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e leia o discurso proferido por ocasião da entrega do Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras, ao romance do ano, O Silêncio do Delator, em 25 de agosto de 2005. |
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Prêmio Personalidade 2005. |
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aqui e leia
o Discurso de José |
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Entrevistadores |
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Alberto da Cunha Melo, Alcir Pécora, Anderson Braga Horta, Cláudia Cordeiro Reis, Deonísio da Silva, Evandro Afonso Ferreira, Eduardo Martins, Gilberto Mendonça Teles, Mário Hélio, Martim Vasques da Cunha, Rinaldo de Fernandes e Urariano Mota |
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Visite o site pessoal de Nêumanne: www.neumanne.com |
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"Se você me perguntar qual será a prosa do futuro, eu lhe direi que ela não enfrentará tanto o complexo mergulho lingüístico do irlandês James Joyce, mas tentará mais seduzir e enganar o leitor com uma proposital mistura de erudição e enganação, fórmula do portenho Jorge Luís Borges. A primeira versão deste meu romance, escrita no papel, em 1984, era uma apaixonada tentativa de vencer o paradigma joyciano. O resultado foi desastroso, como atestou um amigo que a lera à época, o magnífico poeta e jornalista Álvaro Mendes. Minha experiência de “Joyce de Bodocongó” malogrou feio. Como era natural, tentei agora fugir para o borgiano puro, propondo-me a escrever sem truques, o que chamei de 'texto zero'.". |
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José Nêumanne |
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"A publicidade exercita a criatividade para vender bens e serviços. A poesia não tem valor utilitário, mas reconcilia o ser humano com o seu âmago, evita que ele se perca de si mesmo." |
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José Nêumanne |
| 05 | Deonísio da Silva |
a) Nêumanne, por que a literatura brasileira é tão pouco traduzida, se todos os que tomam contato com ela aprovam sua alta qualidade? |
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Nêumanne: Meu amigo Deó, autor da obra-prima Teresa, entre outras, você sabe muito bem que este é um assunto muito mais geopolítico que propriamente literário. Infelizmente, nossa bela e inculta (na verdade uma licença poética para definir a língua em que Machado de Assis escreveu, não é mesmo?) língua materna é pouco falada e escrita apenas em mercados pequenos e pobres, à exceção do Brasil, que é emergente, não é isso? Sob o domínio do inglês, do francês e do espanhol, o mercadão global exclui a lusofonia, mantendo-a num gueto literário, do qual nem gênios incontestes, como Manoel Bandeira e Fernando Pessoa, conseguem sair. Esse não é, contudo, um defeito, mas uma fraqueza de nossa literatura. É o que acho. |
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b) Você é grande amigo de seu editor, o Pedro Paulo de Sena Madureira. Quando vocês se conheceram e como? |
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Nêumanne: Conheci Pedro em 1969. Eu tinha 18 anos e meu amigo, o grande poeta e camoniano Álvaro de Sá, me conseguiu um emprego na burocracia da Editorial Bruguera, uma associação entre a grande casa editora de Barcelona e o empresário brasileiro Luís Rosemberg, pai do cineasta homônimo. Fui chefe do departamento de reembolso postal da editora, que fazia sucesso nas bancas de jornal com romances de faroeste e quadrinhos de Asterix e Lucky Luke. Mas meu sonho era fazer parte da redação, chefiada por Leonardo Fróes e da qual Pedro fazia parte, juntamente com Nei Leandro de Castro, Álvaro Mendes e Ivan Junqueira, que, para minha sorte e meu orgulho, são meus amigos pessoais até hoje. Voltamos a nos encontrar quando eu fui dirigir a redação do Jornal do Brasil no Rio e ele comandava a Nova Fronteira, logo após a morte de Carlos Lacerda. Era a grande editora do Brasil e nossos almoços não tinham fim. A convite de Oswaldo Siciliano e Fernando Morais, então secretário da Cultura, Pedro veio morar em São Paulo e desde então nos temos encontrado muito mais. Quando ele saiu da Editora Siciliano, apresentei-o aos Veronezzi e a Roberto Vidal e inventamos a Girafa Editora, pela qual saiu este meu romance O silêncio do delator, que se estrutura sobre um poema que Pedro fez dedicado a mim. |
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c) Que importância teve para você, em seu processo de criação literária, o poema Inventário, do Pedro Paulo de Sena Madureira, tão citado no romance? |
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Nêumanne: Mantive sempre com Pedro Paulo uma relação de dependência intelectual minha em relação a ele. Ele mexeu em todos os textos que publiquei na vida, inclusive os que ele não editou. Mas nunca lhe mostrei o projeto de romance que daria no Silêncio. No dia em que fui conversar com ele sobre o projeto do livro, tirou da gaveta um poema e o leu, atribuindo-o a um amigo de Neide Archanjo, que o teria trazido do Rio. No fim, o poema, que na verdade era de sua lavra (Pedro é um poeta de primeiríssima água e tem um material inédito excelente, à altura do poema Inventário, que reproduzo no romance), me emocionou por dois motivos: parecia ter sido escrito por mim e reproduzia a estrutura apaixonada e amarga do romance que estava pronto em minha cabeça. Daí, minha decisão de torná-lo a espinha dorsal de minha narrativa. Vai entender os mistérios da criação! |
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d) Você sempre se mostrou um intelectual independente e muito crítico com o poder. Esta atitude lhe trouxe problemas? Quais? |
