Ana Terra: uma “tragédia fundadora”

 

 

 

Alberto da Cunha Melo

 

 

 

Ana Terra

Alberto da Cunha Melo
(Para Érico Veríssimo)

Árvore pesada de flores,
minha amada, na primavera:
tão só naquele descampado,
quando as águas caíam, era

uma cruz alta a florescer
no chão tão triste do meu ser,

assim pensava Pedro, bem antes
de possuir sua Ana Terra,
e ser morto em campos distantes,

campos de coxilhas e serras,
sob as armas dos irmãos Terra.

 

 


           

 

            Só deve ousar escrever quem tem alguma coisa dizer. Daí a minha desconfiança e não adesão às vanguardas formalistas brasileiras que defendem o princípio de que, em literatura, a forma é o conteúdo. Melhor seria dizer que o importante é a forma como o conteúdo é enunciado. No entanto, a grandeza de uma obra literária não depende, necessariamente, do quantum de invenção formal possa oferecer do ponto de vista estrutural. Mas, se usa velhas estruturas, exige-se-lhe originalidade, criatividade, no âmbito textual.

            Essas reflexões já antigas vieram-me à tona diante da nova edição da narrativa Ana Terra, de Érico Veríssimo. Geralmente classificada nas bibliografias do autor gaúcho como “fragmentos” da trilogia O Tempo e o Vento, mas especificamente do seu primeiro romance histórico, O Continente, estruturalmente é um relato linear, nesse particular não diferindo em nada da tradição romanesca ocidental.

            Textualmente, no entanto, alisa-se a uma não muito praticada incursão no romance histórico, no Brasil, que possui, no entanto, bons momentos, como A Muralha, de Ninah Silveira de Queiros, ou O Tigre dos Palmares, do silenciado alagoano Adalberon Cavalcanti Lins. O romance histórico, e Ana Terra nesse particular o exemplifica magnificamente, é uma espécie literária que faz uma fusão entre o que realmente aconteceu e o que poderia ter acontecido, para usar aqui a distinção que faz Aristóteles entre o histórico e o poético. No plano poético ou ficcional aquela narrativa de Veríssimo, como bem o disse Maria Thereza Camargo Biderman, “alcança equilibrar-se entre as exigências da epopéia e as da novela.”

            O pequeno relato, “desentranhado” da trilogia O Tempo e o vento, que se compõe de três romances históricos, O Continente, O Retrato e O Arquipélago, conjunto que estaria, no plano ficcional, para a formação da sociedade gaúcha, como Casa Grande & Senzala, no plano ensaístico, para a sociedade nordestina (apesar de sua amplitude nacional), parece-me sumariar a saga do povo rio-grandense da metade do Século XVIII à metade do Século XX. Assis Brasil considera Ana Terra, talvez por isso mesmo, uma “tragédia fundadora”.

            Eu li Ana Terra em alguma quadra da década de 70 (a 1ª edição da narrativa é de 1971) e, até este mês de janeiro de começo de século, tudo o que minha memória guardara era a imagem de uma matuta bonita, triste e silenciosa. Mas – não sei se foi Drummond quem disse – se um conto deixar a lembrança de um chapéu, é um bom conto. Ela é uma das mais extraordinárias personagens da ficção brasileira. Fiquei sabendo, pela Internet, que numa pesquisa realizada entre 40 intelectuais gaúchos, Ana Terra foi o segundo nome mais lembrado entre vinte personagens da literatura rio-grandense.

            Érico Veríssimo é um grande criador de personagens, ao lado, por exemplo, de Machado de Assis, Guimarães Rosa e Jorge Amado. Estava eu no meu canto, um dia, fumando o meu cachimbo, quando fui interrompido por um grupo de colegiais que queriam me fotografar. Antes que minha vaidade crescesse, já me sentindo poeta famoso, um garoto explicou que iria usar minha imagem para um estudo que a turma estava fazendo sobre o personagem Capital Rodrigo, de Érico Veríssimo.

            Além de Ana, a narrativa tem, ainda, dois fortíssimos personagens, o mestiço Pedro Missioneiro e o patriarca casmurro Maneco Terra, que não gostava nem de soldado nem de padre e que achava sem serventia “tudo que é bonito”.

            Em Ana Terra, não há descrições cansativas. As que existem estão lá para expressar o estado de espírito dos personagens, para criar a atmosfera narrativa, uma atmosfera que se parece, ás vezes, com a do Western norte-americano varrido pelos ventos uivantes de Yorkshire Moors (lembranças de Emily Brontë?). Nesse clima, nesse mundo sem calendários nem relógios, uma jovem mulher libera seus instintos vitais e consegue, inconscientemente, provar que Eros é mais forte do que Tânatos. Ana Terra é uma das primeira e mais fortes personagens da literatura brasileira a denunciar a opressão da mulher na sociedade brasileira, mas sem comícios, com a força, apenas, da coragem e da beleza.

 

SERVIÇO
Ana Terra – Érico Veríssimo
Editora Globo S.ª - São Paulo
160 p.

Artigo publicado originalmente na revista Continente Multicultural. Recife: fevereiro, 2002.

Alberto da Cunha Melo é poeta, jornalista e sociólogo.
www.albertocmelo.kit.net

 

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