Que diabo é pós-moderno?(*)

 

 

 

Alberto da Cunha Melo

 

 

 

 

 

 "Entrar no acaso e amar o transitório"
Carlos Pena Filho

 


Em artigo ou entrevista - não me lembro - eu já disse uma vez que não devemos confessar gratuitamente uma ignorância, mas quando nos for perguntado algo que desconhecemos, devemos responder clara e incisivamente: não sei. Quebro hoje esse princípio, não por falta de assunto, que nunca faltou num país desgraçado como o Brasil, mas porque me chegou às mãos um livro intitulado As Ilusões do Pós-Modernismo, escrito por um tal de Terry Eagleton, cuja única nota biográfica informa ser ele professor de inglês em Oxford.


Comecei a ler aquele livro, editado pela Zahar, e não sei se foi a má tradução brasileira ou a má redação do autor, as dificuldades de compreendê-lo obrigaram a arrastar-me penosamente até o fim. Como tinha aprendido, com a leitura de um artigo sobre filosofia moderna, que precisamos, num texto difícil, afastar toda palha retórica, até deixar descoberto o núcleo do pensamento, algo como se apartar do significante ou referente e só ficar com o significado ou referência, tentei isso, mas foi impossível, porque, ora todo texto era palha, ora era núcleo, e eu não tenho tempo de desfazer-me de um palheiro para deixar a agulha exposta. Resultado: pesquei, aqui e ali, umas frases compreensíveis, foi tudo que pude fazer.


Como não foi por falta de leitura que não sei o que é pós-moderno, embora ao longo da vida eu me tenha desfeito de duas pequenas bibliotecas, lembrei-me de um livrinho que lera na década de 80, da coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense, intitulado O que é pós-moderno, de autoria do poeta, ficcionista e ensaísta Jair Ferreira dos Santos. É um livrinho de bolso e foi um inferno encontrá-lo no meu caos. Não satisfeito, pedi a Cláudia que retirasse da Internet umas três laudas, no máximo, do sintagma, ou melhor, do verbete pós-modernismo. São dessas duas últimas fontes secundárias de que se socorre a meninada do ensino médio em suas “pesquisas”.


E lá fui eu tentar reduzir minha ignorância, porque de tudo que tinha lido só me ficara a idéia de que aquele conceito procurava compreender o que vinha acontecendo nos bolsões pós-industriais do Ocidente, e que seus traços marcantes eram um relativismo radical e uma vontade, como disse Carlos Pena Filho, em um dos seus belos poemas, de “entrar no acaso e amar o transitório”.


Ledo engano. O Sr. Eagleton chama de pós-modernismo um estilo de cultura (os sociólogos diriam de subcultura) que no plano estético tem como indicadores a superficialidade e descontração na arte, além de pespegar-lhe os atributos de infundada, auto-reflexiva, divertida, “caudatória”, eclética e pluralista, tendo como objetivo maior derrubar as cercas entre a “cultura popular e cultura elitista”, e, também, entre “arte e experiência cotidiana”. Essa arte pós-moderna, que quer derrubar o muro estético entre o popular e o erudito, pretende ainda manter “seu espírito brincalhão, parodista e populista”. Entenderam?


Deixando o gringo complicado, e me aproximando do patrício Jair Ferreira dos Santos, ele situa o surgimento do pós-modernismo entre 1955 e 1960, quando começaram a chamar a atenção mudanças ostensivas na arte, na ciência e na sociedade, que levaram os sociólogos norte-americanos – sempre eles – a retomar um velho rótulo utilizado pelo historiador Toynbee, em 1947. Jair fala, pela primeira vez, em mistura, isto é, numa salada de estilos e tendências sob o mesmo nome: pós-modernismo, e, ao dizer que ele quer “rir levianamente de tudo”, chega a aproximar-se do gringo.


Pela Internet, caso procedam as informações, ficamos sabendo que o conceito é “seriamente encarado por grupos e autores americanos e canonizado por inúmeros trabalhos científicos e teses em universidades dos EUA e Europa do Norte”. Será que elas não têm ocupações mais fecundas para patrocinar?


Interessante, mesmo, são os indicadores do pós-moderno que as três pobres fontes consultadas, que me restaram, apresentam: a pop art, considerada seu primeiro marco estético, o microcomputador, o sex-shop, o circuito integrado, o microprocessador, a minimal art, a arte-conceitual, o happening, a performance, a transvanguarda, o vídeo-arte, o poema-processo, a arte-correio, o nouveau roman, a poesia do mimeógrafo, a lixeratura, o poema pornô. Tem mais: a Internet, através de Eliete Maria Pasqualin, joga no grande panelão do vatapá pós-moderno os alimentos processados, a biotecnologia, a engenharia genética e as clonagens. Mas, deixei para o fim o que um site sem assinatura também joga no panelão: nada menos que João Cabral de Melo Neto, Concretismo, Ferreira Gullar, poesia social, poesia práxis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, meu Deus! Fora Gullar, os outros morreram sem saber que eram pós-modernos. Por último, como tempero verde, caem dentro da panela o neoconcretismo, a revista Tendência e a série poética do Violão de Rua.

Entenderam?


O excepcional Otto Maria Carpeaux confessou uma vez que “só compreendeu uma ínfima parte” de Ulysses, de Joyce. Ele, um poliglota europeu, que se cercou de dicionários ingleses e irlandeses, abandonou a tarefa de compreender aquele livro, depois de alguns meses, “firmemente decidido a aproveitar para outras coisas o resto da vida”. Essa lição me basta. Adeus pós-modernismo. Compreenderam?



Alberto da Cunha Melo é poeta, sociólogo e jornalista
(*) Este artigo foi publicado originalmente na coluna Marco Zero, revista pernambucana Continente Multicultural, de agosto de 2003. Visite o site da revista: http://www.continentemulticultural.com.br/

        

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