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JORNAL “O ESCRITOR”, edição 109


POESIA, POETAS, POEMAS. LENDO ALBERTO DA CUNHA MELO

Izacyl Guimarães Ferreira 

www.ube.org.br/jornal.htm

         
 

 

 

 

 

A partir da presente edição, a página ímpar desta seção alternará as entrevistas com leituras de grandes poetas brasileiros vivos. Faz parte de minha forma de comentar poesia só abordar as obras e os autores sobre os quais eu possa opinar a favor, jamais contra. Tenho pouco espaço e não quero gasta-lo com desagrado, meu ou do leitor.( Reservo para conversas pessoais, eventuais, minhas opiniões negativas.) Assim, aqui só tratarei de poetas que admiro e respeito, no que, em geral, estarei de acordo com a maior parte da boa crítica. Começando, um nome que veio para ficar : Alberto da Cunha Melo, através de parte de sua poesia, reunida no livro “Dois caminhos e uma oração”.

Em edição de “A Girafa”, com notas de Mário Hélio, Alfredo Bosi e Bruno Tolentino, o livro reúne três obras do poeta pernambucano. A primeira do volume é o último texto do autor, “Meditação sob os lajedos”, e esteve entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom de 2002/2003. Ganhar ou não ganhar um prêmio é secundário, pois são controversos os critérios e muito variadas as preferências. Mas o futuro nos dirá o que o presente já propõe. Que estamos diante de uma obra ímpar, de um poeta extraordinário. E não premiado, apesar da rica fortuna crítica a acompanhar o seu trabalho.

O que o faz merecedor de tanto aplauso da crítica? Uma linguagem pessoal e forte, uma atitude frente à vida que o distingue pelo que seria um pessimismo profundo, ontológico, mas sem qualquer destempero verbal : expresso com a secura que seria do nordeste, parente (remota) da poética de João Cabral mas também de Augusto dos Anjos, sem a morbidez a este atribuída. Uma poesia que não busca o deleite, pois comprometida com a precariedade da condição humana.

A forma que criou e chama de “retranca” - 4 estrofes, de 4, 2, 3 e 2 versos, sendo rimados os dísticos e parcialmente as outras – marca a secura no metro pouco usual entre nós, de 8 sílabas, que foge à cantiga da redondilha e ao solene do decassílabo. Acaso? Claro que não. É a forma que seus temas pedem, evitando o discurso e a música, a “palha” e a facilidade. O ritmo de marcha realça a cadência do pensamento dos poemas, pesaroso e elegíaco, à sombra de pensadores como Kirkegaard, Unamuno, Camus.

Meditação frente a fatos, pessoas, bichos, como diz o título, “sob os lajedos” – isto é, além túmulo, da perspectiva inexorável da morte, da finitude de tudo em torno, numa visão totalizadora que une os temas “comentados” isoladamente, sempre queixosamente. Diz o poeta: “escrevemos cada vez mais/ para um mundo cada vez menos.” Mais: “mesmo com Deus por companhia/ tempo gigantesco é um dia.” Há que vive-lo, ainda que em agonia, contida embora, apesar do amor : “truque do eterno é todo amor : toca por baixo o fogo alto/ que aquece o sonho ao sol se pôr,/porque logo devolve aos dois/o nada de antes 
e depois.” Assim diz no poema “Orgasmo”.

Além da “Meditação” o livro traz o magnífico “Yacala” (“homem” no dialeto quicongo), um longo poema narrativo, no mesmo esquema métrico, 140 estrofes contando a tragédia do personagem, alegoria da dor existencial do homem, sujeito ao circunstancial diário mas com a aspiração pelo transcendente – conhecimento do cosmo, do deus ou dos deuses, preso no abandono que nos toca. 

Originalíssimo como concepção e de feitura sob incrível controle da emoção, o aparente distanciamento torna mais trágicas as ocorrências. O exórdio do poema já prenuncia o desenrolar da história. Ei-lo:

Levamos fogo, não esponjas
ao trono sujo do excremento,
disputando o mesmo vazio
de uma estrela no firmamento;

jarros negros e estrelas, tudo
é uma busca de conteúdo;

ou somos renúncia ou cobiça,
atravessando esses planaltos
feitos de cinza movediça;

mas todos estamos em casa,
como os vôos dentro das asas.

