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1.1 O Grupo de Jaboatão

 

Foi o ‘o grupo de Jaboatão’ que ousou botar a cabeça de fora, abrindo caminho para novos intelectuais da Província, numa fase adversa à literatura, pela absorvente preocupação com o desenvolvimento econômico e o progresso do tecnicismo. (ROCHA, 1976).

 

            Essa afirmativa do historiador Tadeu Rocha, no Diário de Pernambuco, dez anos depois da estréia dos poetas da Geração, nas páginas daquele mesmo jornal, não deixa dúvidas e é confirmada pelos numerosos depoimentos encontrados em Geração 65. O Livro dos Trinta Anos.  O Grupo de Jaboatão, do qual participavam os poetas: Alberto da Cunha Melo, Domingos Alexandre, Jaci Bezerra e José Luiz de Almeida Melo, tinha como orientador, o pai de Alberto, Benedito Cunha Melo, professor, poeta e jornalista. Alberto registra:

Meu pai tinha uma formação clássica e nos estimulava à leitura de obras que iam até o simbolismo. Foi o meu primo Valdemir Veloso que nos visitando, entre os anos 60 a 61, nos deu uma lista de poetas modernos que devíamos ler, entre eles, Carlos Pena Filho e João Cabral. Encantou-me a poesia de João Cabral e Jaci Bezerra, a de Carlos Pena. Éramos muito pobres e não podíamos comprar livros. Mas eu e Jaci estávamos filiados às bibliotecas públicas de Afogados e da Faculdade de Direito, foi nessas instituições que atualizamos as nossas leituras. (MELO, 1979-2000, v. 3)

 

 A foto a seguir, de 24 de abril de 1980, ilustra o engajamento do poeta Benedito Cunha Melo às atividades literárias dos da nova geração. Trata-se de um dos lançamentos coletivos das Edições Pirata.

Figura 2. Da esquerda para a direita: Tarcísio Pereira, proprietário da livraria Livro 7, Abraão, pintor, eu e meu pai. Foto de Josenildo Freire. (MELO, 1978-2000, v. II, registro de 17.05.1980, Rio Branco, AC)

 

            Alberto da Cunha Melo, Domingos Alexandre e Jaci Bezerra estudavam na mesma escola pública. José Luiz de Almeida Melo uniu-se ao pequeno grupo, por outras contingências favorecidas pelo fato de morar na mesma cidade, Jaboatão. Mas era principalmente a poesia que promovia o encontro dos então jovens poetas, a fim de discutirem suas produções, conforme o verbete mencionado (COUTINHO, 2001, v. I, p.765).  César Leal ratifica esses registros, quando das primeiras publicações dos poemas deles no Diário de Pernambuco:

Além de Jaci Bezerra, mais três bons poetas jovens moram em Jaboatão. Formam um grupo ativo, que se reúne freqüentemente para autocrítica e crítica recíproca de seus próprios trabalhos. São eles Domingos Alexandre, Jaci Bezerra, José Luiz de Almeida Melo e Alberto da Cunha Melo. (LEAL, 1966).

 

Figura 3. Raríssima presença no palco do autor, declamando, em Festival de Poesia, realizado no dia 20 de junho de 1965, no palco do Centro dos Ferroviários, em Jaboatão. (MELO, 1978.200, v. IV; registro de 23.09.95. Recife, PE.).

Eles participavam ativamente das atividades culturais do município. Alberto da Cunha Melo e José Luiz de Almeida Melo chegaram a criar e editar o jornal Dia Virá, que distribuíam pelas ruas de Jaboatão. As Figuras 3 e 4, aqui inseridas, trazem fotos que não constam do mais completo exemplar sobre a Geração, no registro dos seus 30 anos. Elas fazem parte do volume IV do livro A Noite da Longa Aprendizagem. Notas à Margem do Trabalho Poético, de Alberto da Cunha Melo. Fizemos questão de deixar as marcas do volume inédito, porque, em assim o sendo, julgamos por bem trazer, aos leitores destas páginas, a visualização, mesmo que parcial, de suas configurações.

Figura 4. Jaboatão, 1963.

          Desse registro, da Figura 4, achamos por bem destacar as observações da legenda manuscrita do poeta:

          Venda, aos gritos, pela cidade, do jornal meio-anarquista ‘Dia Virá’. Da esquerda para a direita: Raul Gadelha, Ivo Oliveira, o autor destas notas e José Luiz de Almeida Melo. O jornal deixou de circular, por divergência interna, poucos meses antes do golpe militar de 1964. O anarquismo ou a liderança difusa salvou os redatores do ‘patriotismo corajoso’ dos torturadores militares ou para-militares. (MELO, 1978-2000, v. III, registro de 22.11.1981, Recife, PE).

            Dos quatro integrantes do Grupo de Jaboatão, apenas José Luiz de Almeida Melo, ao que tudo indica, abandonou o fazer literário, pois temos conhecimento de um único livro dele: Proibições e Impedimentos, em 1981, pelas Edições Pirata. Ele dedicou-se à profissão médica, passando também pela carreira política. Do grupo era o único cuja família alcançava o status de classe média. Temos, além desse livro, um único registro do dia 13 de junho de 1979, em A Noite da Longa Aprendizagem (MELO, 1979-2000), que dá conta simultaneamente de uma época em que ainda produzia seus poemas e de que a convivência irmã cujas nascentes se encontravam na cidade de Jaboatão, no início da década de 60, prosseguia:

“José Luiz (de Almeida Melo), o ‘velho’ Zé, acaba de visitar-me. Pesado de mansidão, e alegre, entregou-me um poema e disse: ‘Escrevi hoje, depois de 16 anos sem escrever’. Deu ao poema o título ‘Fui-me embora’: ‘Sangrei, lentamente, / até a última alma. / Depois, lentamente, / degustei / a carne ensalgada do meu corpo. / Fui-me embora.’

 

                                                    

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