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Nêumanne: No começo, tive alguns problemas com isso, porque vivíamos em plena ditadura e a patrulha ideológica era mais vigilante em relação aos autonomistas irredentos que nem eu. Mas nunca me arrependo de me ter mantido independente em relação aos rebanhos ideológicos. Hoje acho que no fim me dei bem: atribuo o parco (mas para mim suficiente) prestígio como jornalista e escritor ao fato de nunca ter sido tendencioso, ou pelo menos sempre haver tentado não sê-lo. |
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e) Tem futuro a delação no Brasil? Porque passado parece que tem, desde os tempos de Joaquim Silvério dos Reis, que se reencarnou em tanta gente! |
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Nêumanne: A delação viceja na falta de liberdade. O delator só tem futuro em regimes fechados. O remédio contra a delação é a abertura, a democracia, a liberdade. A opção da sociedade brasileira pelo Estado democrático de Direito é um desestímulo a essa abjeta atividade, acho eu. |
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f) Você adotou o tom memorialista em seu romance, um viés que dá bons frutos desde Machado de Assis (Dom Casmurro), passando por Graciliano Ramos (São Bernardo) e por inumeráveis contistas. Seu romance já nasceu assim ou você tentou outros modos de escrever a mesma história antes? |
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Nêumanne: Em 1984, tentei narrar, de forma joyciana, como expus aqui antes, a história de um quadrilátero amoroso: um sujeito abandona a mulher, que conhecia desde a adolescência, e a amante, que entrou em sua vida sem passado, por uma paixão de infância. Dá com os burros n’água, porque nenhum dos dois era mais o mesmo e joga o carro com a nova parceira sob uma carreira na Via Dutra. O resultado foi catastrófico e nunca gostei dessa solução trágica artificial. Quando vi, em fins de 2003, o filme As invasões bárbaras, do canadense Denys Arcand, tive a impressão de que aquele sujeito havia filmado o romance que eu não escrevera. À época, estava lendo Fazes-me falta, da portuguesa Inês Pedrosa, o relato de uma relação indefinida por uma mulher morta e um homem em seu velório. Foi esse o ponto de partida para o romance. Ao relatar ao Pedro Paulo meu projeto é que ele lembrou que, no fundo, ali subjazia mesmo era o Brás Cubas de Machado de Assis. E me incentivou a parodiá-lo. Foi o que fiz. Depois, entrou outro elemento: eu planejava fazer um romance a partir do samba O velório do Heitor, de Paulinho da Viola. É a história de um cara respeitado em sua comunidade, mas cujo velório foi tumultuado pela entrada de uma mulher detestada pela viúva, ao que parece por excelentes motivos. A idéia era fazer uma coisa tipo Rashomon, o filme de Kurosawa em que o mesmo assassínio é narrado de diferentes formas. A capacidade de ser muitos que tem o ser humano sempre me fascinou e desafiou como escritor. A morte natural e o velório depois eram a oportunidade de tornar ainda mais verossímil a reunião da patota da adolescência para narrar a saga da geração que viveu nos anos 60. Misturei tudo e deu nisso. |
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g) O Brasil tem cerca de 3 000 editoras e menos de 1 000 livrarias ou pontos de vendas de livros. Qual é a saída para o livro chegar ao leitor? É este o grande problema, não é? |
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Nêumanne: Acho que esse é um problema conjuntural, querido. O governo e a sociedade têm de combater duas pragas que assolam o mercado editorial no País: o analfabetismo propriamente dito e o funcional, de um lado; e a baixa renda, de outro. Os dois juntos é que tornam o negócio editorial inviável. Contra esse mal não há remédio na literatura, mas na atividade política e na gestão da coisa pública. Há muita incompetência e muito amadorismo na indústria editorial brasileira, reconheço, mas o problema de fundo é a conjunção perversa do analfabetismo com a pobreza. No fundo de tudo, os problemas são de educação básica e escala econômica. |
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h) Perguntaram a Harold Bloom, quais os dez melhores romances do mundo nos dois últimos séculos. Ele escolheu seis de língua inglesa. Perguntaram quais os melhores vinte a um punhado de críticos e professores brasileiros. Eles encontraram apenas dois, Machado de Assis e João Guimarães Rosa, com exceção do professor da USP, Massaud Moisés, que listou três: esses dois e mais Eça de Queiroz. Nenhum deles citou José Saramago, o único Prêmio Nobel em português. Nenhum deles citou autores da América Latina, menos um deles, que citou Gabriel García Márquez. Da Itália, Giovanni Verga, Luigi Pirandello e Tomasi di Lampedusa não foram citados. Da França, está ausente Marguerite Yourcenar. Da Alemanha, ninguém lembrou Günther Grass. E assim por diante. Se a mesma pergunta fosse feita a você, considerando apenas os que já morreram, para evitar constrangimentos, quais os escritores brasileiros que não poderiam ficar fora da lista? |
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Nêumanne: Da América Latina, certamente Borges. Brasileiros, Machado de Assis, Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. Em língua portuguesa, mais Eça de Queiroz, é claro. Bem, eu não sei se você me permite incluir um não romancista, mas acho indispensável o padre Antônio Vieira, que era português e brasileiro ao mesmo tempo. Só que já vou logo esclarecendo que isso talvez se deva a minha queda por oradores sacros. Talvez a origem disso seja atávica. Meu nome, Nêumanne, é uma corruptela do segundo nome do cardeal (e hoje santo católico) britânico Alfred Henry Newman, um dos maiores oradores sacros de todos os tempos. |
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i) De Oscar Wilde: "a diferença entre o jornalismo e a literatura é que o jornalismo é ilegível e a literatura não é lida". O que você acha desta definição? |
