Estágio 

 

               Alberto da Cunha Melo

 

Escorados nestas ruínas
e sem nos darmos à esperança
de levantar uma só pedra,
um ao outro nos desnudamos.

Adormecemos nos recantos
baixos, baixios da desordem:
pelos que andam de fronte erguida
jamais seremos descobertos.

Um de nós sente tanto medo,
abre tanto os pequenos olhos,
que consegue ver e chorar
a mais longínqua ingratidão.

Novas datas serão marcadas
para os encontros, novas chuvas
num lugar obscuro do céu
se preparam para adiá-los.

Resistimos porque sabemos
que as ruínas não são tão belas
como se diz, e que a salmora
do tempo as afogará.

 

Do livro Poemas Anteriores

Ilustração: Rodin 

Arte e editoração de Cláudia Cordeiro 

 

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