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"No fim, o poema, que na verdade era de sua lavra (Pedro é um poeta de primeiríssima água e tem um material inédito excelente, à altura do poema Inventário, que reproduzo no romance), me emocionou por dois motivos: parecia ter sido escrito por mim e reproduzia a estrutura apaixonada e amarga do romance que estava pronto em minha cabeça. Daí, minha decisão de torná-lo a espinha dorsal de minha narrativa. Vai entender os mistérios da criação!" José Nêumanne  

 
     
 

 
     
     
 

 
     
     
 

 
     
     
     

 

 

 

Inventário

 

 

          Para José Nêumanne Pinto



Temos saudade?
Não.Temos raiva.

Erramos tudo
e confessamos.
Confundimos as trevas,
somos pedras em guerra.

Todas as estradas nos desgarram,
os abismos nos reconduzem.

Ouvimos
como as sereias
não ouviram 
Ulisses.

Anoitecemos
como Penélope
não bordava
e esquecia.

Nossa viagem 
é naufrágio.

A fama,
a conquista
só consagram os fracos.

Portas trancafiadas
passagens obliteradas
conclamam nosso êxito.

Antes dos portos,
além das pontes,
aquém das praias,
sem amarras e cais

alquebrados

já éramos
casco
mastro
e vela.

Criar é nosso júbilo.
Entre risos e rugas
morrer é nossa vitória.

Sonhar nos amesquinha.
Nossa vertigem é nosso pó.

Esgotamos os astrolábios.
Exaurimos os oráculos.
Gastamos o mar.

Musas - ah! as musas,
tão impávidas -
traíram nossos míseros versos
e elegeram a prosa o discurso cabal
do mundo que não nos ganha,
epitáfio do céu que não nos corrompe.

Cadáveres conquanto
- como estamos vivos!
Mortos
- quanta exclamação!

O silêncio é privilégio
de quem delata.

Aqui, portanto, só continuamos
porque não nos amedrontam os berros.

Estrelas,
escórias da luz eterna,
aldebarãs do nosso desespero,
mapas de para onde nunca iremos
- tanta ausência
para tamanha ousadia :

Amor,
quem o merece?

Ardor,
quem não o arrefece ?


Pedro Paulo de Sena Madureira
São Paulo, 21 de novembro de 2003

 

 

     

Acesso à poesia de Pedro Paulo no Plataforma

 

Entrevista exclusiva para as Trilhas Literárias.

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