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Dois grandes momentos de

       

 

 

 

 

 

 

Fragmento 

(Capítulo 18, p 382 )

A VOZ DO MORTO

Mas eu sou obrigado a reconhecer, Paulão, Paulinho, que foi nosso espírito folgazão, que foi nosso descompromisso com a rotina e com a chatice que dotou a publicidade dos tempos pós-modernos do que ela tem de mais característico: sua característica primordial de grande lavanderia de cérebros.

As toneladas de sabão em pó que lavam mais branco que desabaram sobre nossas cabeças, sem que sequer o percebêssemos, reduziram a zero nossa capacidade de distinguir entre um produto e outro pela qualidade. Não iríamos querer que, dessa maneira, pudéssemos ter preservado nossa incipiente capacidade crítica em relação à máquina que promove a cada segundo de nossas vidas, que invade a tela do computador no trabalho e a da televisão no quarto de dormir, tivesse resistido à avalanche de espuma branca, fofa e cheirosa. Certo? Seria mais estúpido até do que resistir a isso esperar manter, tal tem sido o volume da avalanche. Os milhões de sorrisos estúpidos produzidos por um dentrifício cuja qualidade vendida como prodígio da tecnologia, enquanto não passa de mais um feito para o cartel do marketing produtivo, humilham nossa dor, tornam insignificantes nossos problemas cotidianos e nos transformam numa espécie de escravos da euforia. É como se um deus malvado, um senhor de todos os risos, impusesse um édito ao gênero humano: é proibido chorar, é proibido sofrer, não se lamente nunca, seu filho da puta. Se todo mundo é feliz, por que você não tem competência para festejar, para comemorar?

 

 

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Fragmento 

(Capítulo 6, p. 149)

A VOZ DO MORTO

Elsa era uma pessoa permanentemente surpreendente. Encontrá-la mais uma vez era como se fosse encontrá-la pela primeira vez. Sua chegada provocava uma sensação de frescor. Como abrir uma porta e entrar uma lufada de ar. Como abrir uma janela e tropeçar num raio de sol. Nesse ponto de vista, todo dia era aniversário dela. Pois ela era a metáfora carnal da vida. E a vida faz aniversário todo dia. Dizer que ela me pertence, como Dylan no título da canção que a retrata, mais que isso que a flagra, era um excesso de pretensão, um excesso de ambição. Elsa não pertence a ninguém, nem a si mesma, nem aos filhos ou ao lar, que abandonou uma vez e não quer mais abandonar. Como a vida, de que é a melhor metáfora disponível, Elsa não tem dono, não tem hora nem lugar.

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