| Dois Caminhos e uma Oração
Bruno
Tolentino
(posfácio)
O OPUS NIGRUM DA DOR QUE NOS
LIBERTA
Quando, à maneira de um cineasta das palavras, em
1.540 versos tão densos quanto exatos e tão plásticos
quanto musicais, Alberto da Cunha Melo desenrola ante
nossos olhos, até a última e excruciante "cena", a saga
hitchcockiana de seu Yacala –
imperdível filme de horror, todo ele "rodado" com a
cumplicidade e os riscos da mais drástica beleza –, faz
mais que enriquecer imensamente a arte de poesia em
nosso idioma: devolve-lhe sua posição de ponta no mais
amplo quadro da literatura universal. Exatos cem anos
antes, o maior gênio da brasilidade fizera culminar sua
nada fantástica symphonie noire
com o excruciante largo penseroso
de seu Dom
Casmurro; a que iria acrescentar, um lustro mais
tarde, ao modo de uma coda cruel, o
pretenso minueto de Esau e Jacó,
mimosas variações do nada sobre o nada, ao cabo uma
feroz Grosse
Fugue disfarçada em voltarete de sarau... Primeira
pena nativa a transpor os limites da especificidade
nacional para chegar à universalidade da grande arte,
nosso Próspero mestiço confessava ao mundo em nome da
mãe-pátria de Dona Plácida: this thing of
darkness I aknowledge mine (The Tempest, ato
II, cena 3).
Fechava-se assim nosso século inaugural como
nação autônoma, e abria-se aquele em que o novo e
buliçoso Ariel tropical, tão cabal e ferozmente
retratado no espelho da besta Calibã, iria fazer tudo em
seu poder para voltar-lhe as costas. Encosta abaixo, em
busca, já agora, de uma peculiaríssima versão "positiva"
da auto-análise, entre o ufanismo belle époque e o
autofagismo futurista, o recém-nascido passaria outros
cem anos entre a casa grande e a senzala, a perguntar-se
quem era e a tratar de persuadir-se de que o inventário
sociológico de suas raízes o
absolveria do tronco em que
pendurara seu sonho de um Brasil íbero-liberocrata. Ou
seja: à sombra bem mais tranqüilizante do Primo Basílio
ou de Macunaíma, livre-pensador maçônico acusando o
Padre Amaro e lambuzando-se de estetismos, a besta já
exposta e sentenciada providenciaria, sob levas e levas
de maquiagem semi-importada, um novo auto-julgamento com
absolvição garantida: bastava-lhe trocar de
Conselheiros, dando Aires pelo Acácio...
Agora, precisos e preciosos cem anos após a
cabocla do Morro do Castelo ter publicamente apalpado o
expansivo ventre nacional e anunciado aquelas
enigmáticas "cousas futuras" que tanto angustiaram a
aflita mamãe dos futuros gêmeos inconciliáveis, sabemos
o que elas continham, pois não? E, ainda assim, entre
proclamações e abdicações, a arte nativa acabou mesmo
por firmar seu auriverde pendão; com mais verve que
gravidade, talvez, obstinamo-nos em escavar tão fundo
que acabamos por subir outra vez a encosta que o Ariel
parnasiano descera saltitante rumo à Semana de 22...
Finalmente, outra vez nus diante do espelho rachado de
tantas ilusões, recobramos fôlego e esperança: sabemos
quem somos e como dizê-lo ao mundo de modo a
efetivamente fazer-nos ouvir. Incrustando-a na nova
dicção, o magistral e candente tríptico que o leitor tem
nas mãos confirma a sombria lição de mestre Machado, e
voltamos ouvir, em meio ao mais denso negror, a luminosa
música da mente confessar-nos: "essa coisa da treva eu a
reconheço como sendo minha..."
Vale dizer: se nos incha o legítimo orgulho de
termos outra vez entre nós um Próspero de semelhante
porte, desta vez conhecemos-lhe o preço: toca
esvaziar-nos de toda pretensão triunfalista e curvar-nos
àquela operação da humildade que ensina a renunciar ao
que temos de mais defensivo ante o mistério da dor
humana. Nunca foi outra a função, eminentemente
redentora, da grande arte: levar-nos àquele ponto em que
tudo nos trai, máxime nossos sonhos, para que ali, e só
então, "a dor que transcendentaliza" nos despoje e
liberte para a
única coisa necessária (Lucas, 10:42). Porque, uma
vez rodado o último "rolo", quando por fim "reacendem-se
as luzes" na sala escura da mente e o expectador-leitor
volta a derradeira página e esfrega os olhos pesados de
emoção, é de crer que mais de um perceba, e
possivelmente ressinta-o, o fato de que algo de
estranhamente novo e liberador insiste em chamá-lo pelo
nome: libera me
Domine, canta a alma ao ponto mais negro de sua via
dolorosa, a criatura à hora do opus nigrum que
a prepara à transfiguração apoteótica. Assim também com
a grande arte: sempre que o terror do belo irrevogável
nos vira pelo avesso, tudo dói, menos a graça...
