A ordem fatal
das coisas vivas
Mário
Hélio
“El
veinticinco de junio/le dijeron al Amargo/ ya puedes
costar se quieres/ las adelfas de tu patio./ Pinta una
cruz en la puerta/ y pon tu nombre debajo/ porque
cicutas y ortigas/ nacerán en tu costado,/ y agujas de
cal mojadas/ te morderán los zapatos./ Será de noche en
lo oscuro,/ por los montes onantados,/ donde los bueyes
del agua/ bebe en los juncos soñados./ Pide luces y
campanas./ Aprende a cruzar las manos,/ y gusta los
aires fríos/ de metales y peñascos,/ porque dentro de
dos meses/ yacerás amortajado.”
(Federico García
Lorca)
Um livro de poesia o que faz, além
de comover, é atiçar a memória e a imaginação que
peregrinam buscando analogias, associações de idéias,
sugestões. Todas afastadas do que pensou o poeta ao
compor os seus versos, mas úteis para estimular os
“direitos do leitor” a que se referem
os semiólogos. Ao ler este novo livro de Alberto da
Cunha Melo, como não lembrar do “Romance del Amargo”, de
Lorca, que virou música na composição de Pachón e na voz
de Camarón?
Os versos de Lorca são daqueles a
que não sai incólume nenhum leitor para quem a gravidade
das coisas e o “sentimento trágico da vida” tocaram a
carne como os seus próprios ossos. Os versos de Alberto
da Cunha Melo respiram assim. Os melhores deles são
justamente aqueles que não têm nenhuma piedade do
leitor, que não querem niná-lo nem comovê-lo. A novela
Pedro Páramo,
de Juan Rulfo, é outro exemplo do incômodo e intolerável
em forma de literatura. A meio do caminho da leitura, o
leitor se dá conta de que todos estão mortos. Esse mesmo
frisson pode
atingir algum leitor desprevenido deste Meditação sob os
lajedos. A começar do título, todos os poemas são –
mais do que uma elegia – uma meditação sobre a morte. Ou
melhor dizendo: sobre a vida e a morte na condição de
coisas sinônimas. Não há duvida de que este e o conjunto
dos octossílabos de Poemas Anteriores
são a
obra máxima de Alberto da Cunha Melo. Ao meditar sobre a
morte, está simultaneamente refletindo a condição do
poeta, como neste impecável “Casa vazia”:
“Poema
nenhum, nunca mais/ será um acontecimento:/ escrevemos
cada vez mais/ para um mundo cada vez menos,// para esse
público dos ermos,/ composto apenas de nós mesmos,// uns
joões batistas a pregar/ para as dobras de suas
túnicas,/ seu deserto particular,// ou cães latindo,
noite e dia,/ dentro de uma casa vazia.”
Os
topoi
animais, as alegorias bíblicas, os prenomes de mulheres
são usados pelo autor, em todos os seus livros de
poesia, para explicitar a realidade nua e crua de que se
nutre a sua arte. Ninguém encontrará em Alberto da Cunha
Melo os mimos da transcendência. Toda a sua poesia é uma
vigorosa homenagem ao imanente, a começar pela palavra
Deus (ou deus), um títere da natureza e do Destino. No
poema citado, por exemplo, o único elemento que poderia
indicar a transcendência, a verticalidade de “túnicas”,
é suplantado por símiles do horizonte: deserto, ermo. A
própria casa representa, obviamente, o duplo de
verticalidade e horizontalidade. Desse jogo (vertical,
horizontal, imanente, transcendente) e, sobretudo, da
inter-relação entre microcosmo e macrocosmo compõe-se
todo o conjunto de textos deste novo livro. De modo mais
específico e mesmo correndo o risco de parecer forçada a
aproximação, lembramos que termos que
aparecem com enorme freqüência na obra (sol, terra, céu)
– símbolos cósmicos – são fundamentais
nos Vedas. Como informa Julia Mendoza Tuñón:
“Os cantores do RV adoram deuses
que não são mais do que elementos naturais deificados,
astros ou elementos primigênios e essenciais do cosmos
(Surya ‘Sol’
e Ushas,
‘Aurora’, Dyavaprthivi
‘Céu-e-Terra’, Apas ‘Águas’)
[....] Assim, pois, as linhas que levam às divindades
abstratas, isto é, à consideração da divindade como a
personificação das forças imanentes, criadoras e
constituintes da natureza, parece proceder nos inícios
da especulação védica de duas direções diferentes: a
especulação cosmogônica e cosmológica, que leva a
considerar a origem única do mundo e adorar sua essência
como divina (da qual derivam hinos dedicados a conceitos
abstratos e, antes que isso, deuses ou seres que
personificam o Criador que é, por sua vez, o Primeiro
Princípio e essência única da Natureza), e a divinização
de elementos do ritual, baseada no muito antigo culto ao
fogo, adorado como elemento cósmico que representa e
compendia a Ordem (R tá) e a conserva
e restitui por meio do ritual.”
Mesmo não sendo direta (talvez, nem
indireta) essa vinculação do poeta com o RigVeda, é
legítimo estudá-lo dessa perspectiva, considerando a
importância que assume o conceito abstrato de Palavra
(personificada em Vak) e os deuses
pessoais, Brihaspati e Brahmanas pati
(que personifica a Oração). Os dois primeiros livros de
Alberto da Cunha Melo – Círculo Cósmico
e Oração pelo
poema – encenam e dramatizam Palavra e
Oração, ambas no sentido mais imanente, e o da
consciência. (“Depois da morte não há consciência, assim
o proclamo, disse Yajna-valkya”). É possível pensar a
consciência desvinculando-a da fatalidade que parece
haver marcado para sempre a existência humana?
Encontrará na morte o homem a libertação? Será possível
também ser livre na vida?