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Nêumanne: Brilhante e exagerada, como tudo que é da lavra do gênio da poesia inglesa. Vale como desafio. De qualquer maneira, ele tem muita razão. Com a agravante de que hoje jornalismo é ilegível e não dá para ler a literatura porque em ambos os casos os autores não são, digamos, completamente alfabetizados e tratam a língua como inimiga de infância. |
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j) Você já está gostando de ser vovô assanhado? Como vai o Pedro? É verdade que vovô é pai com açúcar, como disse o Gilberto Freyre? |
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Nêumanne: Pedro é a grande descoberta da permanência genética. Quem melhor definiu o avô não foi Gilberto Freyre. Ou Oswaldo Aranha a quem se atribui a frase que você citou. Mas minha amiga Clotilde Tavares, médica holística, filha de Nilo e Cleuza e irmã de Bráulio. Num texto magistral, ela disse que já viu o próprio futuro nos olhos da neta. Para que bola de cristal se meu futuro está nos olhos de Pedro? Pedro é a prova de que eu posso melhorar e serei melhor, pois ele o será. Só preciso fazer uma ressalva. Dona Mundica, minha mãe, comentou com orgulho e sarcasmo: “Deixa de ser besta, menino. Bom mesmo é ser bisavó”. E aí, Deó, que tal, hein? Hahaha! |
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"...o mercadão global exclui a lusofonia, mantendo-a num gueto literário, do qual nem gênios incontestes, como Manoel Bandeira e Fernando Pessoa, conseguem sair. Esse não é, contudo, um defeito, mas uma fraqueza de nossa literatura." |
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José Nêumanne |
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a) Meu caro Nêumanne, você fez, em O Silêncio do Delator, um romance-história, um romance-crítica da literatura nossa hoje, um meta-romance, um romance-memória de uma geração, fê-lo narrar em sete vozes —como as sete notas da escala—, na pauta dos Beatles, de Bob Dylan et caterva, e aproveitou para inserir a poesia no contexto, fazendo-o pela mão do Pedro Paulo de Sena Madureira, embora seja você mesmo (também) poeta. Saiu-se galhardamente dessa malha complexa, desse auto-imposto labirinto, criando um senhor romance cujo protagonista é uma geração que lutou para se encontrar (se se encontrou ou não é um problema à parte) e cuja tônica é a discussão de idéias e da ideologia. Dentro desse quadro severo, tratado com rigor, de certa maneira, mas abrandado com um tanto de humor e muito do coloquial, a que não faltam palavrinhas e palavrões, move-se o leitor sem tropicar na monotonia; pois não é que este leitor aqui foi preferir, nesse panorama, as tintas eróticas (“Ah! o velhinho safado!” — já ouço que me dizem...) com que pinta as diversas cenas de amor? Que lhe parece? (Não vale responder que gosto não se discute.) |
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Nêumanne: Anderson falando assim de meu romançãozinho! É muita honra para este pobre marquês. Olhe, meu amigo, ocorre com este romance uma coisa interessante. A fortuna crítica que amealhou é formidável e variadíssima. Muita gente já escreveu sobre ele e o único que falou mal foi meu querido amigo (e meio discípulo, digamos) Martim Vasques da Cunha. Wilson Martins, Affonso Romano de Sant’Anna, Bráulio Tavares, Carol Almeida, Deonísio da Silva, Ipojuca Pontes, Cláudia Cordeiro Reis, Walter Fontoura, Álvaro Alves de Faria, Caio Porfírio Carneiro, Martinho Almeida, Moacy Cirne, Sérgio de Castro Pinto, Ruy Fabiano, Flávio Tavares, Sinval Medina e Luiz Augusto Crispim lhe teceram em excelente vernáculo loas que me deixaram surpreendido e pimpão. Fábio Lucas definiu-o como “romance-oceano”. Arre égua, sô! Viche! Lêdo Ivo, João de Scantimburgo, Alberto da Cunha Melo, Gilvan Lemos, Flávio Tavares, Jomard Muniz de Britto, Rinaldo de Fernandes, Nei Leandro de Castro e Zé Rodrix elogiaram-no de viva voz. Impressiona-me o fato de que cada um deles o leu por um prisma diferente. Isso é mais do que eu podia pretender. No entanto, ninguém tinha ainda chamado a atenção para as cenas eróticas do romance. Estas foram o meu maior desafio, pois Lobo Antunes disse que não conhece sexo que não seja vulgar na literatura, à exceção de duas cenas: uma escrita por Grabriel García Márquez, outra por Jackie Collins. Resolvi desmenti-lo - hahahaha! E você é o primeiro leitor a se dar conta disso. Fico todo pimpão e comento: vai ler bem assim no raio que o parta! |
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b) De repente, na página 356, um susto: “Brava gente também a que mandou os filhos combater na Europa para evitar que o Velho Continente se submetesse ao Kaiser e depois ao assassino e pintor de paredes austríaco, em nome de princípios civilizatórios, do direito de dissentir e de sentir.” Até aí tudo bem. Mas: “Brava e feroz, essa gente que despejou o cogumelo de fogo para pôr fim ao conflito. O mal necessário. O calor inevitável.” Reajo com uma provocação: Você realmente absolve os poderosos U.S.A. da vingança terrível exercida sobre Hiroxima e Nagasáqui? |
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Nêumanne: Aqui retomo Lobo Antunes. Ele disse que os bons livros não são escritos, mas se escrevem. Minha pretensão é que O silêncio do delator se tenha escrevido sozinho. Nele apenas a letra seja minha, como versejou bonito minha amiga Adélia Prado, ao atribuir a inspiração de seu estro poético ao Criador O que não quer dizer necessariamente que ele seja bom. Mas você, meu amigo e provocador, sabe muito bem que a opinião é da personagem, não do autor. Não absolvo os americanos nem pelas bombas no Japão nem pela invasão do Iraque, até porque sou um admirador da civilização da tolerância fundada nas colônias britânicas no Novo Continente. |