Foi exatamente o que vi acontecer a mais de um
leitor quando andei emprestando meu exemplar da edição
artesanal de Olinda: via-os, entre o pasmo e o
embevecimento, chocados de ceder a um entusiasmo a um
passo do pânico, confidenciar-me que lhes ficara a
impressão de haver literalmente "assistido" a seu
próprio sentenciamento e execução... E, com efeito, para
mim também a primeira leitura valeu por um choque
intelectual de cujos efeitos, soube-o instantaneamente,
não me poderia mais livrar. Por que o desejaria, de
resto? À medida que absorvia, autant que faire se
peut, o torvelinho cinemático-musical que me ia
enredando e confundindo à trajetória exemplar (mas nem
por isso menos crível) do negro astrônomo augural, ia-me
dando conta de que, se a experiência me abalava tanto
era porque me reconduzia uma vez mais ao "coração da
treva", tão conradiano quanto afinal machadiano; e que
ali, na arena sangüinosa do milenar Coliseu de heroismos
e martírios da mais alta literatura ocidental,
esperava-me o meu particular opus nigrum...
Não me acalmei lá muito, confesso-o: a cada
cristão seus leões, eu sei, mas haja sangue frio! É que,
se um livro tão "negro" logra ser leoninamente luminoso,
à maneira daquelas esplêndidas feras que parecem a
própria encarnação da luz, resta que aquele homem face a
"sua estrela de
puro cálculo", é bem mais que uma mera dramatis
persona, é uma desafiante caricatura nossa. E é isso
que nos inquieta: somos chamados a uma importuna e
inevitável auto-verificação... Yacala faz pensar num
Hércules deixando-se devorar pelo Leão da Neméia, e, no
entanto, o que mais impressiona no poema é que, ainda
assim, esse mesmo personagem, suicida ao modo do
bicho-da-seda sacrificial, tira das próprias entranhas o
inteiro livro, mas não se exaure numa ficção, não
emblematiza simplesmente um drama cuja estatura cósmica
extrapola até mesmo as molduras do mais forte e original
estro poético surgido entre nós neste último meio
século. Yacala, aquele ébrio das tentadoras eqüações da
mente, um homem cujo nome é Homem, consegue ser, não
obstante seu poder alegórico, uma presença real, como o
têm sido tantos marcos da melhor arte no tumultuoso
ideário pós-renascentista. Senão vejamos.
Quem disputaria ao recém-chegado seu direito de
caminhar ao lado do Idiota de Dostoiewski; de em plena
tempestade topar com um Lear delirante e nu; de
banquetear-se à mesa do conde Ugolino; de cambalear
semibêbado em Petrogrado no encalço da encapuzada Dama
de Espadas pushkiniana? Tanto podemos observá-lo
entrando naquela barbearia de Barbacena a tempo de
assistir à coroação-abdicação do infeliz Rubião, quanto
nos é fácil imaginá-lo, absurdo como um Ariel geômetra,
a ponderar, conhaque à mão, a plausibilidade
mefistofélica das teorias do Adrian Leverkhun de
Thomas Mann... Por toda sua carga simbólica, o recluso
da palafita fatal não é menos "real" que Raskolnikof,
Lord Jim, Fedra ou Brunetto Latini; não custa ouvi-lo,
mais um
desdichado a murmurar: nessun maggior
dolor, e a clamar entredentes: j'ai rêvé dans la
grotte où nage la sirène... Ora, mais que "tratar as
sombras como coisa sólida", o triunfo maior da grande
arte é trazer das sombras vidas tão vívidas em imagens
tão firmes que nem estas esmorecem nem aquelas se
extingüem em nós uma vez finda a aventura do texto e o
prazer da leitura.
É, sem dúvida alguma, o que temos aqui. Assim
como muito tempo depois de fechar o volume das Memórias
Póstumas, continuamos a "ver" Eugênia, a Flor da
Moita, saudar majestosamente um Brás Cubas encanecido
para, arrastando a perna, puxar entre os dois,
senhorilmente, a cortina de seu pedaço de cortiço; assim
vemos Yacala refazer os mesmos cálculos e cuspir o mesmo
sangue todos os dias, estrela ou não estrela. A última
cena, a do massacre, não esgota nossa perplexidade,
muito menos apaga as figuras de Mestre Bai, o Apolônio
do nosso Hamlet negro, ou de sua filha, a Ofélia de
Yacala... Quanto ao fim sutilíssimo do poema-livro,
aquelas folhas soltas grávidas de preciosos cálculos
boiando no infinito da dor inútil, tampouco nos fazem
esquecer o detalhe mais banal da tragédia: seguimos
ouvindo o alvoroço do pobre cão martirizado, que algo
tem a ver com o Quincas quadrúpede ganindo sua dupla
orfandade pelos ermos pedregosos das Gerais.
