Barcelona, Borborema

 

 

 

Barcelona 

 


VI 

Numa tarde de Barcelona
tarde também na Borborema,
vertia uma gota de sangue cada poema.
Naquela tarde em que tudo era noite,
no Tietê espesso,
o homem longo viu a água de óleo
nas agulhas esburacadas da igreja interminável.
Este templo não fica em Abbey Road,
mas ali as pegadas nuas de McCartney,
acolá a calçada verde que Winston Lennon cruzou.
Este templo,
entre o jardim de Goethe em Weimar
e o universo sem rima nem solução
dos abismos de Minas,
não cabe em espelhos de prata
nem se cobre do pano verde dos pampas.
Lá, entre o sem meio e o sem fim,
o homem se diz capaz de amar
o vizinho simples e singular,
em sua passagem ignorada
por cidade remota.
O pavão do Paraíso
faz ninho em cumeeiras
apenas imaginadas.

No sono de Gaudí,
o sonho de José.
Em lugar de degraus,
buracos na torre,
trem de estrelas para o céu,
onde Barcelona e Borborema
brincam de Deus.


(Barcelona Borborema, em Solos do silêncio. Poesia Reunida. São Paulo: Geração Editorial, p. 148-149. Também no CD As fugas do sol. São Paulo: CPC-UMES, s.d., com música incidental do Maestro Marcus Vinícius de Andrade)

José Nêumanne Pinto

 

Todas as coisas caem e são construídas de novo,

E aqueles que as constroem de novo são felizes.

  (W. B. Yeats, ‘Lápis-Lazúli’, Últimos poemas)

 

Arte e editoração de Cláudia Cordeiro Reis

18 de maio de 2005

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