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"Não busquei a perfeição, mas persegui a imperfeição da vida em cacos coloridos, como fez Antoni Gaudí naquele banco curvo do Parque Güell, em Barcelona."  José Nêumanne                    

80 Anos de Osman Lins            100 Anos de Pablo Neruda           215 Anos do Iluminismo

 

 

 

 

 

O Silêncio do Delator

 
 

José Nêumanne

 
 

(orelhas)

 

 
 

Nos rebeldes anos 60 do século 20, um grupo de adolescentes, a patota dos sovacões solidários do recruta Pepé, se reunia para ouvir os últimos lançamentos da canção pop nos discos Sergeant Pepper’s lonely hearts club band, dos Beatles, e Bringing it all back home, de Bob Dylan, e conhecer as drogas da moda: maconha, LSD e cocaína. Embalados por essa trilha sonora, iniciaram-se no sexo sob o signo do amor livre e se dedicaram à aventura de mudar o mundo. Levantaram a bandeira do marxismo-leninismo, revisto por Mao Zedong e dotado de uma aura romântica pelos guerrilheiros de Sierra Maestra, comandados por Fidel Castro e Che Guevara. No século seguinte, 40 anos depois, no velório de um deles, a turma relembra o malogro da revolução política e da guinada nos costumes. O publicitário de sucesso que não consegue se afirmar como escritor; o guerrilheiro que enriqueceu especulando na bolsa; o militante comunista que chegou a ministro; o astro de rock; o artista plástico tornado mendigo; a esposa historiadora; a amante que nunca abandonou o marido e a adorável filha; a ex-paixão da adolescência com quem viveu um caso fugaz; o filho espiritualista; a filha pragmática; e a mãe possessiva giram em torno do morto com suas convicções, incertezas, falhas e virtudes. No meio de tudo, o debate, do qual não se chega à conclusão alguma, sobre o que corresponderia à verdade dessa geração: a fé do morto na contribuição fundamental de seus contemporâneos à travessia humana sobre a Terra ou a opinião da viúva de que existe apenas a repetição cíclica da história e de que os rebeldes dos anos 60 são meros exemplos disso?

 
 

 
 

Roy Lichtenstein

[American Pop Artist, 1923-1997]

 
     
  Inventário 

          Para José Nêumanne Pinto

Temos saudade?
Não.Temos raiva.

Erramos tudo
e confessamos.
Confundimos as trevas,
somos pedras em guerra.

Todas as estradas nos desgarram,
os abismos nos reconduzem.

Ouvimos
como as sereias
não ouviram 
Ulisses.

Anoitecemos
como Penélope
não bordava
e esquecia.

Nossa viagem 
é naufrágio.

A fama,
a conquista
só consagram os fracos.

Portas trancafiadas
passagens obliteradas
conclamam nosso êxito.

Antes dos portos,
além das pontes,
aquém das praias,
sem amarras e cais

alquebrados

já éramos
casco
mastro
e vela.

Criar é nosso júbilo.
Entre risos e rugas
morrer é nossa vitória.

Sonhar nos amesquinha.
Nossa vertigem é nosso pó.

Esgotamos os astrolábios.
Exaurimos os oráculos.
Gastamos o mar.

Musas - ah! as musas,
tão impávidas -
traíram nossos míseros versos
e elegeram a prosa o discurso cabal
do mundo que não nos ganha,
epitáfio do céu que não nos corrompe.

Cadáveres conquanto
- como estamos vivos!
Mortos
- quanta exclamação!

O silêncio é privilégio
de quem delata.

Aqui, portanto, só continuamos
porque não nos amendrontam os                                            berros.

Estrelas,
escórias da luz eterna,
aldebarãs do nosso desespero,
mapas de para onde nunca iremos
- tanta ausência
para tamanha ousadia :

Amor,
quem o merece?

Ardor,
quem não o arrefece ?


Pedro Paulo de Sena Madureira
São Paulo, 21 de novembro de 2003

Roy Lichtenstein

[American Pop Artist, 1923-1997]

 

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Entrevista

    

 

José Nêumanne ao poeta Astier Basílio

 

 

O Silêncio do Delator 

 

 

 

 

"A história que sempre quis contar, e você me impediu, esta história tem vinte anos, tem, oxalá, meio século, uma vida inteira, se é que há vidas inteiras." [José Nêumanne, in O Silêncio do Delator. São Paulo: A Girafa Editora, 2004.)

 

        Jornalista, poeta, ficcionista, biógrafo, crítico, ensaísta, Nêumanne pode grafar em caixa alta a sua profissão: ESCRITOR. Um escritor que conclui agora seu segundo romance em meio a uma tumultuada agenda profissional. 

         Vinte anos depois do esboço original, temos O Silêncio do Delator, um romance que remexe fundo com "quase todos os relacionamentos humanos de importância, confirmando costumes ou questionando-os" — conforme anota o poeta Alberto da Cunha Melo que teve o privilégio de ler os originais — e promete acender polêmicas, tanto pelo conteúdo como pela forma.

          Mas, por enquanto, basta-nos ler o Nêumanne nesta entrevista que abre caminhos para a leitura da obra e comemorar mais um momento significativo para a Literatura Brasileira, um dos poucos orgulhos que nos resta enquanto povo, enquanto nação.

          As Trilhas Literárias da nossa Plataforma saúdam o novo rebento do nosso ilustre hóspede, o José Nêumanne Pinto, o filho de Uiraúna, que decola para essa sua nova grande aventura editorial e convida a todos os nossos colaboradores e leitores para decolar com ele nesse vôo para a Arte.

       Cláudia Cordeiro Reis

Acesse: no Plataforma as páginas de José Nêumanne

 

 

ENTREVISTA

 

     
  01.Em que época seu novo romance é ambientado?  
  O silêncio do delator é o relato de um velório ocorrido neste ano de 2004. [...]  
 

