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Vital Corrêa de Araújo
Antônio
Campos, escritor, acadêmico (Academia de Artes e Letras de Pernambuco),
cronista, conferencista, pesquisador do livro como objeto cultural e
ensaísta, é também poeta, Lança um primeiro livro de poemas – e um livro
de primeira.
Essa primeira recolha, levada à estampa com o selo da Escrituras, editora
de São Paulo (e impressa pela EBGE – São Paulo, do dinâmico José Ubiracy),
sob o titulo Portal de Sonhos, revela algo incomum, e assim surpreende. Em
geral, um impulso muito comum leva o poeta na montagem do primeiro livro a
uma seleção pouco rigorosa (mesmo anárquica), concedendo direitos de
cidadania poética a uma série de versos , apenas com valor histórico (os
primeiros poemas) ou sentimental.
Segue-se depois a tarefa penosa de revogá-los e excluir da obra
definitiva.
A minha consideração, como leitor, sob o quilate dos poemas expresso a
seguir.
Uma astúcia – e um equilíbrio de extração grega – uma vontade lírica
conseqüente orientaram a estrutura, concepção e composição de Portal de
Sonhos.
É, como diria Drummond, um livro breve, mas veloz.
Valoriza o sonho (inconsistente como o éter) e sabe que “o sonho faz, no
erguer da asa, até mais rubra a brasa (Shakespeare)”
O livro se estrutura em duas partes, conformando vinte temáticas,
expressas em poemas breves, em que a precisão vocabular (ou seleção do
repertório da língua) e a concisão lírica são exemplares, demonstrando
amadurecimento, na lida com a palavra artisticamente considerada, bem como
apuro e acuramento, na firmeza da última lima. (que mantém o nível poético
alto em todo o livro) e na utilização da voz poética, nunca confundível
com a pessoa do autor dos versos.
Cada parte do livro contempla 10 temas (a 1ª, com 18 textos, e a 2ª, com
23).
Em suma, o poema Portal de Sonhos contém 41 textos, de tal modo e com tal
astúcia estrutural de composição que não fica fácil quantificar os poemas
em si.
Percebe-se, sobrepairando ou permeando o aparato temático visível, um
tópos (ou motivos) submerso, em que o tempo, a vida e o ambiente (o
planeta terra natal) são personagens.
O carpe diem flagra-se em passagens como “e não desespere, aproveita a
vertigem da paixão, enquanto é cedo”, “cada coisa vem a seu tempo e dura
apenas o seu momento”.
O tema da duração temporal e humana e intemporal natural estão presentes
em quase o todo dos poemas, conforme a correlação da temática mostra:
espera, manhã, idade, safra, paixão, duração etc.
No poema anafórico (último tema da 1ª parte), O cavaleiro, é possível
sentir o tempo, de tocaia, ao longo das 10 estrofes.
Flagra-se também uma azáfama de (leit)motivos relacionados com a paisagem
natural (frutos, cores, rios, pássaros, cavalos), com o ambiente cultural
e geográfico Nordeste.
Pedras-de-toque, num apanhado rápido: “tanto cobre-se de ouro, como se
abre em chagas”, “o rio castanho como o mel e a crina dos cavalos”, “para
que as cores se sintam, Deus pintou a Natureza, com todas as tintas”, “a
safra, a messe da solidão, o sofrimento domesticado, a vinda da palavra,
para o nosso lado”, “ a espera é consciência do tempo, hora e momento,
aprendizado com a terra”, ao balanço da imaginação, na rede do ser,
“dispara o coração, procuro domá-lo, sinto o vento lavando a várzea,
correndo mais de cem cavalos”.
Nesta última imagem, “correndo mais de cem cavalos”, Antônio Campos se
supera e avança, como poeta, ao nível dos melhores imagistas, de agora (e
aqui).
No entanto, a texto primo, elejo o poema Aprendizado com a terra (titulo
que é um verso do poema A espera), em que, no âmbito de 47 versos e 12
estrofes, AC alia, ao telurismo, a sinceridade da emoção por Pernambuco e
traduz esse estado, numa composição poética, marcada pelo aprendizado
cabralino de Educação pela pedra, e sulcada por uma dicção poderosa, que
exprime uma imagética (igualmente soberba).
