70 anos sem Fernando Pessoa

60 anos do final da II Guerra Mundial

400 anos de Dom Quixote de La Mancha

                    "Literatura jamais será obra de show business. Enquanto existir o ser humano, haverá sempre lugar e tempo para que um escritor diga a um leitor o que ele acha de temas essenciais da condição humana..."   Deonísio da Silva.

Entrevistadores: Alberto da Cunha Melo, Anderson Braga Horta, Betty Milan, Cláudia Cordeiro Reis, Ermelinda Ferreira, Frei Betto, Gilberto Mendonça Teles, Isabel de Andrade Moliterno, Ivo Barroso, José Nêumanne, Marco Polo Guimarães, Ricardo Vieira Lima, Rinaldo de Fernandes, Urariano Mota.  

 

 

SUMÁRIO

Para uma boa navegação: 01. Acione os títulos das opções abaixo para ter acesso às páginas escolhidas. Melhor sempre retornar pela barra de ferramentas do Windows. 02. Download da entrevista em arquivo Word: Acione a figura (disquete) com o lado direito do mouse e escolha na janela a opção: "Salvar destino como...". Dirija o arquivo para a pasta escolhida no seu computador.

 

   
 

 

 

Clique na capa para ver a foto da escultura barroca original de Bernini Gian Lorenzo: Êxtase de Santa Teresa. Mármore e bronze. Roma, Santa Maria della Vittoria, Cappella Cornaro, 1647-1652. E também para ouvir a nossa homenagem a Deonísio da Silva.

Teresa, que tem a religiosa Teresa d’Ávila, que viveu na Espanha, no século XVI,  como personagem solar, foi premiado pela Biblioteca Nacional, transposto para o teatro e reconhecido pela prestigiosa revista World Literature Today, nos EUA, como um dos dez melhores romances brasileiros dos últimos 20 anos.O poeta e tradutor irlandês John Lyons, como Deonísio, também doutor em letras, está traduzindo o romance para o inglês.  

 

 

 

Fale com Deonísio da Silva. Clique no envelope:
Ou  anote o endereço:
teresa97@terra.com.br

 

 

 

 
Apresentação

     
 

 

Deonísio da Silva: O impossível

 
 

"[Frei] Betto nasceu escritor e depois tornou-se frade. Somos, nós dois, concubinos de Teresa d'Ávila. Esta mulher extraordinária nos ensinou que o mundo é regido por transcendências sutis, complexas e nem sempre perceptíveis por nossa pobre inteligência. Os místicos foram os primeiros a perceber certas fronteiras somente reveladas a fumadores de maconha, haxixe, charutos cubanos e outras drogas, ou a bebedores de vinhos espanhóis, portugueses e franceses, nessa ordem."  Deonísio da Silva, nesta entrevista.


“Literatura jamais será obra de show business. Enquanto existir o ser humano, haverá sempre lugar e tempo para que um escritor diga a um leitor o que ele acha de temas essenciais da condição humana, de valores absolutos, como o amor, a liberdade, a amizade, e da brutal devastação que nos causam tais sentimentos quando perdidos ou extraviados.” Deonísio da Silva, nesta entrevista.

 
     
 

            Nesta entrevista, Deonísio da Silva mantém o mesmo caráter de suas narrativas, pelo menos daquelas que tivemos o prazer de ler: Teresa e Avante, Soldados: Para Trás!. Esse caráter implica no paródico e no humorístico de suas declarações, como ratifica nossa primeira epígrafe e entrevista anterior publicada, entre muitas que pesquisamos. Pensamos em dar a esta apresentação o título: Deonísio da Silva: do Chiste à Metafísica, como acreditamos ser coerente se aliarmos a primeira à segunda epígrafe e muitos outros momentos em que autor e obra refletem uma perfeita simbiose, justificando a sua crítica ao estruturalismo que propõe a exclusão da biografia do autor nas análises literárias: "Eles deram uma contribuição fantástica à censura. E fizeram isso sem querer. De repente, a biografia do autor não valia nada, só o texto. Mas se o escritor é lenha de sua própria fogueira..." 
            No entanto o título que vingou é uma homenagem ao pesquisador Deonísio, e à sua Vida Íntima das Frases, referência a uma expressão muito comum aqui no Nordeste: "Mas que menino impossível", que, nessa acepção, significa "menino excessivamente treloso, inquieto, ousado etc." Sim, a ousadia de Deonísio libera pareceres que muitos cochicham, mas não assumem, como por exemplo sobre a obra literária de Chico Buarque, Jorge Amado, Antonio Houaiss, e muito mais. No entanto não lhe falta a auto-critica: "Como não estou respondendo nada mesmo, pois v. fez perguntas muito profundas...". Tudo vazado por um humor que se sobrepõe à ironia, esse modo que os modernos encontraram de camuflarem as tristezas. Um humor que vela as nossas desesperanças e entretém os tantos medos promovidos pelos contrastes de um mundo em que a mais alta tecnologia não se aliou à solidariedade e à justiça.
          Experimentamos momentos em que o "Mestre da Palavra", como o nomeia aqui Alberto da Cunha Melo, o premiadíssimo autor de 29 obras, em vias de completar a sua terceira dezena com o romance Goethe e Barrabás, — A Girafa Editora promete para 2006 — não se furtou creditar-nos, seja em matéria do Jornal do Brasil, com a primeira referência ao trabalho do nosso Plataforma para a Poesia, seja na apresentação do nosso CD, ou mesmo na emoção incontida com a homenagem que fizemos dedicando a ele a edição do poema "No álbum de Tereza Mota", que você pode ouvir, clicando na capa ao lado e aguardando carregar o arquivo. Momentos do solidário Deonísio. Mas foi ao ler os romances já mencionados que nos veio o segundo "impossível": "Mas é impossível que eu não tenha lido esses romances antes!". Lastimamos por nós mesmos e por centenas de ex-alunos nossos que poderiam ter tido acesso à obra de Deonísio. Refletimos, então, sobre as "continentais" distâncias brasileiras: as geográficas, as econômicas, as educacionais e outras que não valem a pena repetir de tão mesquinhas que são e que, portanto, nos amesquinham se a abordarmos. E concluímos ser urgente a democratização dessa literatura de linguagem-cristal e beleza raras, fonte catarinense nas plagas deste Sítio Virtual Pernambucano e nos mares universais da Web.
                  Ainda estamos muito longe de esgotar todas as informações necessárias sobre ele, mas aqui vocês encontrarão, além das que constam na própria entrevista, muitas outras inéditas na Web. São quatorze intelectuais brasileiros que nos concederam a honra de aceitar nosso convite em participar deste trabalho. Os já moradores do nosso sítio: Alberto da Cunha Melo, Anderson Braga Horta, Ermelinda Ferreira, Gilberto Mendonça Teles, Isabel de Andrade Moliterno, Ivo Barroso, José Nêumanne, Ricardo Vieira Lima, Rinaldo de Fernandes e Urariano Mota; e os que nos chegam com a bagagem iluminada de suas obras: Betty Milan, Frei Betto e Marco Polo Guimarães, creditando ainda mais estas páginas que carinhosamente oferecemos a vocês, na certeza de abrirmos Trilhas valiosas para o acesso a uma literatura que é orgulho para todos os brasileiros e para a Língua Portuguesa.
          A Deonísio da Silva e a todos os que estão conosco nestas páginas, nossos melhores agradecimentos e os votos de que a alegria de Teresa D'Ávila acenda luzes nos nossos caminhos. 