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A geração retratada, que viveu momentos cruciais para o País e o mundo, que tomou posições corajosas, que lutou, sofreu tortura, banimento, morte, pode parecer uma geração perdida, no sentido de que, recusando o status quo (e não podia ser de outro modo), colocou a salvação pessoal e universal fora do indivíduo, numa ideologia, o que quer dizer num ideal necessariamente externo, uma droga entre as outras que marcaram o período e prosseguem marcando nossa humanidade. Paradoxalmente, está nisso mesmo a sua grandeza: tentando encontrar um sentido, não se entregou passivamente às drogas propriamente ditas, mas lutou bravamente, fosse tão-só na surda resistência à manopla do poder, fosse nas batalhas político-ideológicas, fosse afinal na guerra nua e crua, na guerrilha. O maniqueísmo político-ideológico ruiu com o muro de Berlim; o mundo está hoje reduzido a um de seus pólos; E AGORA? |
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Nêumanne: Apesar de os Estados Unidos serem a única potência política, financeira e militar do planeta, meu caro Anderson, não acredito que a polarização tenha acabado. Hoje vivemos a polarização entre a tolerância e a intolerância, que no fundo é a de sempre e exatamente a mais grave. Ou seja, como se dizia no tempo de nossa “patota dos sovacões solidários do recruta Pepé”, “a luta continua”. E vamos em frente, que atrás vem gente |
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| Martim Vasques da Cunha |
O Silêncio do Delator é sobre o fracasso de uma geração e sobre como ela não admite esse fracasso de idéias, ideais e, sobretudo, de vivências. Como você - que fez parte da mesma geração e que agora é um observador nostálgico - encara esse fracasso e como você acha que resolveu esse problema em termos estéticos e morais (componentes fundamentais para uma boa obra de arte) para transformá-lo em matéria literária? |
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Nêumanne: Assim que você leu o livro, meu amigo Martim, teve a decência e a coragem de me escrever um longo recado via Internet sobre suas dúvidas a respeito do gênero e da qualidade do próprio. Respondi-lhe na ocasião que eu mesmo tinha dúvidas quanto a isso e o tempo nos responderia, não foi? Meu livro não pretende ser a última palavra e pode ser ele mesmo um fiasco na tentativa de fixar em prosa de ficção o testamento de uma geração. A obra da geração é maior e mais relevante do que ele em si e deixou marcas profundas, para o bem e para o mal, na caminhada do gênero humano sobre a face da Terra. Nesse ponto, João Miguel, o protagonista otimista, tem razão, e não Penélope, sua viúva, que acha que tudo só se repete e nada foi acrescentado à experiência humana pela geração dela e do marido morto. O malogro é a mais dura, mas ainda assim a melhor forma de aprendizado. Você concorda? |
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| Eduardo Martins |
a) Nêumanne, aqui, a duas aeronaves de distância, em plena Amazônia, ouço a polifonia das vozes em O silêncio do delator, lembro de Bakhtin e Gérard Genette, mas principalmente penso na criação em seu processo mais restrito. A voz reflexiva da crítica está na voz do morto, do outro lado, em recortes que na verdade provocam muito mais o silêncio que a delação. A voz parece surgir como lacuna entre o texto poético (de onde se origina) e a narrativa em si. Como é esta condição de elemento estruturante da narrativa para o texto poético? |
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Nêumanne: O livro veio como veio, quase sem interferência minha. À medida que eu o escrevia, o repassava a dois leitores, meu editor e amigo Pedro Paulo e meu analista, colega escritor e amigo Humberto Mariotti. Ambos comentavam sempre sobre essa tomada mediúnica do autor pelos personagens. Não tenho idéia de como ele se estruturou, mas veio pronto nessa estrutura polifônica na qual o narrador principal, o morto, funciona como um corifeu. Ele é também a voz da consciência. O morto tudo fala, tudo expõe, até dispõe, e tudo patrulha exatamente porque, sendo morto, não se cinge aos limites das convenções sociais. Será que eu consegui responder a sua pergunta ou me falta instrumental crítico e técnico para respondê-la? |
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b) O funeral, em seu aspecto simbólico, enquadra-se como enigma de uma geração que guarda seus segredos mais secretos como fluxo da “inconsciência” dos homens, a morte de ideais que eram regados ao som dos Beatles e de Bob Dylan. Após quarenta anos, como é ver o governo das esquerdas no Brasil como “sonho” que quase não acabou? |
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Nêumanne: Muita gente teve ilusões e agora está desiludida com o desempenho das esquerdas no governo do País. Eu, feliz ou infelizmente, não posso me dar ao luxo de me iludir. Com mais de três decênios de jornalismo prático e independente, conheço homens, processos e estruturas o suficiente para repetir aquilo que é sabido desde os romanos: “nada do que é humano me repugna”. E nada do que é humano me surpreende. Quem viver mais verá ainda mais. Aliás, meu caro Eduardo, sou obrigado a reconhecer com humildade e sem parti pris, que Lula, que conheci em 1975, me tem surpreendido muito mais para o bem que para o mal. Quanto ao PT, nada do que tem feito me impressiona. Embora muitas vezes muito me assuste. |
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c) A preocupação com o Leitor é uma constante em seu texto.Machado também teve esta preocupação. De que forma você encara este procedimento como uma constante na literatura atual? |
