(fragmentos) 

 Alberto da Cunha Melo

(Para Dom Hélder Câmara)

Edição em homenagem a todos os que fazem o site Poetas del Mundo

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Nota do autor: este poema foi escrito na década de 70, quando a classificação de países de primeiro, segundo e terceiro mundo, ainda vigorava, antes, portanto, da queda dos países socialistas do Leste Europeu.

 

Os povos mascates

vendem as sobras do céu,

das secas, dos saques

e das tempestades.

Vendem o lixo dourado

de todos os suis

nas esquinas dos cegos;

e, quando os cargueiros desovam,

na ferrugem dos portos,

sem pacotes de sonho,

os povos mascates

já não vendem mais nada,

compram viagens para dentro

de suas velhas

e provisórias derrotas

e, depois, voltam a vender

sapatos, pulseiras, colares

e esperanças de plástico.

 

Na vida malfeita,

ainda assim,

não há vagas,

falta o que fazer;

por isso, as legiões

de caçadores de calçada

(entre a loto e o assalto)

voltam sempre a crescer.

No mundo incompleto,

ainda assim,

aumentam-se os desertos,

e um pedaço de asa

apodrecida espedaça-se

entre pássaros negros

e os tais aventurados, os mansos.

 

Dezesseis por cento

de todos

desfrutam

setenta por cento

de tudo.

Estes números falam

do trigo

e suas tempestades;

falam do milho

e suas multidões.

Os cereais não sabem

que dividem a Terra

e curvam, solícitos,

para todos os ventos

os seus pendões.

Os minérios não sabem

que separam os homens

e moram mudos

no mundo imutável,

como os sabres,

as colheres

e as agulhas,

como o certo

e o errado

no fundo neutro

do mundo.

 

 

Nossos sábios são poucos

e sugam com seus bicos

franceses, e catarrentas

gargantas saxônicas,

as luzes opacas

de estranhos poentes,

e se exaltam diante

de títulos e túmulos,

tal os filhos tardos

e abortivos de Zaratrusta;

enquanto nas salas

de noturnas aulas

adormecem de sono

os que irão herdar,

de manhã a manhã,

as douradas correntes

do seu amanhecer.

 

Aprendemos a ler

a formação dos formigueiros

no leito pétreo dos rios,

anunciando mais cinza

na pele das folhas,

sob a eternidade do sol;

e aprendemos a ler

na pauta musical

dos caborés, corujas e bacuraus

o anúncio comercial

de nuvens inchadas

navegando silenciosas sobre nós;

e aprendemos a ler

no canto das cigarras

o desastre que a terra,

nossa única escola,

nos prepara;

e aprendemos a ler,

nos cadernos dos rostos

mais feios,

quando a lua, os celeiros

e os corações estão cheios.

 

Plantamos para longe

o açúcar mais branco,

a banana mais cheia,

o mais puro café.

Aprendemos a plantar

cedo, para muito longe.

Os planos estão satisfeitos

mas os homens choram

em suas choupanas de verdade.

Fizemos justiça ao metal

Que mereceu um visto para longe;

à planta mais eugênica,

demos-lhe uma embalagem de luxo

e um passaporte para a França.

Só os homens ficaram

com os filhos enfermos

e a terra longa

e alheia

para, sem fuga e sem amor,

continuar.

 

 

 

 
 

Em abril próximo, pela A Girafa Editora, o livro inédito de Alberto da Cunha Melo, 

O Cão de Olhos Amarelos & Outros Poemas Inéditos

com o aval de 40 anos ininterruptos dedicados à poesia. Seu 13º livro já honra a Literatura Brasileira como é possível constatar com os pareceres de três grandes críticos e escritores brasileiros: Alfredo Bosi, Deonísio da Silva e Hildeberto Barbosa Filho.

 

“A magia penetra as renkas de Alberto da Cunha Melo conferindo insólita beleza a esta sua última criação.”

 Alfredo Bosi  

“Tenho vontade de sair cantando ou dançando, chorando ou mugindo, quando leio Alberto da Cunha Melo.” 

Deonísio da Silva

“Sem deixar-se seduzir pelos modismos artísticos, sua poesia é autêntica. É, como já disse, dotada de verdade e de beleza. E, sendo assim, gostaria de parafrasear Johannes Pfeiffer, em Introdução à poesia: devido à sua verdade, esta poesia é necessária; devido à sua beleza, é beatificante!” 

Hildeberto Barbosa Filho

 

Recife, março de 2006
Arte e editoração: Cláudia Cordeiro
Mid: Villa Lobos: Bachiana n. 5
 
Sítio Virtual Pernambucano da Poesia Contemporânea em Língua Portuguesa

 

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