Sozinho, de noite,
nas ruas desertas
do velho Recife
que atrás do arruado
moderno ficou...
criança de novo
eu sinto que sou:

— Que diabo tu vieste fazer aqui, Ascenso?

O rio soturno
tremendo de frio,
com os dentes batendo
nas pedras do cais,
tomado de susto
sem poder falar...
o rio tem coisas
para me contar:

— Corre, senão o Pai-do-Poço te pega, condenado!

Das casas fechadas
e mal-assombradas
com as caras tisnadas
que o incêndio queimou
pelas janelas esburacadas
eu sinto, tremendo,
que um olho de fogo
medonho me olhou:

— Olha que o Papa-Figo te agarra, desgraçado!

Dos brutos guindastes
de vultos enormes
ainda maiores
nessa escuridão...
os braços de ferro,
pesados e longos,
parece quererem
suster-me do chão!

— Ai! Eu tenho medo dos guindastes
por causa daquele bicão!

Sozinho, de noite,
nas ruas desertas
do velho Recife
que atrás do arruado
moderno ficou...
criança de novo
eu sinto que sou:

— Larga de ser vagabundo, Ascenso!

 

 

 

 

Edição de Silvana Guimarães
— com trilha sonora composta e executada
por Paulo Rafael e Lui Coimbra,
e voz de Chico Anysio —
especialmente para
Plataforma para a Poesia
Sítio Virtual Pernambucano da Poesia
Contemporânea em Língua Portuguesa:

www.plataformaparaapoesia.nom.br

Visite nossa livraria virtual. Clique no livro:


Leia Poesia!

 

 

voltar