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Nêumanne: Meu mestre em jornalismo, J. B. Lemos, me ensinou, desde minhas primícias de foca: “o patrão do jornalista é o leitor”. Acredito nisso piamente e o transmiti ao escritor. Escrevo pensando no leitor, submetido aos caprichos do personagem, mas de olho no gosto do leitor. Sem o leitor, não existo, sem o leitor nada sou. O leitor é meu pastor, com ele pouco me faltará. |
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d) Na página 384 o morto volta a refletir sobre a arte e diz que “foi-se o tempo em que a atividade literária era um ofício”. O que pensa o Nêumanne em relação a isto? Realmente foi-se o tempo? |
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Nêumanne: A meu ver, meu caro professor, sempre haverá vez para alguém viver do que escreve, enquanto alguém se dispuser a lê o que se escreve. A visão de meu amigo João Miguel, com quem convivi intimamente de janeiro a setembro de 2004, enquanto nos criávamos um ao outro, é apocalíptica. Seu desvio é natural em alguém que morreu e, como diria Madame Pompadour, puxando o saco do amante real, “après moi, le déluge” – em paulistanês, “depois de mim, a enchente de verão”. Pode ser otimismo meu, mas acho que João Miguel estava enganado. E ainda pretendo viver desse ofício. Aos 53 anos, imagine só! |
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"Os jornais estão sendo escritos de forma cada vez mais desleixada et pour cause desagradável. A opção pela forma e o desprezo pelo conteúdo são estúpidos e suicidas, a meu ver. Mas não dá para remar contra a maré. No Brasil, a coisa é ainda mais grave que no resto do mundo, embora fora também essa tendência se manifeste. Afinal, este é um país com muitos analfabetos e a tendência, então, é valorizar a figurinha." |
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José Nêumanne |
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Gilberto Mendonça |
Meu caro José Nêumanne, eu me sinto honrado de participar desta entrevista coletiva no site da Plataforma para a Poesia, sob o comando de Cláudia Cordeiro. Você é um intelectual dinâmico, de seu tempo, voltado para o futuro, e por isso sabe extrair da memória vivida e imaginada a matéria da melhor ficção da atualidade. Admirava-o como jornalista e poeta, e agora o admiro também como romancista. É neste contexto literário que lhe faço três perguntas: |
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a) No seu primeiro livro de poemas, As tábuas do sol (1986), você se mostra um escritor preocupado com a moda das manifestações de vanguarda, a essa altura mais diluídas que autênticas. Um poeta-jornalista que parece querer estar em dia com tudo o que é novo ou novidade. Mas (e é o que mais me agrada) não esquece de pagar tributo à sua região que, afinal, vai ser a tônica de Barcelona, Borborema, dez anos depois, quando você consegue de maneira admirável unir o regional da serra da Borborema ao regional-universal da escultura-arquitetura de Gaudí. A pergunta, portanto, é: Como está a sua poesia hoje? |
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Nêumanne: Minha poesia hoje, Gilberto, grande mestre da arte e da crítica literárias, pretende aproximar cada vez mais a alma do texto, recorrendo ao mínimo possível a truques verbais. Minha poesia hoje é mais cheia de jaça e de graça e mais comprometida com a emoção vertida diretamente na página. Estou preparando um livro de poemas inéditos, Escrituras profanadas, parodiando versículos bíblicos. Infelizmente, tive de pará-lo para atender ao chamado da “patota” e vou ter de voltar à prosa, pois o sertão me convoca para a missão de retratá-lo em prosa, espero, em fim, sem truques nem maneirismos. Talvez minha poesia hoje seja menos apurada formalmente, mas certamente é mais emocionada e mais sincera, mais vinda de meu coração que pulsa do que dos meus olhos exaustos de tantas leituras, felizmente nem sempre inglórias, nem sempre vãs. |
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b) A negação da geração que se calou (ou foi obrigada a se calar para só “delatar” mais tarde, em forma de ficção ou de poesia) está inscrita, na figura de um oxímoro, no romance O silêncio do delator, título portanto muito bem adequado à trama narrativa. Romance polifônico, romance jornalístico, romance geracional — Romance, e dos melhores da atualidade. Por trás das vozes que fazem o contraponto de seu romance, percebe-se a voz silenciosa do narrador geral que “interfere” nas outras vozes, como na do morto, no capítulo 18. As preocupações com prosa e poesia, publicidade e literatura, literatura e vida real — toda a teoria ali referida não lhe parece mais especulações de um jornalista? |
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Nêumanne: E são mesmo. É o que sou. Este é o maior defeito do livro: o cachimbo que entortou a boca do escriba, não do narrador. Eu sou eu e meus limites. Há quem ache que esse vício horrendo pode ser também uma virtude. Confesso que não sei como situá-lo, meu querido amigo. Tomara que o leitor me perdoe por esses assaltos de auto-indulgência. Como eu disse a Martim Vasques, só o futuro me dirá. Repetindo os dizeres das camisetas que o “carcará sanguinolento” Fernando Collor usava, citando os romanos, “o tempo é o senhor da razão”. E também da opinião definitiva. É ou não é? |
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c) Como a linguagem e a técnica do jornalismo se intrometem tanto nos seus livros de poemas como no romance, pergunto-lhe se o melhor jornalismo hoje não é o que mais se aproxima da linguagem literária? |