O poema narra a paixão e a morte de Yacala, exilado da vida comum num canto de praia, percorrendo de luneta e de cálculos o firmamento. Desatento ao amor, concentra sua vida nessa procura através dos céus - procura de sentido, de estrelas, de Deus. Procura. 
Impossível não transcrever a última estrofe do poema, tal a sua
assustadora beleza: Yacala, o astrônomo negro, já morto e insepulto, pasto de abutres, vítima de massacre de malfeitores anônimos, metáfora, talvez, do que seria nossa indefesa existência:

Nos anais dos tempos perdidos,
não existe tempo de paz :
uma estrela devora mundos,
nenhum deles a satisfaz;

findou-se a heróica agonia
de quem desperto a perseguia,

a medir as chamas com a mão,
para alcançar uma alegria
consciente, esplendor da razão,

livre como garra celeste
que no Todo desaparece.

Os “dois caminhos” do título da edição se completam com um longo poema, o segundo escrito pelo autor - “Oração pelo poema”. Caberia aqui uma indagação sobre o sentido do título geral do livro, pois nada em Alberto da Cunha Melo é gratuito ou fortuito. Que caminhos? Ambos os livros, tanto a “Meditação sob os lajedos” quanto “Yacala” ilustram a filosofia de vida e a poética do autor. Sentimento agônico da vida, visão negativista, ainda que visitada por alguma esperança, ainda que marcada por uma consciência quase estóica. Assim o leio. 

Seus caminhos não se bifurcam, muito embora no primeiro a vida continue, sofrida, anotadas suas marcas cruéis ou apenas indiferentes, e no segundo a tragédia comande o espetáculo. No final de ambos, está o nada, e ao longo de ambos o absurdo, uma concepção “existencialista .”

Fiquemos com a pergunta e aceitemos que os dois caminhos, o pessoal de Yacala e o geral de todos nós sejam um só, esse viver para a morte, mas sob a luz do poema, que o autor chama de inóspito, palavra muito sua, ao orar pelo poema. (Penso num verso de outro Alberto, da Costa e Silva: “Não creio, e rezo.”) Cunha Melo não parece crer, ou crê talvez a meias. Há Deus na “Oração”, e não é só palavra. É Deus, maiúsculo. Poderia ser lido como inspiração, proteção, deus da poesia. Mas é Deus mesmo, a quem o poeta convoca amiúde e a quem pede que lhe dê a palavra. Foi-lhe dada. Não só para que a oração, o poema, terminasse.
Descrente ou não mais tarde, o poeta recebeu a dádiva da palavra e sua obra posterior mostra que vem sendo atendido.

Já nesse livro o poeta sociólogo anota os desacertos do mundo e o descontentamento do poema diante deles. Descontentamento que será seu para sempre, como no Kafka de O Castelo, epigrafado, perdido na aldeia. Epígrafes são esclarecedoras, surjam como mote ou a posteriori. Na aldeia estrangeira, o poeta vai recordar os versos de Cruz e Souza: “Vê como a dor te transcendentaliza”. Dor, palavra central da obra de Alberto da Cunha Melo, como seria de todo poeta atento, seja qual seja o trato que lhe dê em verso. 

A sofrida beleza de sua poesia é um honrado testemunho da grandeza intrínseca de ser homem. Fim de um ciclo cósmico, diz o autor sobre a “Oração”. E diz Bruno Tolentino que “Yacala” é “opus nigrum” de um mestre, de “arrepiantes delírios metafísicos” . Mário Hélio, no prefácio “A ordem fatal das coisas vivas” fala de “metafísica do cotidiano” a respeito da “Meditação”. E Alfredo Bosi, na introdução a “Yacala”, “de estranha beleza”, diz que sua chave se chama resistência.

Pensada, sofrida e feita com rigor formal incomum, a obra de Alberto da Cunha Melo é mais que um sopro de novidade; já está consolidada e é restauração do verso, que ele recria de modo personalíssimo e forte. Sua já extensa obra, de doze poemários, vem colocar nossa poesia num patamar excepcional, como comprovam estes seus textos reunidos em “Dois Caminhos e uma Oração”, espelhando o que diz José Nêumanne na contracapa do volume: trata-se de um dos maiores poetas da língua, em qualquer das margens do Atlântico.

Izacyl Guimarães Ferreira, escritor, é presidente do Conselho Editorial da UBE - SP. 


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Visite a home page de Alberto da Cunha Melo, agora em nova edição:  www.plataforma.paraapoesia.nom.br/albertodacunhamelo.htm