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UMA ESTRANHA BELEZA Por Alfredo
Bosi
Não é por acaso que a
epígrafe de Yacala é o verso de Cruz e Sousa: Vê como a
dor te transcendentaliza”. A frase pungente do Poeta
negro abraça de uma só vez as duas dimensões da obra de
Alberto da Cunha Melo: a experiência funda do
sofrimento, cuja origem é inequivocamente social, e a
capacidade própria da linguagem poética de tudo passar
pelo crivo da consciência pessoal, essa câmara de
ressonância que acolhe, compõe e tonaliza os múltiplos
estímulos que nos assediam e se fundem com nossa
identidade.
A dor de viver provém de
determinações inescapáveis: o sangue, o sexo, a cor da
pele, a classe social, o lugar da origem, o tempo e o
espaço do cotidiano; a sina, enfim. O poema aceita estoicamente os
sinais do corpo e os estigmas da circunstância; e os
transforma, transfigura ou, se a voz é sublimadora, os
transcendentaliza.
A estranha beleza que sai dos
versos de Alberto da Cunha Melo nasce da fusão de um
visceral sentimento da terra (quantas imagens pejadas de
lama e lixo, mangue e cinzas!) com a aspiração infinita
de quem está
mirando o mar e altas
distâncias
numa luneta de escoteiro.
E, no fundo sem fundo
do horizonte, o que interessa é captar a luz da estrela,
aquela estrela desgarrada da série cósmica”, astro que
pressagia o desastre. Yacala, o Galileu negro vidente de
todas as luzes do universo, é a figura nuclear que reúne
cosmicamente baixios e escarpas, o instante e o eterno,
a dor e a sua
transcendência.
Reciclando os dados do
lixo,
busca
Yacala, sobre a
lama,
traduzir em cifras
exatas
a voz
do cosmo em voz
humana,
domar a luz ou
convertê-la
numa só e única
estrela;
sem
os galões da
profecia
e
as graças da
revelação,
outro jamais
rastrearia
aquela estrela sem
fronteiras
a
engolir galáxias inteiras.
É uma narrativa da
busca; uma narrativa que atravessa o sacrifício, a
violência bestial e a morte inglória “para alcançar uma
alegria / consciente, esplendor da razão, / livre como
garra celeste, / que no Todo desaparece”.
Mas há,
no plano formal, outra fonte de estranheza nesta poesia,
e que resulta em um efeito estético original. É o
paradoxo da sua composição ao mesmo tempo rebelde ao
cânon e inventora de sua própria e inflexível ordem
estrófica e métrica. Estrófica: um quarteto na forma
abcb, um dístico rimado, um terceto na forma ded e um
dístico final também rimado. Métrica: todos os versos
são octossílabos, o que produz um ritmo inusitado, pois
as narrativas poéticas longas são, em geral, plasmadas
em populares redondilhos maiores ou em clássicos
decassílabos camonianos.
Trata-se de uma singular
orquestração (o poeta chamou-a de “retranca”), que
lembra remotamente o soneto inglês, mas que tem de seu o
peculiar movimento musical de uma onda que, primeiro
espraiada, depois recolhida, se embate por duas vezes
nas barreiras sólidas dos dísticos do meio e do
fecho.
O Nordeste nos dá, mais uma vez, depois do
paraibano Augusto dos Anjos (presente de modo subliminar
na atmosfera de várias passagens de Yacala), do alagoano
Jorge de Lima e dos pernambucanos Carlos Pena Filho e
João Cabral, a sua lição de dor que se faz beleza e
arranca de si forças para construir uma poesia como a de
Alberto da Cunha Melo, cujo nome secreto é
resistência.
(Prefácio da edição fac-simille do
livro YACALA, UFRN, Natal, RN, 2000, incluído na obra Dois Caminhos e
uma Orção) |