"Ao Divino Assassino"
(Uma Litania ante o SagradoCoração,concebida em Paray-le-Maunial,à época do acidente fatalde Anecy Rocha)
Bruno Tolentino
Senhor, Senhor, o Teu anjo terrívelé sempre assim? Não tens um refratárioà hora do massacre — um mais sensívelque atrasasse o relógio, o calendário?Ao que parece a todos tanto fazpor quem o sino dói no campanário.Começa a amanhecer e uma vez maisrebelo-me, mas sei que a minha vidanão tem como ou porque voltar atrás.Aceito que a mais dura despedidaé bem mais que metáfora do nadaa que se inclina no chão; que uma feridae a papoula sangrenta da alvoradapertencem ao mundo sobrenaturaltanto quanto uma lágrima enxugadaà beira de um caixão. Mas afinal,Senhor, amas ou não a humanidade?Não fui ao escandaloso funerale imaginá-la em Tua eternidadedói demais! Vou passar mais este teste,sim, mas protesto contra a insanidadecom que arrancas a muque o que nos deste!Tu sabes que a soberba da famíliaera maior que a dela e eu tinha a peste —pai e mãe apartavam-me da filhae o irmãozão nem... E hoje, coitados,como hão de estar? Aqui é a maravilha,as genuflexões.... Os potentadose os humildes, a nata da esperança,todos chegam por cá meio esfolados,sangrando como a luz. Não só da França,toda a Europa rasteja até aquiesfolando os joelhos, não se cansade ensangüentar-se até chegar a Ti,e ao menos a um pixote do Além Tejorestituíste a vista: eu quando o visolucei — mas que o cego e o paraplégicosaiam aos pinotes, que o Teu coraçãose escancare e esparrame um privilégioaqui e outro acolá na multidão,só me faz perguntar: E ela? E ela...?Não consigo entender que a um aleijãoconcedas tanto enquanto a uma caméliaTu deixas despencar.... Porque, Senhor?Olho tudo do vão de uma janela,mas vejo a porta de um elevadorescancarar-se sobre um outro vão,um vão sem chão... E a seja lá quem foraqui absurdamente dás a mão!Me pões trêmulo, gago, estupefato,pasmo, Senhor — mas consolado não.A mesma mão que fez gato e sapatoda minha doce Musa, cura e guia,cancela as entrelinhas do contrato,Dominus dixit... Mas quem mereciamais do que uma açucena matinalum manso desfolhar-se ao fim do dia,quem mais do que uma flor, Senhor? Igualnunca se viu nem mesmo entre os crisântemos,tinha direito a um fim mais natural,à morte numa cama, em casa ao menos...Mas não — tinha que ser total o escândalo!Por que, se nem nos circos mais extremosTeus mártires andaram despencandosobre os leões, se nem o lixo caide oito andares aos trancos, Santo Vândalo?!Não vim denunciar o Filho ao Paiou o Pai ao Filho, não vim dar razãoaos que recusam e usam cada aicontra a humildade; vim porque a Paixãome chamou pelo nome a a alma obedecee aceita suar sangue — como não?Mas não sei mais unir o rogo à precedo que a elegia ao hino de louvor,não seu amar-Te assim... Caso soubesseteria que ficar aqui, Senhor,aqui, arrebentando-me os joelhos,esfolando-me todo ante um amorque vai tornando sempre mais vermelhos,mais duros os degraus do Teu altar.Tu, que tudo consertas, dos artelhosque desentortas e repões a andaraté às pupilas mortas de um garoto,do cachoupinho que me fez chorar;Tu, que a este lhe dás a flor no brotoe àquele o lírio pútrido do pus;Tu, que passas por um de quatro e a um outropegas no colo e entregas a Jesus;Tu que fazes jorrar da rocha fria;Tu que metaforizas Tua luzao ponto de fazer de uma agoniaum puro horror ou a morna mansuetude —que hás de fazer, Senhor, comigo um dia?Quando eu agonizar, boiar no açudedas lágrimas sem fundo... Quando a fontecessar de soluçar e uma altitudeimerecida me enxugar a fronte...Como há de ser, Senhor? Oxalá queirasque a mim me embale a barca de Caronte,como o fazia a velha Cantareira,o azul da travessia... A Irrecorrívelarrasta a cada um de uma maneirae a quem quer que se abeire ao invisívelrecordas a promessa: aquele a escutae este a recusa porque a dor é horrível,mas, se a todos a última permutaterá sempre o sabor da anulação,o travo lacrimoso da cicuta,a ela Tu negaste o próprio chão,deixaste-a abrir a porta sem querer!Nunca falou na morte, e com razão,intuía, quem sabe, o que ia ver...Sentença Tua? Em nome da promessanão há negar Teu duro amanhecer —mas quando arrancas mais uma cabeçacomo saber que és Tu, que não mentiaO que ressuscitou? Talvez na pressa,no pânico de Pedro, eu negue um diae trate de escapar, mas hoje não;hoje sofro com fé e, sem poesia,metrifico uma dor sem solução,mas não vim negar nada! Faz efeitoessa dor: faz sangrar, mas faz questãode defender-me como um parapeitocontra a queda e a revolta... Um Botticellidespedaçou-se todo, mas que jeito,se por Lear enforcam uma Cordéliae encarceram a Ariel por Calibã...?Alvorece, a manhã beata velhaenfia agulhas no Teu céu de lã,antenas às Tuas cenas de TV,e eu penso, ela morreu... Hoje, amanhã,enquanto Te aprouver e até que dêa palma ao prego e o último verso à traça,vai doer — mas Amém! Não há porqueamar a morte, mas que venha a Taça,aceito suar sangue até o final,como não... Tudo dói, menos a graça,mata, Senhor, que a morte não faz mal!
Do livro: Anulação e Outros Reparos, 1963
De Bruno:Por que escrevo(excerto)Digamos que escrevo para tentar separaro mundo-como-tal do mundo-como-idéia.Claro? Bem, talvez tenha outras motivaçõesmenos conscientes, mas não tenho melhorjustificativa para exercer um ofício tãoperigoso... Imaginar-se autor parece-metamanha petulância que desde que meentendo tento fingir que sirvo para algumacoisa!....................................................................................Isto posto, que se atente bem: poeta não émaître à penser e jamais pretendi queescavo e escrevo para tentar configurarmais uma teoria, antes o faço de modo atestemunhar de uma resistência a tentaçõesdesse tipo, de que tampouco fui poupado.Mas não complico mais a coisa: confessoao leitor que não sei porque inventei deser escritor. A não ser que o que ficoudito acima faça algum sentido...(Fragmento do encarte do CDO escritor por ele mesmo, Rio de Janeiro,Instituto Moreira Salles, 2001)
A BRUNO TOLENTINO
Alberto da Cunha Melo
Conrad abraçou o tufão
e Bruno à voragem se inclina:
com o ar febril dos carmelitas,
abre o hábito de Katharina;
embora lágrima ao relento,
secando à porta de um convento,
não teme a eriçada pelúcia
de tantas onças recheadas
de papel-jornal e de astúcia;
tampa este abismo de opereta
com uma asa de borboleta.
Foto, arte e editoração de Cláudia CordeiroFormatação: Cláudia Cordeiro e Silvana GuimarãesMid: Domine Jesus, de José Maurício Nunes Garcia,pelo Coral do Centro Universitário Ibero-Americano (UNIBERO),regência do maestro Luiz Marchetti
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