 
 

      

 
 

 

Cláudia Cordeiro

 
 

Plataforma para a Poesia, 25 de junho de 2005.

 
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Obras Disponíveis na Web

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Acesso à bibliografia completa das obras em Língua Portuguesa. Clique aqui!

Várias obras estão traduzidas para o alemão, sueco, italiano, inglês e francês, com edições dos respectivos países e também em Portugal. Acesse trechos: Em inglês: Teresa, cap. 1, Move off, soldiers: To the rear! cap. 2. 

 

E entrevista
 

 

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Alberto da Cunha Melo, Anderson Braga Horta, Betty Milan, Cláudia Cordeiro Reis, Ermelinda Ferreira, Frei Betto, Gilberto Mendonça Teles, Isabel de Andrade Moliterno, Ivo Barroso, José Nêumanne, Marco Polo Guimarães, Ricardo Vieira LimaRinaldo de Fernandes, Urariano Mota

       
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"...nem Bergson, disse coisa definitiva sobre o tempo. Talvez por falta de tempo, pois para alguns temas a vida inteira é muito curtinha. Como para o amor, aliás." 

  Deonisio da Silva

 

"O mito de Sísifo, a lenda de que Santo Agostinho pensava sobre o tempo e a Santíssima Trindade, quando viu um menino tentando esvaziar o mar com uma conchinha (era um anjo!), tudo isso enfeita a minha resposta. Mas a pergunta não pode ser respondida. Porque pênalti o goleiro só pega quando o batedor erra e chuta fora, ou chuta a bola no goleiro etc."

Deonisio da Silva
 

Alberto da Cunha Melo: 

01.  É atribuída a Santo Agostinho a seguinte proposição: "O que é o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei. Se quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei." A Poesia (a que faço) é uma arte do tempo e não do espaço (apesar de algumas vanguardas), mas já pesquisei em tudo que é livro — inclusive os seus — e não encontrei uma definição de ritmo que me convencesse. Estou, portanto, com o Santo Agostinho. Você pode me ajudar, Mestre da Palavra?

Deonísio: Nem bem a juíza apita e o poeta bate pênalti? Pobre deste goleiro, obrigado a agarrar a bola no ângulo, que o batedor é craque. Meu caro Alberto, começo respondendo com você, no poema "Eros", que li no ensaio da Cláudia Cordeiro e continuo com Felipão, para não dizerem que estou esnobando nas respostas e jogando confete quando ainda está longe o próximo carnaval.

    O tempo é cheio de personagens, "todas elas com a mesma face/ que o demônio tem quando nasce". Não sei qual é, mas continuo procurando e lá se foram 56 anos nessa empreitada chamada vida: esses são os anos que NÃO tenho, pois que idos e vividos, gastados. Terei todos os outros que o Senhor, clemente e misericordioso, me conceder, para pensar sobre os temas e os problemas do tempo.

    Leitor e fã de Santo Agostinho, e não apenas quando fala do tempo, mas quando implora "Senhor, dai-me a castidade, mas não já", sei que o tema tem sido objeto de profundas reflexões de filósofos, astrônomos, físicos e, como dizia, do técnico Luís Felipe Scolari, o Felipão, que disse: "Como é que se ganha uma partida? Se ninguém me pergunta, eu sei. Mas se eu tentar explicar a alguém, aí eu vejo que não sei nada".

    Para gente como Felipão, o tempo tem 90 minutos, divididos em duas partes quase iguais, a  imprecisão é por causa dos acréscimos, antes chamados de descontos, que levam uma partida a ter mais de 100 minutos, às vezes, sem contar as prorrogações regulamentares, de 15 minutos cada tempo, e os pênaltis.

    Mas "quid est ergo tempus?", como perguntou Santo Agostinho em latim. O santo baseou-se em Platão, nome que significa em grego "de ombros largos". Sendo bem ortodoxo em português, o filósofo deveria chamar-se Omoplatão: o aumentativo de omoplata. Também Plotino, cujo nome significa Platãozinho, Omoplatinha, inspirou o santo. O mito de Sísifo, a lenda de que Santo Agostinho pensava sobre o tempo e a Santíssima Trindade, quando viu um menino tentando esvaziar o mar com uma conchinha (era um anjo!), tudo isso enfeita a minha resposta. Mas a pergunta não pode ser respondida. Porque pênalti o goleiro só pega quando o batedor erra e chuta fora, ou chuta a bola no goleiro etc. Antes de terminar de não responder, quero dizer que é tudo verdade o que eu disse aqui. Inclusive que o Felipão parodiou Santo Agostinho e os repórteres -- era uma coletiva  -  não perceberam. Na verdade, careca atrás e na frente, semelhando ter tonsura, Felipão é a própria imagem do deus Janus com suas duas faces: uma olhando para a frente, outra para trás, ou vice-versa. NINGUÉM, nem Bergson, disse coisa definitiva sobre o tempo. Talvez por falta de tempo, pois para alguns temas a vida inteira é muito curtinha. Como para o amor, aliás.

01a. Réplica: Fiquei até orgulhoso de você também, como eu, não conseguir definir o tempo. Mas faço a seguinte correção na minha pergunta: [...} Como Santo Agostinho, em relação ao tempo, a maioria dos poetas, inclusive eu, sabe o que é o ritmo, mas se lhe perguntarem, já não sabem mais. O meu interesse é por uma definição de ritmo para a Literatura e especialmente a poesia. Perdão pelo abuso e um abraço mais forte de uma admiração maior.

Deonísio: Como não estou respondendo nada mesmo, pois v. fez perguntas muito profundas, aproveito para acrescentar que aprendo muito com poetas como você, Alberto, feliz descoberta que devo a nosso amigo comum, o José Nêumanne. Mas talvez seja relevante dizer por que eu aprecio os versos que ligam filosofia e narrativa. Como v. sabe, todos os filósofos pré-socráticos foram poetas e grandes narradores, como são Neide Archanjo, Cecília Meireles, Camões, Drummond (tem coisa mais bem contada do que O Caso do Vestido?) etc. Guilhermino César, meu professor de literatura brasileira, que mudou a minha vida de escritor, mereceu de Drummond um poema intitulado Seqüestro de Guilhermino César, beleza combinada de verso, ritmo, metro, narração.

 

 
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"...nossa maravilhosa língua portuguesa sabe que a prosa é coisa menor, o importante é a poesia. Dizemos de uma coisa sem importância que ela é prosaica, mas jamais diremos que é poética. Poesia é para elevar, prosa é para desqualificar." Deonisio da Silva

 

"A Internet é um meio que se democratiza rapidamente. Nesse sentido, favorece a arte literária, mas ao mesmo tempo, como a Internet não tem editor, avilta. As coisas entram ali com critério e sem critério. Sem critério entram muito mais."

Deonisio da Silva  

 

 

Cláudia Cordeiro: 

02. Cada livro seu e cada oportunidade de convivência literária com você configuram-se-me como um "Bem Súbito", usando aqui o título de um livro do grande poeta Geraldino Brasil. O seu livro Teresa, ainda leio e releio, para tentar desfazer o feitiço e debruçar-me criticamente sobre ele. Ainda não consegui. É divino. Mas minha curiosidade é esta: nas minhas pesquisas pelos mares da Web, não encontrei referências a nenhuma obra poética sua. Você nunca escreveu nem um poema? Caso tenha escrito, por que abandonou a Arte Poética? Caso não tenha escrito, por que não?