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Nêumanne: Eu particularmente sou fã incondicional do new journalism de Truman Capote, Tom Wolf e Gay Talese. Leio sempre que posso seus textos e os tomo como guias. Mas vejo o jornalismo se afastar cada vez mais dessa receita simples, sensata e de bom gosto. Acho que a imprensa teria mais futuro no mundo da televisão, do rádio e sobretudo, do computador se fornecesse à clientela em potencial o biscoito fino de textos mais apurados. Infelizmente, a tendência tem sido caprichar mais no design e menos na língua. Os jornais estão sendo escritos de forma cada vez mais desleixada et pour cause desagradável. A opção pela forma e o desprezo pelo conteúdo são estúpidos e suicidas, a meu ver. Mas não dá para remar contra a maré. No Brasil, a coisa é ainda mais grave que no resto do mundo, embora fora também essa tendência se manifeste. Afinal, este é um país com muitos analfabetos e a tendência, então, é valorizar a figurinha. |
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Nêumanne, caro: o plano de construção é complexo. Cito alguns deles: a referência aos acontecimentos internacionais decisivos dos anos 60, em praticamente todas as áreas, mas especialmente na política e na música; a narrativa memoriográfica, em fluxo de consciência, de um autor-defunto; a construção de personagens de um pequeno grupo ao mesmo tempo particular e representativo de certa juventude engajada no Brasil; a análise de letras de músicas de álbuns relevantes da época, como Sgt. Peppers ou Bringing it all back home etc. |
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a) Durante a confecção do livro qual a principal dificuldade que encontrou para conciliar esses diferentes aspectos da sua arquitetura? |
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Nêumanne: Minha única dificuldade, meu caro Alcir, por incrível que pareça, foi conviver com a necessidade de esperar o dia seguinte para o fluxo continuar. O texto jorrava como cascata (será daí que vem a gíria? Hahaha!) e cada vez que eu tinha de interrompê-lo era um desespero imaginar que eu poderia perder esse fluxo. Quando Pedro Paulo leu o primeiro capítulo, comentou: “Esse ritmo está alucinante, não vai ser possível você mantê-lo até o fim”. Quando chegou pela metade, tentou me tranqüilizar: “Fique frio, o livro está pronto, é só escrevê-lo”. Ele tinha razão nos dois casos. E minha dificuldade foi segurar a peteca ao longo dos nove meses de gestação. Acho que consegui. Mais ou menos, né, amigo? Na verdade, saiu tudo diferente do planejado. Escrever este livro foi uma luta diária contra os personagens. E eles ganharam todas as batalhas. Só foi possível chegar ao fim porque segui o conselho de meu amigo de adolescência Bráulio Tavares: “Não olhe pra trás. Só o releia depois de escrever a palavra fim.” Assim o fiz. Dei uma de Jó, devo isso a Bráulio e não me arrependo. Amém. |
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b) Para você, qual é o principal ponto de ligação dessas vozes distintas do romance? |
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Nêumanne: O tempo da ação é a única conexão. Tentei e acho que consegui fixar bem o tempo e deixar o locus indefinido. Será que consegui mesmo? Você, leitor diferenciado, é capaz de saber melhor que eu. Há um truque que facilitou meu domínio lidando com tantas vozes e tantas informações. Se você reparar bem, a estrutura do livro parece complexa, mas é simples. Não passa de um diálogo imaginário entre um sujeito morto e os amigos que vão visitá-lo no velório. Foi assim que imaginei o texto e assim o levei até o fim. No fundo, no fundo, a estrutura de meu romance repete a daqueles filmes de tempo real, tipo Matar ou morrer. Na cabeça de seus personagens e nas vozes o tempo é o do fluxo de sua consciência. Ou será que estou enganado e me enganando, hein, Alcir? Hahaha! |
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c) Por fim, uma curiosidade: você ainda ouve rock? Quais grupos ainda ouve? |
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Nêumanne: Sim. Ouço muito Bob Dylan e os Beatles. Aliás, eu escrevia um capítulo por semana e ouvia a semana inteira sem parar a faixa de um dos CDs, que transportava no carro, ora Sergeant Pepper’s, ora Bringing it all. Quando terminei, parei um pouco com eles, é claro. Mas gosto de escrever ouvindo música e vario muito. Depende do lançamento do momento. Nestes últimos tempos tenho ouvido REM, Ray Charles, Eric Clapton, Rolling Stones, o Let it be (naked), dos Beatles, Cássia Eller, Richie Havens, Joe Cocker, Nando Reis, Fagner, Belchior, Zé Ramalho, Ben Harper, Carlos Santana e, principalmente, um CD que comprei na Livraria Cultura do Shopping Villa Lobos, sugerido por Martim Vasques, contendo uma coletânea das faixas que influenciaram Bob Dylan. A respeito disso tenho uma anedota interessante a contar. Marcos Rey, o genial autor de O enterro da cafetina, uma vez me perguntou: “Você anda ouvindo Mozart quando escreve?” Respondi, perplexo, que sim. E perguntei como percebeu. “É seu ritmo”, disse. De fato, denuncio o que ouço em tudo o que escrevo. |
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a) Na entrevista concedida a Astier Basílio e em outras declarações, você enfatizou que O Silêncio do Delator é um livro feminista. Que aspectos específicos da narrativa fundamenta sua afirmativa? |
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Nêumanne: Oh, Clau, você me está dando aqui uma excelente oportunidade para esclarecer esse ponto crucial no romance. A história é a seguinte: o plano original do livro era inventariar a obra e a herança da geração que passou pelos anos 60 e só me ocorriam fiascos: da revolução política, que terminou em ditadura e tortura, e da revolução de costumes, que transformou o amor livre inicial em galinhagem ampla, geral e irrestrita. E amoral, não é? À medida que lia o livro sendo escrito, meu amigo, crítico e psicanalista Humberto Mariotti comentava: “Porra, Zé, esse livro só tem personagem filho da puta!” Aí, resolvi criar uma personagem luminosa, Esmé, inspirada na protagonista do conto Para Esmé com amor e sordidez, de meu ídolo J. D. Salinger. Ao fazê-lo, ocorreu-me que a conquista mais positiva de minha geração foi feminina. Meu livro pretende contar isso: a mulher contemporânea é o melhor troféu de nossa luta. Inclusive, eu acho que o melhor escritor do Brasil hoje é Adriana Falcão, carioca criada em Pernambuco. Segue-a bem de perto Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque, pernambucana. Fico feliz de verificar que essas constatações sustentam a tese de meu livro, segundo a qual o melhor de minha geração e depois dela tem o gênero feminino. |
