Verde e Festa. Em 1946 teve oito poemas publicados na Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos, organizado por Manuel Bandeira; em 1947, sairia seu primeiro livro, Poemas, por iniciativa de João Cabral de Melo Neto. Nos anos seguintes, trabalhou como tradutor, crítico de arte e calculista do arquiteto Oscar Niemeyer, colaborando inclusive para a construção de prédios em Brasília. Sua obra poética, filiada à segunda geração do modernismo, tem como temas constantes Recife e o Nordeste, que aborda com linguagem objetiva e pictórica, em formas simples e musicais, que antecedem o estilo de João Cabral de Melo Neto. Em 1971 foram publicadas suas Poesias Completas; em 1973, saiu o livro Os Anjos e os Demônios de Deus e, em 1975, O Interior da Matéria e O Capataz de Salema. Antônio Conselheiro. Marechal, Boi de Carro."

Saiba mais: acesse o site Itaú Cultural. Clique aqui.
 

Catedral de Brasília. Cálculo estrutural por Joaquim Cardozo.

 

       O jornalista Lazio Kovacs foi conversar com o poeta Ezra Pound, em Veneza, e entrevistou o silêncio. Pound, um dos maiores expoentes da poesia moderna mundial, recusou-se a falar de literatura. Aos oitenta e seis anos, treze dos quais passados encarcerado como traidor de sua pátria, os Estados Unidos, o autor do famoso poema inacabado “Cantos”, desencantou-se com a palavra (após ter feito com ela o que bem quis e através dela ter alcançado um extraordinário prestígio no Ocidente).

 
 
                                                

Leia os poemas de Joaquim Cardozo editados no Plataforma para a Poesia.

Clique aqui.

 

  OUTRO POETA, OUTRA VENEZA

            Sabedor desse fato, em outra Veneza, a brasileira, um repórter mestiço aproxima-se com certa timidez de uma velha casa do Espinheiro, residência atual do poeta Joaquim Cardozo, que possui inúmeros pontos de coincidência com Pound: poliglota, vanguardista, descobridor de talentos e, principalmente, grande poeta. Cardozo, que completa hoje 76 anos, estava vestido com um leve pijama azulado e conversava com uma pessoa de sua família. A minha chegada transtornou o ambiente, obrigando as gentis irmãs do poeta, as “três Marias”, como ele o diz carinhosamente, a se deslocarem com o televisor portátil para outro aposento — tudo isso para não incomodar o visitante e dar condições para realização da reportagem.

            A jovial acolhida do autor de Signo Estrelado e co-autor de Brasília deixa o repórter um tanto afoito e pronto a aborrecer o próprio Santo de Assis. A imagem amarga e silenciosa de Pound vai desaparecendo da cabeça do jornalista e dando lugar a outra, a de um “tio tranqüilo”, como diria o poeta Geraldino Brasil. Diante de mim está um homem magro e encanecido, mas cheio daquela paciência conquistada, a custo de muito desespero triturado, de muito angústia vencida na própria foz. Apesar de não ter passado pelas agruras por que passou Pound, o poeta brasileiro foi alvo de algumas ciladas perversas, de muito mal entendido consciente e do voluntário esquecimento por parte de alguns críticos e historiadores da literatura. Mas, ao contrário de Pound, sua voz continuou límpida e pródiga, como convém a um grande artista da palavra, seguro de suas dimensões e desígnios.

 

            DA MANGA AO CAJU

            De início, após ter desistido de trocar o pijama por outras roupas menos amigas, para espanto do fotógrafo acostumado com tanta pose, Cardozo fala sobre aquela pequena mangueira defronte do casarão e informa que está acompanhando a sua floração. Todas as manhãs, um regalo que lhe faltava no Rio. Da manga ao caju foi um passo. O repórter aproveita a oportunidade para perguntar sobre o poema “Chuva de Caju” e o poeta conta as circunstâncias que o determinaram.

    Eu estava lendo quando, de repente, ouvi ruídos de passos, como se alguém acabasse de entrar na sala. Logo percebi que era a chuva, uma chuva de grossos pingos, que pulava pela janela e invadia o aposento.

E lembra que morava nessa época no “Beco do Caju”, o que explica o título da pequena obra-prima. Daí em diante, após ter falado sobre os amigos do Recife, entre os quais citou várias vezes o nome de Altamiro Cunha, a conversa vai ficando animada e uma pergunta surge sobre como se estava sentindo no regresso à capital pernambucana. Cardozo diz que, apesar de ter passado 32 anos no Rio de Janeiro, sentia-se “como se nunca tivesse saído daqui”.

 
 
 
 

ARISTÓTELES MENOR QUE PLATÃO

            Tendo recebido a incumbência de fazer uma reportagem sobre literatura, o repórter quando dá conta de si está seguindo o poeta pelas ruas e bairros antigos do Recife, participando através da recordação de fatos ligados ao processo de urbanização do Recife e de Brasília: uma a cidade que o viu nascer e, outra, a que foi quantificada em sua prancheta de engenheiro calculista. Apesar de belo o passeio, por dever profissional o assunto literário tem de ser retomado novamente. Assim sendo, o repórter volta a fazer perguntas de interrupção para retornar ao tema, retomar um pingo perdido da “Chuva de Caju”.

