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Temos saudade?
Não.Temos raiva.
Erramos tudo
e confessamos.
Confundimos as trevas,
somos pedras em guerra.
Todas as estradas nos desgarram,
os abismos nos reconduzem.
Ouvimos
como as sereias
não ouviram
Ulisses.
Anoitecemos
como Penélope
não bordava
e esquecia.
Nossa viagem
é naufrágio.
A fama,
a conquista
só consagram os fracos.
Portas trancafiadas
passagens obliteradas
conclamam nosso êxito.
Antes dos portos,
além das pontes,
aquém das praias,
sem amarras e cais
alquebrados
já éramos
casco
mastro
e vela.
Criar é nosso júbilo.
Entre risos e rugas
morrer é nossa vitória.
Sonhar nos amesquinha.
Nossa vertigem é nosso pó.
Esgotamos os astrolábios.
Exaurimos os oráculos.
Gastamos o mar.
Musas - ah! as musas,
tão impávidas -
traíram nossos míseros versos
e elegeram a prosa o discurso cabal
do mundo que não nos ganha,
epitáfio do céu que não nos corrompe.
Cadáveres conquanto
- como estamos vivos!
Mortos
- quanta exclamação!
O silêncio é privilégio
de quem delata.
Aqui, portanto, só continuamos
porque não nos amedrontam os berros.
Estrelas,
escórias da luz eterna,
aldebarãs do nosso desespero,
mapas de para onde nunca iremos
- tanta ausência
para tamanha ousadia :
Amor,
quem o merece?
Ardor,
quem não o arrefece ?
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