Deonísio: Tenho amigo que diz, de propósito, coisas assim: "ele chegou de chupetão", em vez de supetão. Imagine a cena. Um sujeito com um chupetão ao pescoço, todo esbaforido. Outra dele: "mas v. quer saber assim, sem mais nem menos, de enxofre?" É quase melhor que de "chofre". "Parabéns ao Geraldino Brasil, presente no CD Plataforma. Gostei de seus versos e achei muito bem escolhido o título "Bem Súbito". Claudinha, escrevi poemas, sim, ganhei um concurso nacional, medalha de bronze, em Brasília, nos anos '80. Chama-se O Bar e o Homem. Eis alguns versos dele: "Mas Heráclito não mora mais aqui/ Somente o Bento, professor de Filosofia/ Faz o mesmo percurso do rio/ Todo santo dia". Fiz o poema num momento de depressão -- a única que tive na vida, acho que a segunda me levará, tal o estrago que faz na gente: uma, a gente agüenta, mas duas agüentará? Foi uma homenagem a um colega de São Carlos, o Bento Prado Jr, com quem eu então conversava com alguma freqüência. Não abandonei a poesia, Claudinha. Apenas vi que TODOS os poetas escreviam melhor do que eu. Mas procuro fazer prosa poética, já que sou um homem todo prosa, só faço prosa, coisas prosaicas enfim. Pois a nossa maravilhosa língua portuguesa sabe que a prosa é coisa menor, o importante é a poesia. Dizemos de uma coisa sem importância que ela é prosaica, mas jamais diremos que é poética. Poesia é para elevar, prosa é para desqualificar.

03. A Internet favoreceu ou aviltou a Arte Literária?

Deonísio: As duas coisas. Primeiro, aumentou a capacidade de se desexcluir, se é que existe o verbo. Se não existe, passa a existir. A imprensa veio para divulgar, mas depois passou a ocultar. Por quê? Porque vieram os donos das máquinas. Depois da Internet, só é inédito quem quer. Muitos escreveram sobre a abortada cartilha Politicamente Correto, na verdade um besteirol que proíbe chamar bobo de bobo, delator de delator etc. E por que escreveram? Eu, inclusive? Por que o escritor João Ubaldo Ribeiro, ao tomar conhecimento das 96 palavras proibidas, disparou "emílios", como diz Frei Betto, para todo mundo. A Internet é um meio que se democratiza rapidamente. Nesse sentido, favorece a arte literária, mas ao mesmo tempo, como a Internet não tem editor, avilta. As coisas entram ali com critério e sem critério. Sem critério entram muito mais.

 

 
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"Obtive prêmios importantes também como roteirista de cinema. De um deles, 14 prêmios, mas meu nome vai ser reincluído. Esteve fora dos letreiros por motivos alheios à minha vontade, eu na época estava condenado a dois anos de prisão, a Embrafilme tinha financiado a produção, acho que foi o produtor, já falecido, quem recomendou ao diretor que retirasse meu nome do letreiro. Outro dia o diretor, Sylvio Back, disse que vai reincluir o meu nome com um dos roteiristas."

 Deonisio da Silva
 

Rinaldo de Fernandes


04. Você já recebeu um prêmio importante, o "Casa de las Americas". Para um escritor, qual a verdadeira importância de um prêmio literário? Você acompanha a ficção atual? Que avaliação você faria dela e que escritores destacaria? E a sua relação com a crítica? Como você vê a crítica acadêmica e a chamada crítica jornalística?

Deonísio: Você é Rinaldo Fernandes que, entre outras coisas, organizou o "Chico Buarque do Brasil"? Olha, o Prêmio Casa de las Américas [Avante, soldados: Para trás] me levou ao espanhol, e isso já seria de per si uma coisa ótima. Mas o mais bonito é que me foi conferido por uma entidade prestigiosa, de um país socialista, a Casa de las Américas, com sede em Havana, fundada por uma intelectual e guerreira gloriosa, a Haydée Santamaria. E foi importante também o José Saramago estar no júri. Ainda assim, penso que prêmios não ensinam ninguém a escrever, se os jurados não erram em suas escolhas, ajudam, não os autores, mas os leitores. Acompanho a ficção atual, sim, com muito interesse. Impossível citar nomes, são pelo menos dezenas em cada Estado. De alguns gosto especialmente, como Raimundo Carrero e Denise Barreto (PE), Miguel Jorge e Antonio José de Moura (GO), Esdras do Nascimento e Cineas Santos (PI), Manoel Carlos Karam e Domingos Pellegrini JR (PR), Adriana Lunardi, Valesca de Assis, Luiz Antonio de Assis Brasil, Charles Kiefer (RS), Salim Miguel, Eda van Steen, Solange Rech (SC) etc. Ganhei vários prêmios como escritor, entre os quais o da Biblioteca Nacional pelo romance Teresa, amadíssimo por encantar quem o lê, já adaptado para o teatro, mas que vende pouco, segundo a editora: é um dos meus livros que menos vendeu até agora. Obtive prêmios importantes também como roteirista de cinema. De um deles, 14 prêmios, mas meu nome vai ser reincluído. Esteve fora dos letreiros por motivos alheios à minha vontade, eu na época estava condenado a dois anos de prisão, a Embrafilme tinha financiado a produção, acho que foi o produtor, já falecido, quem recomendou ao diretor que retirasse meu nome do letreiro. Outro dia o diretor, Sylvio Back, disse que vai reincluir o meu nome com um dos roteiristas. Refiro-me a Aleluia Gretchen. Com ele fiz também o roteiro de República Guarani. Eu considero um de nossos melhores cineastas. ALELUIA GRETCHEN, por exemplo, é melhor do que A QUEDA, este filme que está tentando mostrar a face humana de Hitler. Como se humano fosse só ter cuidado com cachorro, tratar bem a secretária etc. Humano, e bem próprio do homem, é também cometer atrocidades, caluniar, excluir, mandar matar etc.

 
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"O caso dos ministros é ainda mais grave, assim como o do presidente Lula: todos tiveram tempo e condições de ir à escola, em cursos de extensão, caso não quisessem aulas regulares, para dominar a ferramenta de trabalho do político, que é, por excelência, a palavra.  [..] Um dos equívocos de Oswald de Andrade foi imaginar que as massas um dia haveriam de comer o biscoito fino que ele fabricava. Jamais! Em nenhuma cultura, em nenhuma época, em nenhum país. "

 Deonisio da Silva

 

Ivo Barroso

05. Deonísio, que será possível fazer-se para evitar que o pronome "lhe" se generalize como objeto direto? conseguir que os locutores de TV digam esta semana e não essa? que os nossos ministros digam transgênico e não trangênico e que alguns "escritores moderninhos" usem o livro de eu mais gosto em vez de o livro que eu mais gosto? 