E uma vez mais o constatamos: opus nigrum de
um mestre da dor musical, o que este conciso drama em
menos de oito mil palavras nos dá é o acesso imediato ao
salão maldito dos mais esplêndidos e arrepiantes
delírios metafísicos deste nossso abastado e atormentado
Ocidente. Em cujas páginas mais brilhantes desde o
florentino, e sempre mais a partir de Shakespeare,
Cervantes e Goethe, o belo, o farsesco e o demoníaco
nunca deixaram de dar-se as mãos familiarmente.
Baudelaire, nessa ótica, não teria feito mais que levar
às últimas consequências, cabiveis ou não, aquela
milenar ambigüidade que Hoelderlin, Blake e Leopardi já
haviam como que folheado de mão trêmula antes de dá-la
ao vento dos tempos que começavam a precipitar-se e a
abrir-se como um vórtice. Qualquer um deles poderia nos
ter narrado a saga do ex-noviço que, com um rolo de
notas cifradas extraídas a um depósito de lixo
cirúrgico, poria, em nome da inteligência e do infinito,
a vida e a alma em risco na caça a uma hipotética
estrela-harpia.
Nada mais cabível em nosso tempo – ou no deles –
a admitir que não se trate ainda do mesmo hipnótico
presente, tão renitentemente kantiano... E não seria
aquela estrela de
puro cálculo – espécie de travesti celeste da
mallarmaica absente de touts
bouquets – o mais fino ícone, a górgona sideral, o
ponto de vertigem daquele mesmo abismo que arrancara a
Pascal sua famosa frase? Não seria o eterno silêncio
daqueles mesmos espaços infinitos a espiar aqui o
tresloucado Yacala, como há séculos vem assombrando os
mais inspirados criadores de fulgurantes e inapagáveis
pesadelos...? Não teorizemos às expensas de um drama
vital que é todo o contrário de uma dissertação, mas
como não poderar com este livro espantoso: se o belo
intelígivel plotiniano for mais do que um sonho, tanto
maiores serão a temeridade de contemplá-lo no sarcófago
de cristal das abstrações e o risco de ir buscá-lo ao
infinito aberto de que a mente é um tão precário quanto
ambicioso espelho ávido. Não sei quem me disse ao ouvido
certa vez que "o
intelecto é o espelho do vazio / e esse vazio é cheio de
ilusão..." Poderia tê-lo dito melhor, mas não
poderia tê-lo ilustrado com mais pertinência,
inventividade, arte, engenho e humanidade que o autor
deste livro monumental e minucioso, de capa a capa tão
exato e extravagante quanto doloroso e belo.
Com ele, trinta anos após esculpir em pungentes
600 versos sua originalíssima Oração pelo poema,
e, como se não bastasse, extendendo-o e ecoando-o
nas 125 magistrais variações sinfônicas que tecem a
insuperável obra-prima aqui chamada de Lamentação sob os
lajedos, entre duas sinfonias e uma oração, Alberto
da Cunha Melo não só confirma sua reconhecida estatura
de poeta maior em nosso idioma, mas inscreve-se
definitivamente entre os grandes, os maiores vates de
nosso tempo em qualquer língua que eu conheça.
Certamente naquela meia dúzia com o melhor das quais por
décadas convivi, digamos, mais intimamente; se
escrevesse em qualquer delas, este autor já estaria em
todas as bocas a caminho de Estocolmo... Mas dessa
improbabilidade consola-nos o fato de que, por aqui ao
menos, com esta obra penetramos, para nele permanecer e
crescer, no território puro e firme da Linguagem,
daquela ininterrupta, una e pura Fala (unershöpflich Eines,
Reines, spricht) que Rilke nos adverte ser o
elemento próprio ao drama do homem fragmentado, como aos
pedaços do Orfeu que lhe cabe reunir no mais agônico de
seus vôos.
Sturm und Dräng, aber
Dichtung und Warheit! insistiria aqui o
sábio de Weimar... E se de verdade se trata, tanto
quanto de poética, é que, elevando nosso sofrimento e
ampliando os horizontes à arte que cá se vem fazendo no
idioma de Camões e de Pessoa, o maior poeta-em-exercício
no Brasil deu-nos mais que um maníaco encurralado pela
Idéia e assassinado pela besta-como-tal: deu-nos,
machadianamente, uma lição de dor, loucura e redenção
pelo mistério da poesia, luz angélica e
negra, segundo o célebre verso de Seferis. Tão grego
quanto negro, definitivamente voz universal e cosa nostra,
Yacala, seus amigos, seus algozes, seus cálculos e seus
ecos, e até seu cão, ficarão fulgurando eternizados do
Capibaribe ao Oiapoque e do Tietê ao Chuí. Seu delírio –
tão nosso! – e seu martírio – tão moderno! – serão um só
quisto luminoso em nosso negrume, porque Yacala veio
para ficar e crescer na alma nacional: irá com ela aonde
ela for. Desde já, insere-se com natural ar de família
ao lado do I-juca
Pirama. Leiam e confiram, meninos, eu li, vi e ouvi
o caso mais espetacular de alta poesia narrativa em
nossa lira desde o canto de morte do imortal Timbira. E
olha que por aí já vão quase século e
meio...
BRUNO
TOLEN |