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  02. A narrativa se limita, então, ao que se passa no velório fictício?  
  Não. À medida que os personagens vão aparecendo no velório, a história de suas relações com o morto vai sendo contada e comentada por ele próprio (em seções as quais intitulei de A voz do morto). [...]  
 

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  03. Como ocorrem essas vozes?  
  O velório é narrado na voz Na glória! A política na voz A paz do mundo. As transgressões (como drogas) em Os pés do torto. Histórias dos personagens paralelos à patota (parentes deles, seus ancestrais e descentes) são recuperadas na voz O cais do porto. As iniciações promovidas pelo Coelho na voz A vez do louco. Cada capítulo termina com um trecho do poema que meu amigo e editor Pedro Paulo de Sena Madureira fez para mim (Inventário) e que é reproduzido inteiro depois do fim [...]  
 

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  04. Cada capítulo refere-se a um personagem?  
  Não. Cada capítulo refere-se a uma faixa de um dos dois álbuns que considero fundamentais para a virada do rock and roll [...]  
 

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  05. Quem comparece ao velório do morto, afinal?  
  Paulo, publicitário bem-sucedido que larga tudo para ser literato, mas não tem talento para brilhar como gostaria. Ricardo, o antigo militante comunista negro, que virou burocrata importante (ministro da Saúde). [...]  
 

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  06. Por que um velório, afinal?  
  Porque o livro pretende ser uma espécie de testamento, ou melhor, um inventário da geração dos anos 60. Cada capítulo traz em revezamento as faixas dos dois álbuns que citei acima. E revolve a cultura da época: o cinema, principalmente com As invasões bárbaras, de Dennys Arcand, A chinesa, de Godard, [...]  
 

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  07. E qual é o conflito básico de sua história?  
  No fundo, o leit motiv do romance é o conflito entre João Miguel e Penélope. Ele acha que a geração deles é a maior, trouxe uma imensa contribuição para a humanidade, citando Heráclito de Éfeso, para quem nunca ninguém se banha nas mesmas águas quando vai a um rio. Ela cita Hegel, [...]  
 

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  08. É, então, um livro feminista?  
  Sim. Assumidamente. A única esperança da humanidade está no gênero feminino. Embora o livro seja dedicado a um homem, pelo qual estou perdidamente apaixonado: meu neto Pedro.  
 

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  09. A questão do gênero é importante na narrativa?  
  Há cenas de amor entre os dois sexos e de amor homossexual masculino e feminino na voz Atrás do muro.  
 

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  10. Em quais locais ocorrem todas essas ações do livro?  
  Este foi o maior desafio do texto: escrever mais de 400 páginas de livro sem definir precisamente em que cidade, em que região e em que país do mundo seus personagens vivem. Apesar de referências indiretas  
 

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  11a. Este foi seu maior desafio?  
  Não. O maior desafio foi manter o ritmo da narrativa, perseguindo um ideal descrito magistralmente pelo “coleguinha” Gabriel García Márquez: tirar o fôlego do leitor. [...]  
 

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  11b. De onde você tirou esse título?  
  [...] No fim, terminei fazendo uma proposital mistura de ficção e realidade, talvez porque eu acredite que o romancista do futuro não é o enigmático James Joyce, mas o erudito e gozador Jorge Luís Borges, que sabe muito e mente mais.  
 

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12. Você pretendeu promover alguma revolução formal neste texto?
Quando o comecei, a idéia, longamente debatida com Pedro Paulo, era fazer uma história que se contasse quase sem truques de texto. “Texto zero”, para usar um termo da moda. Mas, à medida que fui escrevendo, a forma foi tomando conta do livro e terminou se impondo na marra. [...]

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13. Qual a semelhança ou diferença com o romance anterior, Veneno na veia?

 
  Talvez a única semelhança seja um certo vezo de informação, que subsiste neste texto e que matou Veneno. Ruy Fabiano acha que meu primeiro romance começa muito bem e termina mal porque cedi à tentação do texto de jornalista. Ele próprio acha que isso não acontece com O silêncio. Espero que não aconteça mesmo. [...]  
 

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  14. No que o poeta e o jornalista participaram no processo criativo desta obra?  
  Há muito do poeta, principalmente na narração das cenas de sexo. Estas foram o maior desafio. Escrevi-as o tempo todo pensando no grande escritor português Lobo Antunes, que nunca escreveu uma cena de amor carnal, porque acha impossível não cair na vulgaridade, ao fazê-lo. Não tenho a pretensão de ser incluído por ele em sua relação limitadíssima de apenas duas cenas de sexo dignas de ser consideradas delicadas e, portanto, literárias, uma de O amor no tempo do cólera, de Gabriel García Márquez, e outra de um best-seller, escrito por Jackie Collins, de cujo título nem me lembro agora. Quanto ao jornalista, espero que ele não se tenha manifestado tanto. Afinal, se se manifestou foi para atrapalhar, nunca para ajudar. Há talvez um excesso de informação no texto, que é, sim, um horrível vício de repórter.  
 

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  15. Como você arrumou tempo, em meio a sua tão entupida agenda, para escrever este romance?  
  Nem eu mesmo sei. Na verdade, escrevi este romance em 1984. Mas então eu pretendia ser o James Joyce de Bodocongó e o texto ficou uma bela merda, como constatou o poeta Álvaro Mendes, que trabalhava comigo à época no Jornal do Brasil e a quem pedi que lesse. [...]  
 

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Links para José Nêumanne

Um Coisa e Outra

Grupo Luna e Amigos

Brasil Max

Plataforma para a Poesia

Bibliografia e poemas de José Nêumanne (voz do autor)

 

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