Deonísio: Meu caro Ivo Barroso, a ver, como dizem os hispanófanos: acho que no caso dos locutores, uma volta à escola, pois somente a relação bunda-cadeira-hora para remover certos furúnculos que lhes subiram das nádegas ao gogó. Que as universidades, por exemplo, lhes ofereçam oficinas de locução, redação e outras poções culturais, com o fim de amenizar o descalabro. As providências são semelhantes para o caso do pronome "lhe" como objeto direto, mas acrescidas de procedimentos que revissem a questão do "tu" e do "você", pronomes que integram a segunda pessoa, mas que, no caso de "você" , requer concordância verbal como se fosse terceira pessoa. O caso dos ministros é ainda mais grave, assim como o do presidente Lula: todos tiveram tempo e condições de ir à escola, em cursos de extensão, caso não quisessem aulas regulares, para dominar a ferramenta de trabalho do político, que é, por excelência, a palavra. Evidentemente, meu caro Ivo, não espere deles o seu desempenho. Ninguém pode ignorar que o sujeito pode ser beneficiado ou praticar um golpe econômico, financeiro ou político, mas de um golpe cultural jamais poderá receber benefícios, ainda que seja ele mesmo a praticá-lo. Quero acrescentar que verdadeiros intelectuais deveriam ser menos indulgentes com tantos erros. Nas universidades, por exemplo, pontificam doutores quase ágrafos no domínio da língua portuguesa em seu código escrito, que insistem em perdoar pecados mortais, alguns de lesa-língua, em nome de um vale-tudo que me desconcerta sempre mais, vindos de onde vêm. Evidentemente, você jamais poderá esperar deles o desempenho de um poeta e tradutor com um percurso admirável como o seu. Em linguagem culinária, o seu menu jamais será sequer entendido por quem freqüenta apenas esses carros que vendem churro, cachorro-quente, lanches rápidos e provavelmente contaminados, dadas as condições em que são feitos. Um dos equívocos de Oswald de Andrade foi imaginar que as massas um dia haveriam de comer o biscoito fino que ele fabricava. Jamais! Em nenhuma cultura, em nenhuma época, em nenhum país. Degustar soneto ou peça de Shakespeare, um parágrafo de Flaubert ou uma estrofe de Dante - eis iniciativas e gostos de poucos em todo o mundo. Sem contar que nem todas as línguas podem contar com um tradutor de sua competência. E digo isso, não para jogar confetes, mas para reconhecer seu talento e dizer com humildade que muitas vezes recorri às suas traduções para melhor usufruir o que degustava. Por fim, "que" e "onde" viraram curingas até de escritores moderninhos, com diz você, modernos fora dos ninhos. Eles também devem voltar ao antigo ninho, a escola. Em suma, falta escola para eles também. 

 

 
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"Graciliano Ramos foi muito delicado com seu colega de romance de 30, o Jorge Amado. Genial o baiano, mas ignorante, não inocente. Adoro ler Jorge Amado e como intelectual fico pensando o quanto sua literatura poderia ser ainda melhor se ele estudasse o português! Intuitivo, narrador excelente, custava polir um pouco a ferramenta de trabalho? "
Deonisio da Silva
 

Urariano Mota

Deonísio, você é um estudioso da língua, apesar de ser um escritor. (Num reino ideal, não haveria nenhuma contradição.) Disso derivam duas perguntas:
06. Por que os gramáticos escrevem tão mal? (Sem brilho, sem graça, sem tempero, sem expressão)
07. Por que há escritores tão desleixados com a chamada norma culta? (Graciliano, clássico da correção e da norma, dizia que Jorge Amado era de uma absoluta inocência em gramática.)
E à margem dessas duas:
08. Como o escritor vê a "invasão" do mundo do show business na literatura? (Chico Buarque, Jô Soares, Toni Belloto, a "poesia" da letra musical...)

Deonísio: Quase todos os gramáticos escrevem mal, meu caro Urariano Mota, porque semelham ginecologistas e urologistas escrevendo sobre os cuidados que devemos tomar para usufruirmos os prazeres do sexo. Eu adoro o dicionário Houaiss, que consulto todos os dias. O Antonio Houaiss era um homem doce, puro, erudito, parecia um sábio medieval, que tudo conhecia. Mas ler um texto dele é como receber um direto do Maguila no queixo. E para esses autores, meu queixo é de vidro. 
Graciliano Ramos foi muito delicado com seu colega de romance de 30, o Jorge Amado. Genial o baiano, mas ignorante, não inocente. Adoro ler Jorge Amado e como intelectual fico pensando o quanto sua literatura poderia ser ainda melhor se ele estudasse o português! Intuitivo, narrador excelente, custava polir um pouco a ferramenta de trabalho? 
Lendo um romance de Chico Buarque, pensei sinceramente em gravar um cedê... Se ele escreve, eu canto! Mas quem ousa falar mal do Chico? Qualquer eventual restrição é atribuída a sentimentos menores, como a inveja. Um dia todos os romances de Chico Buarque serão provavelmente esquecidos. Agora, da poesia do Chico faço bons juízos. O caso do Jô Soares é diferente porque ele é um grande narrador, na fala como na escrita. Tem o que dizer e sabe como fazê-lo. E Paulo Coelho, por exemplo, outro membro da badalada confraria, tem um romance muito bem escrito: "Verônica decide morrer". Literatura jamais será obra de show business. Enquanto existir o ser humano, haverá sempre lugar e tempo para que um escritor diga a um leitor o que ele acha de temas essenciais da condição humana, de valores absolutos, como o amor, a liberdade, a amizade, e da brutal devastação que nos causam tais sentimentos quando perdidos ou extraviados. Este diálogo é feito no silêncio, de coração para coração, em noites vazias, em nichos onde nos refugiamos da insuportável banalidade do mundo. 95% de tudo é bobagem, como disse Theodore Sturgeon: "95% da Ficção Científica é puro lixo. Mas, pensando bem, 95% de qualquer manifestação artística é puro lixo". 95% dessa entrevista, também. 

 
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"...tenho a dizer, já levantando os escombros, que a universidade brasileira foi a principal responsável pelo rebaixamento dos padrões de qualidade na imprensa. A universidade e o sindicalismo. A universidade por diplomar a quem não sabia escrever. E às vezes nem ler. E o sindicalismo por fazer crer que é boa conquista o jornalista trabalhar em horários fixos como se fosse empregado de uma malharia. Seu tecido é outro, as condições de trabalho são outras etc."

Deonisio da Silva

 

"Eles [os estruturalistas] deram uma contribuição fantástica à censura. E fizeram isso sem querer. De repente, a biografia do autor não valia nada, só o texto. Mas se o escritor é lenha de sua própria fogueira... Tire-se Graciliano Ramos da prisão e leia-se Memórias do Cárcere sem tal informação e, claro, cairemos num erro fatal de leitura."
Deonisio da Silva
 

José Nêumanne

09. Deonísio, como você, como estudioso atento, arguto, talentoso e dedicado das origens das palavras de nosso amado vernáculo, encara o destino pouco nobre que tem sido dado a elas no jornalismo, na publicidade e até mesmo na literatura ultimamente, hein?

