Canção para os que nunca irão nascer
Joaquim Cardozo
Na modulada canção que agora canto
Para aqueles que nunca irão nascer
Nunca irão receber uma presença
Pois do pré-nascimento voz nenhuma
Deles visitara no seu puro abandono.
E em seu isolamento.
Essa canção é única, é de puro silêncio
De julgamento próximo aos que nunca há de nascer
Canção de um só para os que sós estarão
Nesse abandono total antes de nascer
Antes de ouvirem outras canções
E a espera na canção a voz de alguém.
Os que ficarão somente almas
Somente espíritos remotos
À espera de uma voz que se anuncie
Sobre o silêncio do silêncio, inda silêncio:
Silêncio de decibéis até os nadas negativos..
Inversão da voz, inversão
Em ruídos profundamente fuscos.
Os que ficaram almas:
Crianças que não mais virão ao mundo
Talvez ficaram nos gases das esferas,
Invólucros das líquidas estrelas.
Para eles cantarei através do além
De todos os silêncios,
Para eles cantarei; para aqueles
Que estão entre quazais,
Pelas ondas de rádio a minha voz escutarão.
No espaço reflexo e no tempo inverso — PT
É o operador que realiza:
A passagem do Eléctron ao Pósitron — C
O operador C atua em forma esférica.
Quando o espaço-tempo marcha para o futuro,
Seguindo a esfera, o espaço-tempo, por trás,
Pelo passado vem voltando.
P.C.T. P.C.T. P.C.T
Oh! almas das regiões do P.C.T.
Crianças que nunca irão nascer
E a sua voz nunca se ouvirá
Através do silêncio do universo.
Nem mesmo do ventre das mulheres
Há um som surgido e abençoado
Que nunca se esperou.
Crianças que nunca irão nascer,
Tampouco, tampouco irão morrer.
Mas se noite e dia sem fôlego ficaram
Nunca lhes acenderá respiração
Mesmo porque não puderam vir a ser.
Não conseguiram a respiração;
Ficaram simples, soltas entre estrelas.
Pois ficaram nas nebulosas e nas galáxias
Na sombra dos quazais e no pulsar
Das ondas hertzianas; em todo o mundo
Na solidão eterna das estrelas;
Que as Cefeides se iluminem
E que se estendam para mais ainda.
Mesmo no esplendor de longínquos universos,
Través a voz do rádio, esta canção
Ouvirás; longínqua e inesperada;
Ouvirás através das ondas hertzianas
que irão além dos quazais.
Reflexo do espaço, noutro espaço
Inversão do tempo negativo em positivo;
Daqueles que ficarão na escuridão
De onde nasceram, de onde apareceram.
Eu canto a canção dos que nunca viveram
E ficarão na treva para sempre.
Canto com a voz das ondas hertzianas
Que longínquos irão se propagando.
Cujo som acompanham
Por espaços tão lúgubres e longos
Crianças que ficarão sem ser
No íntimo das negras nebulosas;
nebulosas que estão na Via-Láctea.
Morreram as vossas vidas
Nasceram as vossas almas:
— Agora, ao mesmo tempo anima e animum.
— E os que nasceram e depois morreram.
Agora estão dormindo, deliciosamente
Dormindo no sono das almas.
De: Um livro aceso e nove canções sombrias (1981)
Editoração de Cláudia Cordeiro
Foto: Erik Reis