|
|
|
|
A partir da presente edição, a página ímpar desta seção alternará as entrevistas com leituras de grandes poetas brasileiros vivos. Faz parte
de minha forma de comentar poesia só abordar as obras e os autores sobre os quais eu possa opinar a favor, jamais contra. Tenho pouco espaço e não quero gasta-lo com desagrado, meu ou do leitor.( Reservo para conversas pessoais,
eventuais, minhas opiniões negativas.) Assim, aqui só tratarei de poetas que admiro e respeito, no que, em geral,
estarei de acordo com a maior parte da boa crítica. Começando, um nome que veio para ficar : Alberto da Cunha Melo, através de parte
de sua poesia, reunida no livro “Dois caminhos e uma oração”.
Em edição de “A Girafa”, com notas de Mário Hélio, Alfredo Bosi e Bruno Tolentino, o livro reúne três obras do poeta pernambucano.
A primeira do volume é o último texto do autor, “Meditação sob os lajedos”, e esteve entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom de 2002/2003. Ganhar ou não ganhar um prêmio é secundário, pois são controversos os critérios e muito variadas as preferências. Mas o futuro nos dirá o que o presente já propõe. Que estamos diante de uma obra ímpar, de um poeta extraordinário. E não premiado, apesar da rica fortuna crítica a acompanhar o seu trabalho.
O que o faz merecedor de tanto aplauso da crítica? Uma linguagem pessoal e forte, uma atitude frente à vida que o distingue pelo que seria um pessimismo profundo, ontológico, mas sem qualquer destempero
verbal : expresso com a secura que seria do nordeste, parente (remota) da poética de João Cabral mas também de Augusto dos Anjos, sem a morbidez a este atribuída. Uma poesia que não busca o deleite, pois
comprometida com a precariedade da condição humana.
A forma que criou e chama de “retranca” - 4 estrofes, de 4, 2, 3 e 2 versos, sendo rimados os dísticos e parcialmente as outras – marca a secura no metro pouco usual entre nós, de 8 sílabas, que foge à cantiga da redondilha e ao solene do decassílabo. Acaso? Claro que não. É a forma que seus temas pedem, evitando o discurso e a música, a “palha” e a facilidade. O ritmo de marcha realça a cadência do pensamento dos
poemas, pesaroso e elegíaco, à sombra de pensadores como Kirkegaard,
Unamuno, Camus.
Meditação frente a fatos, pessoas, bichos, como diz o título, “sob os lajedos” – isto é, além túmulo, da perspectiva inexorável da morte, da finitude de tudo em torno, numa visão totalizadora que une os temas “comentados” isoladamente, sempre queixosamente. Diz o poeta:
“escrevemos cada vez mais/ para um mundo cada vez menos.” Mais: “mesmo com Deus por companhia/ tempo gigantesco é um dia.”
Há que vive-lo, ainda que em agonia, contida embora, apesar do amor : “truque do eterno é todo amor : toca por baixo o fogo alto/ que
aquece o sonho ao sol se pôr,/porque logo devolve aos dois/o nada de antes
e depois.” Assim diz no poema “Orgasmo”.
Além da “Meditação” o livro traz o magnífico “Yacala” (“homem”
no dialeto quicongo), um longo poema narrativo, no mesmo esquema métrico, 140 estrofes contando a tragédia do personagem, alegoria
da dor existencial do homem, sujeito ao circunstancial diário mas com a aspiração pelo transcendente – conhecimento do cosmo, do
deus ou dos deuses, preso no abandono que nos toca.
Originalíssimo como concepção e de feitura sob incrível controle da emoção, o aparente
distanciamento torna mais trágicas as ocorrências. O exórdio do poema já prenuncia o desenrolar da história. Ei-lo:
Levamos fogo, não esponjas
ao trono sujo do excremento,
disputando o mesmo vazio
de uma estrela no firmamento;
jarros negros e estrelas, tudo
é uma busca de conteúdo;
ou somos renúncia ou cobiça,
atravessando esses planaltos
feitos de cinza movediça;
mas todos estamos em casa,
como os vôos dentro das asas.
O poema narra a paixão e a morte de Yacala, exilado da vida comum num canto de praia, percorrendo de luneta e de cálculos o firmamento.
Desatento ao amor, concentra sua vida nessa procura através dos céus - procura de sentido, de estrelas, de Deus. Procura.