Deonísio: Descontando os elogios imerecidos lançados sobre mim por meu generoso e querido amigo, o grande autor de O Silêncio do Delator, exemplo de livro que eu gostaria de poder escrever, tenho a dizer, quase soterrado por tantos adjetivos (cá pra nós, que bom ler um Nêumanne, conhecido por seu rigor, falar bem da gente, não, rapazes e meninas?), tenho a dizer, já levantando os escombros, que a universidade brasileira foi a principal responsável pelo rebaixamento dos padrões de qualidade na imprensa. A universidade e o sindicalismo. A universidade por diplomar a quem não sabia escrever. E às vezes nem ler. E o sindicalismo por fazer crer que é boa conquista o jornalista trabalhar em horários fixos como se fosse empregado de uma malharia. Seu tecido é outro, as condições de trabalho são outras etc. De conquista em conquista, como fizeram nas universidades federais com a tal isonomia, deu-se tratamento igual a desiguais. Esta é a maior injustiça que se pode cometer. É como colocar o Ayrton Senna e o Rubens Barrichello -- o piloto genial e o motorista sofrível -- na grade de largada, lado a lado, porque eram brasileiros, porque deve haver igualdade e outras palavras bonitas, colocadas fora de lugar e de propósito.
Na Publicidade e na Literatura deu-se coisa diferente. Enquanto despencavam as tiragens de jornais e revistas — quem vai comprar ou assinar jornais onde escreve gente que "pensa de que" , chama final de campeonato de "play off" e vive fazendo colocações, quando sabemos que o galináceo as faz melhor do que ninguém? — os profissionais faziam comerciais que vendiam. E como o critério era a venda, a qualidade desceu a ribanceira. Na Literatura nunca vi tantos escreverem tão mal! Isto é, não dominam a ferramenta de trabalho, a língua portuguesa.
Eu tenho uma sugestão, Nêumanne. Como a escola despreparou tantos em tantos anos, o jeito é providenciar um pronto-socorro imediato em forma de oficinas de língua portuguesa, de literatura, de conhecimentos gerais etc. E manuais de redação (que já existem, mas precisam ser ampliados e aprofundados).


10. Você não percebe uma competição acirrada entre a crítica estruturalista e nossos novos colegas da ficção nacional para ver quem consegue escrever pior?

Deonísio: Houve algumas exceções, mas os críticos estruturalistas precisavam disfarçar e sofisticar o alheamento e por isso escreviam tão mal. Não sei se ainda se faz crítica estruturalista, mas se eu sentir o cheiro, abandono o recinto. Da literatura me interessam as perigosas ligações que ela tem com a sociedade. Eles deram uma contribuição fantástica à censura. E fizeram isso sem querer. De repente, a biografia do autor não valia nada, só o texto. Mas se o escritor é lenha de sua própria fogueira... Tire-se Graciliano Ramos da prisão e leia-se Memórias do Cárcere sem tal informação e, claro, cairemos num erro fatal de leitura. Exclua-se a biografia de Dostoiésvki e teremos um pano preto cobrindo o texto e o autor, como antigamente os párocos mandavam fazer com as imagens sacras na quaresma. Rubem Fonseca me disse que escreveu O Cobrador daquele jeito para responder à censura de Feliz Ano Novo. Mas, Nêumanne, o pior é quando os mesmos críticos inventam de fazer prosa de ficção. Daí se junta o ruim ao pior. Jamais a flor do Lácio foi tão ofendida como com a enxurrada de novos autores, surgidos principalmente na década passada. Eles, aliás, passaram a reclamar espaço exclusivo como grandes injustiçados. Injustiçados, por eles, são os autores que eles não lêem, pelo menos para saber que houve quem fez coisa melhor antes deles!

11. O que você propõe que seja feito com os gerúndios excessivos que andam poluindo a linguagem oral e ameaçando invadir também a língua escrita neste Brasil varonil?

Deonísio: Bom, Nêumanne, neste caso a única solução é a latrina. Todos os gerundismos serão reunidos em formação ao final do expediente e lançados à geena. Ali haverá choro e ranger de dentes, mas, puxada a descarga, teremos nos livrado das dez pragas do gerúndio. Cumprida a atroz penitência, seus autores, defecados, serão reconduzidos ao convívio dos justos. Abomino penas eternas e por isso não acredito que o Inferno seja obra de Deus. Deus jamais criaria um castigo eterno para seus filhos porque é pai, embora não seja avô! A menos que não sejamos seus filhos, mas daí seremos irmãos de quem? A erva daninha da heresia já ameaça grassar nos campos do Senhor. Servir o gerundismo num texto equivale a oferecer bolo fecal como se fosse deliciosa sobremesa.

 
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"Somos, nós dois, concubinos de Teresa d'Ávila. Esta mulher extraordinária nos ensinou que o mundo é regido por transcendências sutis, complexas e nem sempre perceptíveis por nossa pobre inteligência. Os místicos foram os primeiros a perceber certas fronteiras somente reveladas a fumadores de maconha, haxixe, charutos cubanos e outras drogas, ou a bebedores de vinhos espanhóis, portugueses e franceses, nessa ordem. Considero graça alcançada desfrutar de sua amizade, Betto, e aprender tanto com você. A mística de Teresa D'Ávila é a luz de meu destino..."

 Deonisio da Silva
 

Frei Betto

12. O que significa a mística de Teresa de Ávila em sua vida? 

Deonísio: Frei Betto, que alegria vê-lo aqui! Como todos já sabem, pelos poderes que me foram conferidos como presidiário infanto-juvenil em minha adolescência profunda, quando minha mãe teve vocação para eu ser padre e me pôs num seminário, que deixei depois de sete anos, como Jacó que queria Raquel, mas lhe davam Lia, canonizei Frei Betto, que é um santo! Mas até nisso cheguei tarde, pois Roberto Drummomnd já tinha percebido o Cheiro de Deus no conterrâneo. Mas como o autor de Hilda Furacão conhecera o cheiro de Deus para reconhecê-lo? Eis outro mistério. Falando nisso, Betto-Malthus, onde está o sapatinho da beldade? Você ainda o oculta entre seus guardados no convento? Ou levou para o Palácio do Planalto quando aceitou ser assessor do presidente Lula?
Betto nasceu escritor e depois tornou-se frade. Somos, nós dois, concubinos de Teresa d'Ávila. Esta mulher extraordinária nos ensinou que o mundo é regido por transcendências sutis, complexas e nem sempre perceptíveis por nossa pobre inteligência. Os místicos foram os primeiros a perceber certas fronteiras somente reveladas a fumadores de maconha, haxixe, charutos cubanos e outras drogas, ou a bebedores de vinhos espanhóis, portugueses e franceses, nessa ordem. Considero graça alcançada desfrutar de sua amizade, Betto, e aprender tanto com você. A mística de Teresa D'Ávila é a luz de meu destino, desde que a descobri, ainda na adolescência, mas que sofreu um impulso danado depois das leituras de Quarup e das conversas que tive com Antonio Callado. Escrevi "Teresa" porque ele me mandou um cartão de Roma, que reproduzia o êxtase com que Bernini a concebeu! E, desde há alguns anos, claro, posso contar? Pelo que v. tem dito e escrito!

13. De que modo a literatura dela influencia a sua?

Deonísio: A Teresa tem me ensinado a ver além das aparências, a ver outras coisas, a perceber, mais do que Marx percebeu, porque a dialética é um modo insuficiente de ver o mundo, que as coisas vão bem "além daquela serra que ainda azula no horizonte". Mais do que o branco, o azul, o verde, me interessa o vermelho da paixão. Teresa era apaixonada por Jesus. E por um Jesus que sofria, o Crucificado. Toda mulher amorosa se interessa por homens que sofrem. Por um, ao menos. Por aquele que sofre sem ela, por exemplo: este é o mais procurado. Teresa d'Ávila é como um perfume, uma essência feminina. É ela que vestimos para dormir, à semelhança do que disse de um perfume Marilyn Monroe. Mas eu acordo no catre em que me deito todas as noites, na pousada que o Senhor nos deu no meio da noite escura. Fez isso para que valorizássemos mais a Luz, quando a encontrássemos. 
Betto, eu sempre procuro caprichar quando escrevo ou falo para você, porque tudo em você me chama para o Alto, mas acho, depois do escrito e do falado, que me saí mal, e que me consola a tua conhecida misericórdia, porque se for caso de bênção, você me abençoa; se de exorcismo, me exorciza. Agora, me dê licença, que preciso reler alguns parágrafos de Entre Todos os Homens. Hotel Brasil, Gosto de Uva e outras delícias. E, claro, como você sabe, de O Dia de Ângelo, um livro do qual v. não gosta muito, mas eu adoro, principalmente pelo delírio de Ângelo com a Sóror Juana Inez de la Cruz.