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b) As suas múltiplas atividades profissionais, como escritor e comunicador consagrado, obrigam-no a manter um diálogo constante com seus leitores e fãs, principalmente através de seu endereço eletrônico, democraticamente divulgado. Quais as vantagens e desvantagens dessa convivência? Você responde a todos os e-mails que recebe? |
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Nêumanne: Respondo a quase todos os E-mails que recebo. E dou preferência, por incrível que pareça, aos mais críticos. Não sei muito bem responder a elogios. Normalmente recorro a chavões do tipo: “obrigado pela força” ou “espero que continue me lendo, vendo ou ouvindo”. Gosto de mudar a opinião das pessoas sobre mim e é fascinante quando isso acontece, embora não seja tão freqüente como eu gostaria. Hahaha! Considero minha atividade de jornalista, e também a de escritor, uma espécie de carreira pública. E acho que a comunicação com o público, pessoal e direta, é obrigação minha. Mas isso reduz meu tempo, já muito escasso, à quase inviabilidade. Diariamente escrevo um editorial, edito uma página de opinião e faço dois comentários para rádio e dois para a televisão. No entanto, responder a mensagens da Internet deve me ocupar ainda mais que isso, sem produzir, é claro, remuneração financeira. Mas apenas satisfação pessoal, até mesmo quando os leitores me insultam. Acredite-me! Não é masoquismo. É uma característica pessoal minha: sou muito veemente na defesa de minhas opiniões, mas aceito com muita facilidade as razões do outro. Para mim, ao contrário do que escreveu Sartre, o inferno não é o outro. Talvez por isso prefira Camus a ele. |
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c) No caso de uma escolha compulsória entre a leitura de um excelente livro escrito em prosa e outro, igualmente excelente, escrito em verso, qual dos dois você escolheria para ler? |
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Nêumanne: Bem, já que fui pró-poesia na resposta anterior, serei pró-prosa nesta. Hahaha! Eu não leio livros de poesia. Leio poemas. E leio livros de prosa. Sempre que posso. Embora infelizmente não esteja tendo tanto tempo para isso. Abro livros de poesia a esmo e os consulto, como Jorge Luís Borges (desculpe-me a pretensão da comparação) fazia com verbetes de enciclopédias. O único prosador que merece essa distinção é Guimarães Rosa. Costumo abrir aleatoriamente Grande sertão e ler um trecho ao acaso. Muito raramente também faço isso com Os sertões, de Euclides da Cunha. E ainda, mais por dever de ofício, com crônicas de Machado. |
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a) De início, uma questão de nome. qual a origem do "Nêumanne"? |
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Nêumanne: Minha mãe, dona Mundica, freqüentava a estante da Casa Paroquial de Uiraúna, no alto sertão da Paraíba, onde nasci. O pároco, cônego Antônio Anacleto, era proprietário dos únicos livros existentes na cidade. Seu ponto forte, e não podia ser diferente, eram as vidas de santo. Uma dessas biografias narrava a vida do cardeal britânico John Henry Newman. Minha mãe se encantou com ele e resolveu chamar o primogênito de José Newman. Meu pai, seu Anchieta Pinto, guardou a sonoridade, mas não a grafia, e Chiquinha, a mulher do cartório, inventou esse nome com acento circunflexo coerente com o fato de ser proparoxítono e cheio de enes. O pior é que não sou original. Descobri um dia destes que existe outro José Nêumanne, político profissional do sul da Bahia. |
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b) As gerações literárias brasileiras, a partir do modernismo, estiveram sempre nas tensões do formalismo e do informalismo. o primeiro já não poderia ser o tão castiço que enformou os parnasianos, e o segundo já não se pretendia ser mais nenhum grito libertador ou de vanguarda. isso na poesia. você poderia dizer se considera se há algum paralelo disso na prosa? |
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Nêumanne: Acho meio bobinha essa dicotomia. Acho que a literatura não pode ser formal em excesso, porque o formalismo é a própria negação. Mas sou radicalmente favorável à obediência irrestrita aos cânones gramaticais formais. Acho, meu amigo Mário Hélio, hoje diretor da Editora Massangana da FUNDAJ, responsável pela criação do belo trabalho que é ainda feito pela revista Continente Multicultural, agora sob a direção de Marco Polo Guimarães e Homero Fonseca, que a prosa do futuro é informal e coloquial, mas rigorosamente canônica, do jeito como fez, e com imenso sucesso, Jorge Luís Borges. Como fazem no Brasil Deonísio da Silva, Adriana Falcão, Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque, Sinval Medina e Moacir Japiassu, entre outros. Acho que o leitor não suporta os chatos, mas também não admite os “esculachados”. |
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c) Você foi organizado de uma antologia polêmica. que pensa das antologias e das polêmicas? |
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Acho que antologias são truques válidos para incrementar a leitura dos grandes autores e suas melhores obras. São truques mercantis de excelente resultado cultural. Sou polemista de carteirinha. Adoro uma briga. Embora não seja bom de debate porque tenho pavio curto. Isso talvez resulte de meu sentimento de urgência, genuinamente sertanejo. Hahaha!