Impossível não transcrever a última estrofe do poema, tal a sua
assustadora beleza: Yacala, o astrônomo negro, já morto e insepulto, pasto de abutres, vítima de massacre de malfeitores anônimos, metáfora, talvez, do que seria nossa indefesa existência:
Nos anais dos tempos perdidos,
não existe tempo de paz :
uma estrela devora mundos,
nenhum deles a satisfaz;
findou-se a heróica agonia
de quem desperto a perseguia,
a medir as chamas com a mão,
para alcançar uma alegria
consciente, esplendor da razão,
livre como garra celeste
que no Todo desaparece.
Os “dois caminhos” do título da edição se completam com um longo poema, o segundo escrito pelo autor - “Oração pelo poema”. Caberia aqui uma indagação sobre o sentido do título geral do livro, pois nada em Alberto da Cunha Melo é gratuito ou fortuito. Que caminhos? Ambos os livros, tanto a “Meditação sob os lajedos” quanto “Yacala” ilustram a filosofia de vida e a poética do autor. Sentimento agônico da vida, visão negativista, ainda que visitada por alguma esperança, ainda que marcada por uma consciência quase estóica. Assim o leio.
Seus caminhos não se bifurcam, muito embora no primeiro a vida continue, sofrida, anotadas suas marcas cruéis ou apenas indiferentes, e no segundo a tragédia comande o espetáculo. No final de ambos, está o nada, e ao longo de ambos o absurdo, uma concepção “existencialista .”
Fiquemos com a pergunta e aceitemos que os dois caminhos, o pessoal de Yacala e o geral de todos nós sejam um só, esse viver para a morte,
mas sob a luz do poema, que o autor chama de inóspito, palavra muito sua, ao orar pelo poema. (Penso num verso de outro Alberto, da Costa
e Silva: “Não creio, e rezo.”) Cunha Melo não parece crer, ou crê talvez
a meias. Há Deus na “Oração”, e não é só palavra. É Deus, maiúsculo.
Poderia ser lido como inspiração, proteção, deus da poesia. Mas é Deus
mesmo, a quem o poeta convoca amiúde e a quem pede que lhe dê a palavra. Foi-lhe dada. Não só para que a oração, o poema, terminasse.
Descrente ou não mais tarde, o poeta recebeu a dádiva da palavra e sua
obra posterior mostra que vem sendo atendido.
Já nesse livro o poeta sociólogo anota os desacertos do mundo e o descontentamento do poema diante deles. Descontentamento que será seu para sempre, como no Kafka de O Castelo, epigrafado, perdido na aldeia. Epígrafes são esclarecedoras, surjam como mote ou a posteriori. Na aldeia estrangeira, o poeta vai recordar os versos de Cruz e Souza: “Vê como a dor te transcendentaliza”. Dor, palavra central da obra de Alberto da Cunha Melo, como seria de todo poeta atento, seja qual seja o trato que lhe dê em verso.
A sofrida beleza de sua poesia é um honrado testemunho da grandeza intrínseca de ser homem. Fim de um ciclo cósmico, diz o autor sobre a “Oração”. E diz Bruno Tolentino que “Yacala” é “opus nigrum” de um mestre, de “arrepiantes delírios metafísicos” . Mário Hélio, no prefácio
“A ordem fatal das coisas vivas” fala de “metafísica do cotidiano” a respeito da “Meditação”. E Alfredo Bosi, na introdução a
“Yacala”, “de estranha beleza”, diz que sua chave se chama resistência.
Pensada, sofrida e feita com rigor formal incomum, a obra de Alberto da Cunha Melo é mais que um sopro de novidade; já está consolidada e é restauração do verso, que ele recria de modo personalíssimo e forte.
Sua já extensa obra, de doze poemários, vem colocar nossa poesia num patamar excepcional, como comprovam estes seus textos reunidos em “Dois Caminhos e uma Oração”, espelhando o que diz José Nêumanne
na contracapa do volume: trata-se de um dos maiores poetas da língua, em qualquer das margens do Atlântico.
Izacyl Guimarães Ferreira, escritor, é presidente do Conselho
Editorial da UBE - SP.
www.ube.org.br
Visite a home page de Alberto da
Cunha Melo, agora em nova edição: www.plataforma.paraapoesia.nom.br/albertodacunhamelo.htm
|
|
|
|
|
|