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Canto Condensado e discurso poético em Mauro Mota |
Alberto
da Cunha Melo
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O
BACHAREL Glória
do município. Fazer
o curso de Direito na Faculdade do Recife, ser
nomeado promotor. Não
enganar Jandira, casar com Jandira, ir
morar com Jandira no chalé vermelho. Gaiolas
de pássaros no alpendre. Leões
de pedra surgindo da floresta tenra
do jasmineiro do portão. Brilhar
nas sessões do júri e nas festas cívicas, escrever
no semanário e esperar tranqüilo o baby e o concurso para juiz.
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Os escritores – e, principalmente, os poetas – são os mais inseguros dos artistas. E essa insegurança geralmente os brutaliza, torna-os injustos com os escritores mortos. Quando alguma alma penalizada reclama, por exemplo, que Cassiano Ricardo está esquecido, eu costumo responder: - Esquecido, não, silenciado. No Jornal do Commercio, do Recife, o colunista José de Souza Alencar (Alex) vem, ano após ano, denunciando o que considera o esquecimento em que teriam mergulhado o nome e a obra de Mauro Mota. Seus livros sequer são reeditados.
Mauro não foi esquecido ele foi e está sendo silenciado, porque a sombra enorme de sua obra pode obscurecer as obrinhas de muitos poetas considerados importantes em nossos dias. As autoridades culturais movem-se vegetativamente, e só com muita pressão – da minha eles ririam – investem alguma coisa em monumentos artísticos que não sejam ruínas de pedra e cal deixadas pelos nossos antepassados.
Mas ponhamos a mágoa de lado e falemos primeiramente no livro de estréia de Mauro Mota, Elegias, que publicou em 1952, aos 41 anos. Esse livro possui embrionariamente toda a poética mauromotiana, a da alternância entre a poetry as speech e a poetry as song, para usar aqui expressões muito caras ao universo de Ezra Pound. Mauro usa o verso-livre para alcançar uma poesia aberta e dialógica, e utiliza o verso metrificado (decassílabos e heptassílabos), para elevar o teor mélico da tradição vernácula, de modo soberano.
Essa alternância acompanha todos os livros de poesia de Mauro Mota, dando-lhe um perfil bastante personalizado entre os integrantes da chamada Geração de 45. Ele e João Cabral de Melo Neto estão nessa geração por um determinismo cronológico, como dois pássaros raros e estranhos nesse polêmico ninho.
No entanto, essa sua estranheza passou de certo modo despercebida em virtude da fama, com todos os méritos, de três poemas, em especial: “Dez Elegias”, “A Tecelã” e “Boletim Sentimental da Guerra do Recife”, onde uma das propostas de 45, a da renovação de formas canônicas, tradicionais, foi enriquecida com novas peças exemplares.
O poema “Dez Elegias”, o mais festejado da obra de Mauro Mota, elevou-o à posição de maior poeta elegíaco do Brasil, em qualquer tempo. Essa espécie de poema surgida no séc. VII a.C., na Grécia, em dísticos que alternam o hexâmetro com o pentâmetro, começou como canto de guerra para transformar-se, no séc. VI a.C., em sombrio gemido de dor, através de poetas como Simônides de Ceos.
O hexâmetro greco-latino é geralmente transposto para o decassílabo, no vernáculo, e foi esse o metro escolhido por Mauro para as suas elegias, aliando-o a desconcertantes imagens visuais, mas sem quaisquer rebuscamentos, o que o coloca, também, entre os melhores renovadores do soneto, entre nós. Ele deu à elegia um tratamento atualizado do séc. XX, acrescentando novo brilho a uma espécie literária com dois mil e seiscentos anos. Essa transfiguração formal atravessa toda a poesia metrificada de Mauro Mota, onde se revezam, como já disse, dois metros, o decassílabo e o heptassílabo, os mais cantantes da língua, e que identificam todo o segmento de sua obra que me atrevi a chamar de “poetry as song”.
Seguramente, os versos metrificados são mais numerosos do que os versos-livres. Elegias, por exemplo, tem 26 poemas, dos quais apenas 8 são em verso-livre. Por ter experimentado este último por vários anos, acostumei-me a classificar, para meu uso, em dois tipos, os poemas que o utilizam: o poema-crônica e o poema-polimétrico. No primeiro, versos enormes são misturados com versos curtíssimos; no segundo, há uma faixa de oscilação, entre um máximo e um mínimo de sílabas (optei por este).
Mauro Mota pratica, em verso-livre, o poema-crônica, mas daquele tipo que o crítico chileno J. M. Ibáñez Langlois descreveu a respeito da poesia de Pound: “um dizer coloquial, a poesia como prosa (...) com todas as técnicas narrativas, da anedota, do sentido épico, do relato”. Mauro começou escrevendo esse tipo de poema e nunca o largou durante toda a sua trajetória literária. Mas, por maior que já fosse o prestígio de Pound na segunda metade da década de 20, não credito que Mauro Mota tenha sido influenciado por ele.
Para Nilo Scalzo os poemas escritos por Mauro nas décadas de vinte e trinta estão “ajustados às características que marcaram a poesia da segunda geração modernista: a revelação do quotidiano, redescoberta pela visão comovida do poeta, no qual o lirismo não exclui uma pontinha de humor”. No entanto, o tom de melancolia contida, a condensação lírica dessa poesia o afastam, para mim, do segundo modernismo.
Quem primeiro fez uma aproximação da poesia de Mauro Mota com a de Pound foi Gilberto Freyre, prefaciando “Itinerário”. Mas ele fala em “pura coincidência”, e afirma: “de Pound se tem dito como se poderia dizer de Mauro Mota, que sendo typically modern é um tradicionalist at botton. Sim, no fundo, todo grande poeta é um tradicionalista, procurando entender a vastidão do passado, porque o presente é incompreensível e o futuro sempre foi imprevisível. Ou, até porque, como diz Mauro Mota, em “Morte Sucessiva”, “tudo já aconteceu”.
Alberto da Cunha Melo é poeta, sociólogo e jornalista.