Os guarda-costas
estão tão armados;
quem nos protege
nos domina,
pois sentir-se seguro
é cercar-se de cães
mais ferozes que nós:
eis o erro de todo amor
todo Estado
e toda história
não inventada por nós.

 

 


Fora a nuvem cinza,
dissolvendo seu chumbo
na tarde perdida,
todo resto é humano,
e nervo de dente
exposto aos torpedos
dos grãos crus no inverno,
e margaridas cegas
procurando o estado
sólido do sonho;
todo resto é política,
procurando o estado
líquido ou gasoso
do ser humano.

 

 

Se você não pode
dobrar-se e cobrir-se
de música,
nem gritar, soletrar
o próprio nome
na chuva;
se não pode fingir
ou jogar-se, de vez,
na primeira curva,
você cabe no desespero
feito as falanges da morte
na mais apertada
das luvas.

 
 
 

De um toque
de peles ou pétalas
que se sentiram,
no mormaço das pistas
ou calafrio dos pastos;
de um olhar
a brilhar entre estalos
de vidros sob o leite
de luzes florescentes;
de uma sombra de amada
sobre a sombra da gente,
sempre sobra um resto
de amor não consentido
e já de endereço
incerto e não sabido.

 

 

O que não é
noticiado não existe,
mas fenece
ali, onde o sol
é a única coisa que acontece.

 

 

Quando escrever
é um sinal,
dos mais sérios,
de que alguma coisa vai mal,
e esta modorra
de esperar por nada
é a única
alegria visível,
sob a ágata lúgubre
de um céu em revoada,
fale sempre na primeira pessoa,
a mais perto de ti.

 

 

O tempo, o tempo
está chuviscando
suas trevas,
mas nossa morte é tão pouca
que não muda
o azul da terra;
esse medo e essa vontade
de se acabar
é velha como a noite
que se repete,
ou a brisa que falta
nas vilas chamejantes,
no entanto, com isso
é outra história,
não preciso contá-la.

 

A jovem mãe
com seu filho
encantada,
essa flor
que dá flor
ao invés de frutos,
mas o tempo chega,
e ela se dobra,
e a vida
não se dobra.

 

 

Não há fuga
diante do Nada:
entre os amigos, ontem,
foi difícil
não brincar um pouco,
quando o núcleo do Nada,
radiante e satânico,
estava pronto
a derreter as agulhas
nos lixos
mais abandonados da terra,
e, no silêncio geral,
cada mancha de um corpo
tinha saudade de um homem.

 

Edição de Silvana Guimarães, com trilha sonora de Yo-Yo Ma (Bach, Cello Suite Nr1, Sarabande) e imagens de Sara Roitman, em 08 de abril de 2006, aniversário do poeta, especialmente


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