 
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"Os alunos querem entender sem ler, tudo ficou muito rápido, o tempo não escoa mais, se precipita em cima de todos e de tudo! O principal antídoto, Anderson, é o livro. Já ando aceitando até coisas que jamais pensei em aprovar, como uma lei de meu estado natal, que obriga o poder público a comprar 30% de cada edição de autor catarinense, viva ele no Estado ou fora dali. "

 Deonisio da Silva

 

 

 

 

 

Anderson Braga Horta

14. É perceptível que o português do Brasil sofre mudanças aceleradas. Haverá algum ganho nesse processo, mas me parece que as perdas o sobrelevam. Perdemos em vocabulário e em construções sintáticas, com prejuízo para a precisão e a concisão, sem falar na elegância. Já que você, paralelamente à atividade literária stricto sensu, se dedica a questões lingüísticas, como na coluna "Etimologia", de uma revista paulistana, e no livro A Vida Íntima das Palavras, vou insistir na tecla. Pergunto: 
Quais as causas principais dessa deterioração?
e que ações lhe parecem possíveis e recomendáveis para combater esse empobrecimento?

Deonísio: Meu caro Anderson, seus versos sempre primaram pelo apuro da forma, que um crítico atribuiu também à influência das linhas urbanas de Brasília em sua poesia. Concordando com as premissas enunciadas, venho dizer-lhe que a deterioração é uma só: falta a relação bunda-cadeira-hora. Os alunos querem entender sem ler, tudo ficou muito rápido, o tempo não escoa mais, se precipita em cima de todos e de tudo! O principal antídoto, Anderson, é o livro. Já ando aceitando até coisas que jamais pensei em aprovar, como uma lei de meu estado natal, que obriga o poder público a comprar 30% de cada edição de autor catarinense, viva ele no Estado ou fora dali. Parece que alguns autores espertos, mais próximos do poder, já se beneficiaram do amparo, eu ainda não! Mas que bom se cada Estado, em nossos arquipélagos literários protegessem seus autores que, em vez disso, são desprezados ou, pior ainda ignorados em sua própria terra! Ler, ler, ler - é este o remédio.


 
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"Li autores cristãos que respeitam e admiram a mulher, com exceção de São Paulo, que as detesta e não faz segredo disso. Este, porém, não é o caso de Santo Agostinho, Santo Anselmo, Santo Ambrósio e, claro, principalmente Santa Teresa d'Ávila. E Betty Milan, que escreveu romances maravilhosos, como O Amante Brasileiro, A Paixão de Lia, O Papagaio e o Doutor. "

 Deonisio da Silva
 

Betty Milan



15. Você é um dos poucos escritores brasileiros que ama verdadeiramente as mulheres. Você inclusive se diz, em entrevistas, um escritor lésbico. Como foi que você se diferenciou de outros a ponto de cultuar tanto a figura feminina em sua obra?

Deonísio: Acho, querida Betty, que pelas boas influências e pelas terríveis carências. Um dia eu conversava com uma casal de lésbicas e uma delas me disse que eu era estranho, que elas não gostavam de conversar com homens, mas que comigo era boa a prosa. Eu disse: "mas é por nossas afinidades, eu também sou lésbico". Elas começaram a rir e desde então eu tenho dito isso em entrevistas, por achar que a mulher é mesmo a melhor parte da natureza humana: quem ama as mulheres tem bons motivos para fazê-lo. São mais sábias e mais doces do que os homens, com as exceções de praxe. A carência feminina era tão grande nos meus tempos de presidiário infanto-juvenil no seminário onde minha mãe me internou porque ela e não eu tinha vocação para que eu fosse padre, que quando a cozinheira adentrava nos domínios daqueles pastos do Senhor era como se tivesse ali chegado a Miss Mundial! Li autores cristãos que respeitam e admiram a mulher, com exceção de São Paulo, que as detesta e não faz segredo disso. Este, porém, não é o caso de Santo Agostinho, Santo Anselmo, Santo Ambrósio e, claro, principalmente Santa Teresa d'Ávila. E Betty Milan, que escreveu romances maravilhosos, como O Amante Brasileiro, A Paixão de Lia, O Papagaio e o Doutor. 

16. Quais suas principais personagens femininas?

Deonísio: Açucena, de "Teresa" ,a própria "Teresa d'Ávila", ali transformada em personagem; Mercedes, de "Avante, Soldados: Para Trás"; Camila, de "Os Guerreiros do Campo". Açucena é a maior galinha, dá, mas dá, dá que nossa, dá para quase todos que a cantam e encantam, mas dá por amor, se amarra em quem a come, é um ser puro, angelical, autêntico, como se fosse a mulher antes da queda, exercendo uma sexualidade sem culpa nenhuma, mas é claro que uma mulher que dá tanto, é infeliz, está procurando uma essência que não encontra, mas que não pára de procurar. Conheci várias amigas assim, nas quais me inspirei para construir a Açucena, algumas delas tinham vontade de fazer como a Açucena, mas alguma força interior as impedia. Outras eram ainda "piores" do que a Açucena. Camila redescobre o gosto e a paixão dos homens na madureza, dela e deles, e vive o esplendor de sua vida, tão complicada por ser uma fazendeira que tem de enfrentar os sem-terra. De "Teresa d'Ávila'., tenho até medo de falar. Afinal, divido o amor desta mulher com Frei Betto, e sei que nós três somos ciumentos. 

 
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"Podemos ter muitos temas num livro de contos, e um tema apenas, ou poucos, no romance! Esta me parece a principal diferença. Mas acho que até isso foi o senhor quem me ensinou! Aprendo também com sua poesia, que como todos sabem é de altíssima qualidade. Com seus ensaios e principalmente com sua modéstia, sua generosidade, que o levou a escrever um ensaio estupendo sobre a presença de Camões na poesia brasileira. "

 Deonisio da Silva

 

 

 

Gilberto Mendonça Teles 

17. Meu caro Deonísio da Silva, você para mim é um dos novos escritores brasileiros de maior talento, com uma capacidade admirável de se movimentar na esfera do conto, do romance e de várias formas de ensaio. A década de 70 registrou o aparecimento de seus livros de contos, coroados de prêmios; depois, numa espécie de contraponto teórico, você passou a publicar livros de ensaios, chegando mais recentemente às aventuras da experiência com o romance. Assim, a única questão que lhe proponho nesta entrevista, de que tenho a honra de participar, assume de propósito uma feição didática, mas pode, com a sua inteligência, trazer uma bela contribuição para os estudos da narrativa literária.
Em que sentido a criação de um conto (na verdade, a organização de um livro de contos) é diferente da criação e da organização de um romance?

