|
Caso não receba adequadamente esta edição: suas imagens e som, clique aqui!
(Para Dom Hélder Câmara) Edição
em Nota do autor: este poema foi escrito na década de 70, quando a classificação de países de primeiro, segundo e terceiro mundo, ainda vigorava, antes, portanto, da queda dos países socialistas do Leste Europeu. Poema da antologia saiba mais! clique na capa
Os povos mascates vendem as sobras do céu, das secas, dos saques e das tempestades. Vendem o lixo dourado de todos os suis nas esquinas dos cegos; e, quando os cargueiros desovam, na ferrugem dos portos, sem pacotes de sonho, os povos mascates já não vendem mais nada, compram viagens para dentro de suas velhas e provisórias derrotas e, depois, voltam a vender sapatos, pulseiras, colares e esperanças de plástico.
Na vida malfeita, ainda assim, não há vagas, falta o que fazer; por isso, as legiões de caçadores de calçada (entre a loto e o assalto) voltam sempre a crescer. No mundo incompleto, ainda assim, aumentam-se os desertos, e um pedaço de asa apodrecida espedaça-se entre pássaros negros e os tais aventurados, os mansos.
Dezesseis por cento de todos desfrutam setenta por cento de tudo. Estes números falam do trigo e suas tempestades; falam do milho e suas multidões. Os cereais não sabem que dividem a Terra e curvam, solícitos, para todos os ventos os seus pendões. Os minérios não sabem que separam os homens e moram mudos no mundo imutável, como os sabres, as colheres e as agulhas, como o certo e o errado no fundo neutro do mundo.
Nossos sábios são poucos e sugam com seus bicos franceses, e catarrentas gargantas saxônicas, as luzes opacas de estranhos poentes, e se exaltam diante de títulos e túmulos, tal os filhos tardos e abortivos de Zaratrusta; enquanto nas salas de noturnas aulas adormecem de sono os que irão herdar, de manhã a manhã, as douradas correntes do seu amanhecer.
Aprendemos a ler a formação dos formigueiros no leito pétreo dos rios, anunciando mais cinza na pele das folhas, sob a eternidade do sol; e aprendemos a ler na pauta musical dos caborés, corujas e bacuraus o anúncio comercial de nuvens inchadas navegando silenciosas sobre nós; e aprendemos a ler no canto das cigarras o desastre que a terra, nossa única escola, nos prepara; e aprendemos a ler, nos cadernos dos rostos mais feios, quando a lua, os celeiros e os corações estão cheios.
Plantamos para longe o açúcar mais branco, a banana mais cheia, o mais puro café. Aprendemos a plantar cedo, para muito longe. Os planos estão satisfeitos mas os homens choram em suas choupanas de verdade. Fizemos justiça ao metal Que mereceu um visto para longe; à planta mais eugênica, demos-lhe uma embalagem de luxo e um passaporte para a França. Só os homens ficaram com os filhos enfermos e a terra longa e alheia para, sem fuga e sem amor, continuar.
|
||
|
"A magia penetra as renkas de
Alberto da Cunha Melo conferindo insólita beleza a esta sua última
criação.”Alfredo
Bosi “Tenho vontade de sair cantando ou dançando, chorando ou mugindo, quando leio Alberto da Cunha Melo.” Deonísio da Silva “Sem deixar-se seduzir pelos modismos artísticos, sua poesia é autêntica. É, como já disse, dotada de verdade e de beleza. E, sendo assim, gostaria de parafrasear Johannes Pfeiffer, em Introdução à poesia: devido à sua verdade, esta poesia é necessária; devido à sua beleza, é beatificante!” Hildeberto Barbosa Filho
|
||
|
Arte e editoração: Cláudia Cordeiro
Leia Poesia Tudo Vale a Pena se a Poesia nos Envenena
|