O poema Aprendizado com terra forma, com A duração, O cavaleiro, Paisagem,
Reino do Verde, No Alpendre e Mundo, mundo, um (só) outro grande poema,
que é uma lição das coisas de nosso tempo, na concepção humana e poética
de Antônio Campos.
A propósito, num poema (A espera), de 4 estrofes e 16 versos, é
significante – e simbólico – o amontoado de termos (palavras) do campo
semântico “tempo” Espera (4 vezes), momento ( 3 vezes), tempo (6 vezes),
além de: sono, partida, instante, vôo, hora, terra, estação, sol, noite,
verão, inverno, antes, depois.
Chamo à colação tal poema, graças à criatividade (com o objeto palavra)
demonstrada no campo complexo da correlação semântica (mais intuitiva), em
que arquétipos e ricas associações vocabulares (do eixo sintagmático da
linguagem) operam em tal freqüência, que não saturam mas inauguram um
estilo singular na nossa poética.
Agora, considero o texto de Portal de Sonhos, sob o estalão da
criação poética.
A poesia, esse quid, essa forma do espírito, esse plus do humano, essa
marca da verdade do mundo no homem, cerca o mistério da vida, completa a
existência, porque decifra o ser, conjuga-o. ilimita, torna o mundo humano
– ou funda-o – conforme o divo Holderlin asseverou, e Heiddger deu
fundamento e conseqüência.
De modo magistral – e poético – o acadêmico e poeta Antônio Campos,
presidente do Instituto Maximiano Campos, curador da FLIPORTO, escreveu
que a poesia é um destino. Acrescento: destino humano e destino da razão,
porque a poesia instala-se no espírito e estende-se à página, quando a
censura, o interdito, a oni (pré) potência do racional (egoístico e
autoritário) são vencidos, superados, ou melhor, são escanteados pela
força criativa que jaz no ser humano, permitindo abrir-se a baliza, pela
irrupção (ou extravasamento da bacia) do inconsciente, dos nossos estratos
(ou substratos) criativos, que nos tornam realmente humanos (que são
ocultos, por definição, tornando-se visíveis ou operantes pela poesia).
É aquinhoado, agrilhoado, batido, libertado por essa necessidade que
qualquer um se torna poeta, e nem ao menos entende essa disponibilidade,
esse apoderar-se do espírito poético de seu corpo (organicamente
considerado em toda a sua extensão complexa). Daí que, desde Platão,
falava-se na possessão poética.
É realmente uma força que nos coloniza, nos possui, direciona ao que há
dentro e assim permite ver o que há fora.
Pela poesia, vemos além de qualquer simulação, distinguimos além e aquém
das aparências, que é a festa do racional (monopolizador da práxis) em
nossos olhos mortais.
A poesia nos faz ver o invisível em todas as suas dimensões, em toda sua
concretividade e conexões com o humano.
É essa compulsão (ditada pelo que nos faz, torna e perdura de mais humano)
que alveja o poeta Antônio Campos, levando-o a terçar armas com o poético,
a escavar o id com o buril da alma em riste, a desentocar o intimo e
expô-lo a público.
É uma vitória mais que pessoal a decisão de ser poeta e abrir os diques da
represa do criativo, deixando o espírito correr como cavalo selvagem, para
o leito da página, onde o aguarda o pasto macio e meio demoníaco da
palavra – em – poesia, diva ração que Deus ao homem concedeu.
Ex-positis, considero Portal de Sonhos êxito e pórtico, ingresso e fuga ao
êxtase laborioso da palavra poética, a serviço da realidade do mundo
humano.
Ou seja, como consta do prefácio de Antônio Campos, para o livro do mestre
Sébatien Joachim sobre um poeta pernambucano: a poesia é para nos
compreendermos, não para sermos compreendidos.
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CAMPOS, Antônio. Portal de Sonhos.
São Paulo: Escrituras, 2008. Projeto gráfico: Patrícia Lima. Fotos de Gustavo Maia.
Apresentação de Lucila Nogueira. |