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"Escrevo pensando no leitor, submetido aos caprichos do personagem, mas de olho no gosto do leitor. Sem o leitor, não existo, sem o leitor nada sou. O leitor é meu pastor, com ele pouco me faltará." |
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José Nêumanne |
| FORTUNA CRÍTICA | ||
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08.outubro.2004 |
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| 09.outubro.2004 © Folha de S. Paulo - Ilustrada - p 4 Obra lembra século 20 por meio de morto falante - O Silêncio do Delator, por Walter Fontoura |
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| 09.outubro.2004 © O Estado de São Paulo - Caderno 2 - p D7 O testamento de uma geração, por Ruy Fabiano |
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| 12.outubro.2004 © Jornal do Brasil - Opinião - p A 11 Romance com Trilha Sonora, por Deonísio da Silva |
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| 24.outubro.2004 © Jornal do Commercio - Recife - Caderno C Um Brás Cubas mais Malandro, por Carol Almeida |
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| 06.novembro.2004 © O Globo - Prosa e Verso Sugestões de Leitura, por Affonso Romano de Santanna |
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| 14.novembro.2004 © O Norte, João Pessoa, Zé vem aí!, por Martinho Moreira Franco |
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| s.d. © Blocos Online O Silêncio do Delator: Livro de uma Geração, por Sérgio de Castro Pinto |
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| s.d. Inédito Um Vendaval Literário, por Caio Porfírio Carneiro |
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| 22.novembro.2004 © Gazeta do Povo, Caderno G, p 4 A Geração Perdida, por Wilson Martins |
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| 21.dezembro.2004 © Observatório de Imprensa Livros Necessários - Indicações para uma retrospectiva, por Deonísio da Silva |
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| 23.dezembro.2004 © Jornal da Paraíba O Silêncio do Delator, por Bráulio Tavares |
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| janeiro.2005 - n° 049 © revista Continente Multicultural O Corpo do Silêncio Delator, por Cláudia Cordeiro Reis |
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| s.d. © Jornal o Escritor - UBE - SP O Silêncio do Delator, por Álvaro Alves de Faria |
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| 07.janeiro.2005 @ Correio da Paraíba Silêncio Revelador, por Luiz Augusto Crispim - (07.01.05 -Correio da Paraíba) |
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| 23.janeiro.2005 | ||||
| @ Correio Popular de Campinas | ||||
| Um Mestre do Romance. Eustáquio Gomes entrevista José Nêumanne. | ||||
| 04.fevereiro.2005 | ||||
| @ Tribuna do Norte, Natal, RN, Sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005, página 2 | ||||
| Anotações de Leitura. Nei Leandro de Castro | ||||
| fevereiro.2005 | ||||
| @ Rascunho, Curitiba | ||||
| O silêncio ensurdecedor de José Nêumanne. Júlio Daio Borges. | ||||
| março.2005. | ||||
| Não existe vida inteira — soneto de Ronaldo da Cunha Lima, elaborado após a leitura de O Silêncio do Delator. | ||||
| 19.março.2005 | ||||
| © Diário do Nordeste, Fortaleza: Especial para o caderno 3 | ||||
| O Silêncio do Delator, por José Alcides Pinto | ||||
| 02.abril.2005 | ||||
| © Jornal da Paraíba, sábado, 2 de abril, Caderno Arte e vida, Página 1 | ||||
| A união faz a (boa) música, por Astier Basílio | ||||
| 01.junho.2005 | ||||
| © Jornal Mantiqueira, página 1 do Caderno Variedades | ||||
| Literatura, Hugo Pontes | ||||
| 04.junho.2005 | ||||
| © Jornal da Paraíba, página 3 do caderno Vida/Geral | ||||
| O Silêncio do Delator, Rômulo Azevedo | ||||
| 08.junho.2005 | ||||
| © Correio da Paraíba | ||||
| As tábuas da perfeição, Luiz Augusto Crispim | ||||
| junho.2005 | ||||
| © Cult, n. 92, páginas 44-46. | ||||
| O ruido da Ironia, Roberto Romano | ||||
| junho.2005 | ||||
| © Imprensa Livre, de São Sebastião, litoral Norte de São Paulo | ||||
| O silêncio do delator. O romance de uma geração. Henrique Veltman | ||||
| 18.junho.2005 | ||||
| © Caderno Idéias do Jornal do Brasil, sábado, 18.06.2005, p. 4 | ||||
| Inventário de perdas. Romance denuncia o silêncio de uma geração. Aleilton Fonseca | ||||
| 20.julho.2005 | ||||
| © Tribuna de Imprensa, quarta-feira, 20.06.2005 | ||||
| A verdade da ficção. Antonio Olinto | ||||
| 22.julho.2005 | ||||
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© Estado de Minas, MG, sábado, 22.07.2005 |
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| Testemunho de uma época, espelho de uma geração. Ronaldo Cagiano | ||||
| 25.agosto.2005 | ||||
| Discurso de Marcos Vinicios Vilaça proferido durante a entrega do Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, a José Nêumanne, pelo romance do ano, O Silêncio do Delator, em solenidade da Academia Brasileira de Letras. | ||||
| 14.setembro.2005 | ||||
| © Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, quarta-feira, 14 de setembro de 2005, Caderno B, p.B7 | ||||
| ABL - Por que o Prêmio José Ermírio de Moraes foi para José Nêumanne. Marcos Vinicios Vilaça | ||||
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| 01. José Nêumanne por
ele mesmo: |
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| 02. Palestra proferida na Academia Brasileira de Letras, em 23 de outubro de 2004: | ||||
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