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A VOZ DO MORTO
Mas
eu sou obrigado a reconhecer, Paulão, Paulinho, que foi nosso
espírito folgazão, que foi nosso descompromisso com a rotina e
com a chatice que dotou a publicidade dos tempos pós-modernos
do que ela tem de mais característico: sua característica
primordial de grande lavanderia de cérebros.
As
toneladas de sabão em pó que lavam mais branco que desabaram
sobre nossas cabeças, sem que sequer o percebêssemos,
reduziram a zero nossa capacidade de distinguir entre um produto
e outro pela qualidade. Não iríamos querer que, dessa maneira,
pudéssemos ter preservado nossa incipiente capacidade crítica
em relação à máquina que promove a cada segundo de nossas
vidas, que invade a tela do computador no trabalho e a da
televisão no quarto de dormir, tivesse resistido à avalanche
de espuma branca, fofa e cheirosa. Certo? Seria mais estúpido
até do que resistir a isso esperar manter, tal tem sido o
volume da avalanche. Os milhões de sorrisos estúpidos
produzidos por um dentrifício cuja qualidade vendida como prodígio
da tecnologia, enquanto não passa de mais um feito para o
cartel do marketing produtivo, humilham nossa dor, tornam
insignificantes nossos problemas cotidianos e nos transformam
numa espécie de escravos da euforia. É como se um deus
malvado, um senhor de todos os risos, impusesse um édito ao gênero
humano: é proibido chorar, é proibido sofrer, não se lamente
nunca, seu filho da puta. Se todo mundo é feliz, por que você
não tem competência para festejar, para comemorar?
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A VOZ DO MORTO
Elsa
era uma pessoa permanentemente surpreendente. Encontrá-la mais
uma vez era como se fosse encontrá-la pela primeira vez. Sua
chegada provocava uma sensação de frescor. Como abrir uma
porta e entrar uma lufada de ar. Como abrir uma janela e tropeçar
num raio de sol. Nesse ponto de vista, todo dia era aniversário
dela. Pois ela era a metáfora carnal da vida. E a vida faz
aniversário todo dia. Dizer que ela me pertence, como Dylan no
título da canção que a retrata, mais que isso que a flagra,
era um excesso de pretensão, um excesso de ambição. Elsa não
pertence a ninguém, nem a si mesma, nem aos filhos ou ao lar,
que abandonou uma vez e não quer mais abandonar. Como a vida,
de que é a melhor metáfora disponível, Elsa não tem dono, não
tem hora nem lugar.
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