Deonísio: Meu querido professor Gilberto! Como aprendi literatura brasileira da boa com o senhor naqueles gloriosos anos de 1975 e1976, em Porto Alegre, na PUC! Cursos curtos, intensos, depois das aulas íamos beber cerveja com sal à beira do Rio Guaíba, o senhor se lembra disso? Eu nunca esqueci! Derramávamos um cadinho de sal nas bordas da latinha e sorvíamos cerveja em tão boas companhias, assistidos pelo Sol que se punha naquelas águas vermelhas! Tenho um cadernão com todos os contos de Machado de Assis e de Guimarães Rosa resumidos, anotados, esquematizados, um belo guia de leitura até hoje! O conto é muito mais difícil de amarrar do que o romance. Mas um livro de contos oferece uma variedade que o romance não comporta. Podemos ter muitos temas num livro de contos, e um tema apenas, ou poucos, no romance! Esta me parece a principal diferença. Mas acho que até isso foi o senhor quem me ensinou! Aprendo também com sua poesia, que como todos sabem é de altíssima qualidade. Com seus ensaios e principalmente com sua modéstia, sua generosidade, que o levou a escrever um ensaio estupendo sobre a presença de Camões na poesia brasileira. Ou, como o senhor diz em A Hora Aberta: poemas reunidos, no poema Linguagem: "a força (não a farsa/ do cavalo sem ventre/ ou a que sai da caixa/ com sua mola e dente),/ a que se decompõe,/ se une e ramifica,/ essa que tem seu ontem/ rosnando na barriga". Meu ontem, aqueles idos dos anos setenta, querido professor Gilberto, com freqüência rosnam em minha barriga lembrando que meus melhores professores estavam no Brasil meridional, mesmo que não fossem de lá, como o senhor, que é da terra de queridos escritores como Antonio José de Moura e Miguel Jorge, Yeda Schmaltz, do glorioso arquipélago literário de Goiás.

 

 
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" Meu ontem, aqueles idos dos anos setenta, querido professor Gilberto, com freqüência rosnam em minha barriga lembrando que meus melhores professores estavam no Brasil meridional"

 Deonisio da Silva

 

 

 

 

Marco Polo Guimarães

18. Você é um escritor preocupado com a nossa língua. Como vê o crescente surgimento de distorções e liberdades como, por exemplo, grafar Kicaldo (em nomes de produtos), usar o sinal X no lugar de vezes (em promoções: compre em 8 x sem juros), a proliferação de termos em inglês, e a linguagem cifrada usada pelos jovens na internet (pq, no lugar de porque, tbm no lugar de também, abs no lugar de abraço). Acha que a língua portuguesa vai (ou deve) absorver estas "soluções"? A língua empobrece ou enriquece com isso? 

Deonísio: Meu caro Marco, acho, para usar uma linguagem científica,o fim da picada! O fim de tudo. Assim, esses usuários empobrecem a língua portuguesa. Não é o caso dos falantes e dos inventores de novas formas, que a enriquecem. Esses sodomizam brutalmente a língua portuguesa, é tudo sexo bizarro e com sangue! 

 
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"Eu estou escrevendo novo romance, intitulado Goethe e Barrabás, meu caro Ricardo! Deve sair pela Girafa em 2006."

 Deonisio da Silva
 

Ricardo Vieira Lima

19. Deonísio, você estreou como contista, depois escreveu ensaios, estudou a etimologia das palavras (de forma deliciosa e anti-acadêmica, antes desse assunto entrar na moda...), chegou ao romance, com conotações históricas, abordando assuntos tão díspares quanto a Guerra do Paraguai e a vida de Teresa de Ávila.... Enfim, sua obra prima pela diversidade. Há algum acontecimento histórico ou alguma personalidade que lhe motivariam um novo livro? Você tem algum projeto literário antigo que ainda não conseguiu realizar, mas gostaria?

Deonísio: Eu estou escrevendo novo romance, intitulado Goethe e Barrabás, meu caro Ricardo! Deve sair pela Girafa em 2006. É sobre as más escolhas que todos fazemos na vida. Obrigado por seus generosos juízos. Você sabe que no campus de concentração onde eu lecionei antes de vir para o Rio, fui criticado por escrever na CARAS, "uma revista mundana, que ninguém que é sério, lê". E eu respondi: "e como é que v. sabe que eu escrevo lá?" E talvez tenha recebido um pouco mais de dose de inveja, tão comum nos campi!

19a. Por que você utiliza figuras históricas como personagens? Como nasceu seu interesse em fazer esse tipo de ficção? O que você acha do romance histórico, hoje?

Deonísio: 1) Figuras históricas têm o mérito de virem, prontas, constituídas, ensejando que as falquejemos, cortemos, recomponhamos seus perfis, entretendo, divertindo e fazendo com que os leitores as contemplem a partir de outro viés. 

2) Foi o estudo e a leitura sobre a Guerra do Paraguai. Não partilho da guerra travada por terrenos minados que vão a campo para denegrir o Duque de Caxias e o General Osório, por exemplo, apresentando-os como violentos inimigos da independência do Paraguai, liderado pelo "estadista" Solano López. Numa guerra não há ninguém inocente, seja de que lado lute, e são os vencedores que escrevem a história. A literatura, sendo história clandestina dos povos, como eu a concebo, pode tratar com isenção desses temas.

3) Há muitos e bons romances históricos. Destaco alguns do Brasil meridional, como Ana sem-terra, do Alcyr Cheuíche; todo o ciclo desse tipo de romance que o Luiz Antonio de Assis Brasil faz tão bem; Domingos Pellegrini Jr, no Paraná; Guido Wilmar Sassi, em Catarina, etc.
Como disse você no ensaio Festa para a Inteligência, citando T. S. Eliot "o crítico de poesia é aquele que tem, como objetivo primordial, ajudar o leitor a compreender e a sentir prazer na leitura do poema". O romancista que faz narrativa ancorada na História deve ter preocupação semelhante. Eu tenho. Ou, sempre me louvando em seu belo ensaio, quando cita Burton, “o crítico deve primeiro tornar claro ao leitor o assunto de um poema e a atitude do poeta em face do mesmo; segundo, dar ao leitor, clara e inequivocamente, a opinião que ele (o crítico) formulou sobre o valor do tema e sobre o tratamento que lhe dá o poeta.” Essas são coisas que valem também para a narrativa, ainda mais para mim, que pretendo fazer prosa poética. Você lembra também o que disse Carlos Bousoño: “Estudar um poeta é comprovar o que este tem de comum com seus contemporâneos e com a tradição mediata ou imediata, e o que tem de diferente, de inovador, de inventor.” Pois é. Substitua-se poeta por romancista, que resulta em coisa semelhante.

 
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" Macunaíma, de Mário de Andrade, é romance? Sou romancista, sei que não é, desafio que um romancista considere Macunaíma um romance. [...] Mas está no cânone como romance! Adoro ler Mário de Andrade -- nem tudo o que ele escreveu, claro -- mas até ele está no cânone no nicho errado!"