            Não é difícil conversar com Joaquim Cardozo, embora não seja fácil ser para ele um bom interlocutor. Os homens eruditos sofrem de uma espécie de solidão coloquial. A massa de informações que possui sobre diversos assuntos anula inocentemente as tímidas investidas da maioria dos interlocutores. O Poeta preenche os vagos da conversação quando ela envereda por áreas só por ele dominadas. E o assunto sendo agora livros é território de Joaquim Cardozo por excelência, por direito de conquista. O poeta, apesar de grande inovador, aprecia os velhos autores (também seus irmãos, inovadores do passado). O nome de Aristóteles, não sei por que, cai na sala de repente. Cardozo faz confrontações entre Aristóteles e Platão, com sérios prejuízos para o primeiro. A Física aristotélica recebe fundamentadas restrições. Enchem agora a sala os autores medievais e são apresentados por Cardozo como velhos conhecidos. Após a saída deles, o tempo vai se encurtando e já estamos chegando à Montanha Mágica de Thomas Mann, uma das grandes admirações de Joaquim Cardozo. Depois de contar o enredo do romance com palavras recheadas de gestos, de significação, o poeta começa a se queixar da falta que lhe está fazendo a sua vasta biblioteca, deixada temporariamente no Rio. Procura pescar no ar o nome de uma editora, a data de uma edição e desiste — Terei de trazê-la com urgência para cá — declara um pouco magoado.

 

O VALOR SE IMPÕE

            Há muito o que aprender com esse autor escrupuloso a ponto de só publicar o primeiro livro aos 50 anos. A posição de prestígio que ele mantém hoje entre os grandes nomes da poesia nacional (e esta, conforme alguns grandes críticos, é uma das três maiores do mundo), decorreu de um lento e progressivo reconhecimento de público e da crítica especializada. Nenhum esforço de autopromoção: seu primeiro livro, Poemas, foi organizado por um grupo de amigos que recolheu em jornais e revistas seus trabalhos esparsos, tudo feito à sua revelia; nenhuma insistência junto aos programadores oficiais do sucesso literário atraíram o “imenso Joaquim Cardozo”, para usar aqui uma expressão de João Cabral de Melo Neto, que deve a ele o que T. S. Elliot de certa maneira deve a Pound.

            Como verdadeiro sábio que é, não derrubou ninguém para entrar no carro do sucesso, cedeu inúmeras vezes o seu lugar e esperou mais de meio século para fazer a merecida viagem. Seu retraimento profissional, sua falta de empresários, seu pudor artístico valeram-lhe, no entanto, a injusta inclusão, pelo também grande Manuel Bandeira, entre os poetas bissextos do Brasil. Essa classificação de bissexto deveria atingir apenas os que escrevem raramente e não os que publicam pouco. O fato de um autor ter severa autocrítica é sempre motivo de sérios equívocos: o mínimo que podem pensar é que parou de escrever, quando é justamente no longo intervalo, entre um livro e outro, que o verdadeiro escritor está em sua aula maior, a da auto-superação, a da descoberta de novos caminhos. É quando mais se rasga, que mais se escreve. Literatura não é medida com régua de diagramação. A diferença entre um poeta menor e um poeta maior, entre outras coisas, está nisso: no primeiro, o poder de auto-selecionamento é quase nulo: quer publicar tudo que escreve, e vai para os livros o que deveria estar na cesta de papéis.

 

É PRECISO LER MUITO

            Achando que perguntou pouco sobre a própria obra do entrevistado, o distônico repórter em certo momento pede-lhe uma explicação sobre alguns trechos do seu grande poema “Visão do Último Trem Subindo ao Céu”, particularmente sobre aquelas passagens em que o poeta utiliza símbolos e sugestões das Ciências Exatas. Após esboçar uma tentativa de esclarecimento, Cardozo compreende que não pode ser acompanhado em seu raciocínio e diz simplesmente: “É preciso ler muito”. A frase, que pode ser dita por qualquer mestre-escola, ganha um peso especial quando pronunciada por um “imenso” poeta e tem um efeito duradouro e forte na consciência do assustado repórter, repercutindo, alastrando-se: é preciso ler muito, é preciso ler muito. Abaixo MacLuhan!

            O conselho do manso e encanecido poeta, dado assim com aquele ar de um tio cansado, que acaba de chegar de uma longa viagem, é mais do que o fecho esperado para esta reportagem, dirigida principalmente para os jovens escritores brasileiros. É noite e o poeta do Signo Estrelado, que vem sendo freqüentemente visitado, precisa recolher-se aos seus livros, às suas lembranças, aos novos e revolucionários poemas. O repórter, como qualquer vendedor de livros embaraçado, sai mais humilde do que entrou. Despede-se de Joaquim Cardozo e de suas três irmãs e volta para o planeta das urgências rasas, onde é engolido pela escuridão e o esquecimento, nessa bela hora em que “as estrelas passam sobre Olinda”.

 
 

 

 

Clique na marca para ter acesso ao Índice Remisso das Trilhas Literárias

 Cedê Plataforma para a Poesia - Poemas Indispensáveis, vol 0. Apresentação de Deonísio da Silva. Clique na capa e ouça algumas faixas.