 Deonisio da Silva
 

Ermelinda Ferreira

20. Num de seus polêmicos livros, O Cânone Ocidental, Harold Bloom comenta que "o idealismo é agora a moda em nossas escolas e faculdades, onde todos os padrões estéticos e a maioria dos padrões intelectuais estão sendo abandonados em nome da harmonia social e do remediamento de injustiças históricas. Pragmaticamente, a 'expansão do cânone' significou a destruição do cânone, pois o que se ensina não inclui de modo algum os melhores escritores, que por acaso sejam mulheres, africanos, hispânicos ou asiáticos, mas antes escritores que pouco oferecem, além do ressentimento que desenvolveram como parte de seu senso de identidade."
Você mencionou numa entrevista que, embora seja difícil decidir sobre o que não se deve ler, não haveria dúvidas quanto ao que vale a pena ler. E citou os clássicos. Na sua opinião, e com a sua longa experiência no ensino superior de Letras, a tendência para os estudos multiculturais que hoje se observa na universidade, e que tende a considerar 'datados' os clássicos do cânone ocidental, poderia ser associada a uma retomada desses livros? Como repensar o cânone a ser objeto de estudo na universidade, hoje? 


Deonísio: Ermelinda do céu, v. quer me matar, oxente, m'nina? Que pergunta difícil, sagaz, complexa! É urgente, sim, rever nosso cânone. Parece hospício, onde nem todos os que são, estão, nem todos os que estão, são. Mas, sinceramente, pessoas como você, eu e os entrevistadores deveriam ser consultadas! Macunaíma, de Mário de Andrade, é romance? Sou romancista, sei que não é, desafio que um romancista considere Macunaíma um romance. E um dia perguntei a Flávio Loureiro Chaves, professor de literatura brasileira na UFRGS, em Porto Alegre, agora aposentado e trabalhando em Caxias do Sul, "Macunaíma é romance, Flavinho?" E ele: "claro que não, né, Deonísio!" Mas está no cânone como romance! Adoro ler Mário de Andrade -- nem tudo o que ele escreveu, claro -- mas até ele está no cânone no nicho errado!

 

 
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"Você diz, Isabel, num ensaio: "O poema também conta com um tom narrativo, o eu descreve as cenas sem se manifestar, como se apagasse do leitor a imagem de um observador que lhe filtra as imagens. O leitor tem a impressão de presenciar os acontecimentos que vão se desenrolando ao longo do texto. Contudo, sua interpretação é bastante direcionada pelo eu que, ao caracterizar os sujeitos, com adjetivos ou ações, vai inculcando no leitor seu próprio ponto de vista". Pois saiba que é este "eu" que eu também persigo em minhas narrações. Aliás, eu gosto mais de fazer e do que faço em contos, romances e livros infanto-juvenis, ainda que nesses livros de origem de palavras e de frases famosas eu usualmente conte histórias de como palavras e expressões surgiram e se consolidaram ao longo do tempo. "

 Deonisio da Silva

 

 

 

Isabel de Andrade Moliterno

21. Prezado Deonísio, mais do que qualquer pessoa, você deve ter em mente que a língua está em constante transformação. E o sentido, lembrando Bréal, é o que está mais apto às mudanças, o que justifica a existência da pesquisa etimológica, mas também a torna mais difícil. Imagino que elaborar um dicionário etimológico seja um trabalho árduo, mas muito prazeroso também. Conte-nos como você fez o seu. Como você selecionou os vocábulos e expressões contemplados e como pesquisou suas origens? 

Deonísio: Querida Isabel, como você escreve bonito sobre a poesia de Alberto da Cunha Melo! Você ainda está na USP? Foi lá que fiz meu doutorado na década de 1980. Defendi a tese em 1989! Outubro, dia 16. Não é só o primeiro sutiã que jamais é esquecido, a última tese também não se esquece! Principalmente pelo espartilho do método, que quase mata um ficcionista que se mete a buscar doutorado! Não resisto a transcrevo um trechinho que me fez ter inveja do poeta, aquela inveja saudável, de ver que alguém se debruçou com tanto carinho e atenção sobre uma obra: "Uma visão racionalista do mundo — racional e ao mesmo tempo paradoxalmente lírica — torna Alberto da Cunha Melo inclinado a reflexões de natureza ética, em que a ironia não deixa de estar presente, uma certa queixa contra o silêncio — o silêncio apenas necessário — daqueles que se tornaram guardas de Sião das editoras e protegem suas cidades, entrincheirados nas barricadas do controle das instituições acadêmicas. O quarteto em metro octossilábico é a característica essencial de seu verso — metro raríssimo na poesia de língua portuguesa. (...). A linguagem conotativa possibilita ao leitor muitos níveis de sentido. Mas creio que Alberto da Cunha Melo se refere — antes de tudo — às interferências, aos ruídos criados pelos que não desejam senão atrapalhar o trabalho do homem mais desarmado de nosso tempo: o poeta. Mas se o poeta resiste, o mundo se afasta velozmente, impedindo-o de participar dessa urgência presentificada em toda a realidade fenomênica". Quem dera, nossos professores e analistas literários seguissem exemplos como o seu! Mas, não, em geral a gente lê tanta coisa sem sentido no campo da crítica universitária! Olha, Isabel, tenho até vergonha de lhe dizer como fiz DE ONDE VÊM AS PALAVRAS, mas você perguntou! Fui quase sempre pautado pela revista CARAS, onde mantenho uma coluna de etimologia há mais de 600 semanas! Mais de dez anos, portanto! Heloisa Fernandes, Judith Patarra e Nilson Marcon, entre outros, têm me sugerido as palavras, outras eu escolho quase aleatoriamente ou então por influências do que leio e ouço.Já a pesquisa, como a fiz, não posso responder aqui. De todo modo, adianto que fiz pesquisas de campo e bibliográficas, mas essas do que aquelas! 
Você diz, Isabel, num ensaio: "O poema também conta com um tom narrativo, o eu descreve as cenas sem se manifestar, como se apagasse do leitor a imagem de um observador que lhe filtra as imagens. O leitor tem a impressão de presenciar os acontecimentos que vão se desenrolando ao longo do texto. Contudo, sua interpretação é bastante direcionada pelo eu que, ao caracterizar os sujeitos, com adjetivos ou ações, vai inculcando no leitor seu próprio ponto de vista". Pois saiba que é este "eu" que eu também persigo em minhas narrações. Aliás, eu gosto mais de fazer e do que faço em contos, romances e livros infanto-juvenis, ainda que nesses livros de origem de palavras e de frases famosas eu usualmente conte histórias de como palavras e expressões surgiram e se consolidaram ao longo do tempo.

22. Sabemos que muito já foi dito sobre a necessidade do diálogo entre crítica literária e lingüística, mas ainda observamos lingüistas alheios à arte literária e críticos cegos aos avanços da lingüística. Já que você transita livremente pelas duas áreas, gostaria de saber qual é a sua opinião sobre a separação ainda existente entre crítica literária e lingüística nas Universidades e como você concebe a relação entre língua e literatura. 

Deonísio: Estive, durante muitos anos, rodeado de lingüistas e poetas, professores e narradores, a máfia toda, que eu também integro, aliás. Mas para a maioria de nós, da literatura, a lingüística é ainda um ramo das ciências ocultas, como a feitiçaria e os funerais de sapos nas encruzilhadas. Confesso que tenho dificuldade de entender o que a maioria dos lingüistas escreve, mas entendo ainda menos a separação existente nas universidades entre língua e literatura. Como, se a ferramenta do escritor é a língua? E a dos leitores também! Lingüistas e críticos literários, 

 
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Espero que haja sempre editores no mundo, pois sem eles não haveria escritores nem leitores e todos ficaríamos inéditos para sempre, que é um modo que temos de morrer, pois escrever é viver. Deonísio da Silva (Teresa. São Paulo: Mandarim, p. 219)

   

 

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