Numa entrevista concedida a Léo
Gillet, em Amsterdã, no dia 1o de fevereiro
de 1982, o filósofo romeno, de expressão francesa, Emil
Cioran, disse, com a lucidez feita de vinagre, ácido e
pedra que lhe era peculiar: “O problema da liberdade é
muito simples, de um ponto de vista filosófico: somos
livres, temos a falsa ilusão de liberdade, nos gestos
aparentes. Mas, no fundo, não somos livres. Tudo o que é
profundo nega a liberdade. Há como uma fatalidade
secreta que
dirige tudo. A palavra alemã que expressa isso
muito bem é Verhängnis. Há
um livro cujo título me fascinou e dominou minha
juventude, é um livro ruim, desgraçadamente, mas cujo
título é extraordinário: Bewusstsein als
Verhängnis (A
Consciência como Fatalidade). O autor foi um jovem
que se chamava Seidel, quem, depois de escrevê-lo, se
suicidou. Mas duas coisas sobreviveram a ele: o seu
suicídio e o título.”
Não parece que o poeta Alberto da
Cunha Melo seja tão fatalista quanto Cioran ou que tenha
como este a obsessão do suicídio, mas a sua poesia é o
melhor exercício já tentado em poesia no Brasil sobre o
problema da liberdade associada à consciência e à
fatalidade. Em cada um dos seus textos está sempre
representado o drama da relação do homem com o outro,
consigo mesmo ou com o Destino (tenha este o nome de
Deus, Sorte, Azar, Fatalidade ou qualquer um que se
queira).
O
trabalho do poeta não é o do sonho, e sim o de flagrar,
expor os estertores de um ser em permanente agonia. A
vantagem ou a desvantagem do autor é que essa
experiência do ser em pedaços não foi retirada dos
manuais de filosofia, mas da realidade mesma ou, para
dizer de modo mais apropriado, da sua própria carne. A
carne de um poeta é sempre o seu próprio manto de
Dejanira. Lendo estes novos poemas de Alberto da Cunha
Melo, quase inevitável será pensar também no que
escreveu Albert Camus a respeito de Louis Guilloux:
“Por ter tomado lições da
necessidade, esse grande escritor aprendeu a julgar sem
embaraço o que é um homem. E adquiriu, ao mesmo tempo,
uma espécie de pudor que parece pouco partilhado no
mundo em que vivemos e que sempre o impediu de aceitar
que a miséria dos outros possa lhe servir como escada,
ou que possa lhe oferecer motivos pitorescos. D. H.
Lawrence freqüentemente relacionava o que havia de
melhor em si mesmo e em sua obra ao fato de ter nascido
numa família de mineiros. Mas Lawrence e aqueles que se
assemelham a ele sabem que, se podemos conferir grandeza
à pobreza, nunca poderemos justificar a escravidão que a
acompanha.”
Tomando tais lições da precariedade da vida – no
sentido cósmico e humano – Alberto da Cunha Melo pôde
criar uma espécie de metafísica do cotidiano feito de
agonias perpétuas. Cabe dizer que a altura de sua voz
difere muito daquela prefigurada em versos famosos de
Ribeiro Couto – que não gesticula nem se exalta, porque
é toda muda, mesmo considerando-se que o próprio ACM a
tenha colocado como epígrafe de um dos seus livros. No
seu caso, há gritos, sim, e gestos. Os gritos não são os
desarticulados dos expressionistas, mas dos que se sabem
marcados pelo
morrer (mais do que para morrer). No entanto, caberá
talvez antes comentar mais detidamente a melancolia
corrosiva dos seus anti-hinos e sublinhar que essa luta
pela vida, na sua poesia, aparece com a mesma força
daquela “luta mais vã” do poema de Drummond. Lutar com
palavras foi a principal herança deixada a ele por seu
pai, também poeta, Benedito. Uma desdita de geração a
geração.
O
tema do “desdichado” não é novo na literatura. Quem o
cantou melhor na modernidade foi Baudelaire, mas
contribuiu para ampliá-lo Gerard Nerval. Sem falar no
belo ensaio de Kierkegaard, que fala de um epitáfio na
Inglaterra, onde estava escrita a
simples expressão: “o mais desgraçado”. O filósofo
dinamarquês concluiu que: “A dor dos indivíduos
desgraçados na esperança nunca chega a ser tão grande
como o que sofrem os que são desgraçados na recordação.
A desilusão dos primeiros sempre é menos cruel. Por isso
o ser mais desgraçado sempre deverá ser procurado entre
aqueles indivíduos que são desditados na forma de
recordação.”
A possibilidade de encontrar um ser
que reúna os dois tipos de desgraças também é estudada
por Kierkegaard. Ler todo o seu ensaio é um exercício
dos mais interessantes para compreender os princípios da
poesia não somente deste Meditação sob os
lajedos, mas de toda a obra de Alberto da Cunha
Melo.
Será algo ocioso dizer que, junto
com essa imagem da realidade insuportável, termina-se
por criar uma imagem estereotipada do poeta que, em
Baudelaire, aparece como um albatroz a quem os
marinheiros entopem o bico de fumo. Na mesma esteira,
Verlaine criou a
célebre categoria de poeta maldito, sem saber que
definiria a condição da maior parte dos poetas de
real mérito no futuro. Todos antiolímpicos, todos
pessoas da tabacaria-mansarda, “ainda que não morem
nela”. Todos anti-Goethe e já não freqüentando corte
nenhuma, mas os bares, as feiras e outros templos do
anonimato. No fim, tudo nesse campo existe para dar
alguma razão a Vigny: o poeta não tem lugar em nenhuma
sociedade. Alberto da Cunha Melo sabe disso e criou toda
a sua poesia mostrando que sabe disso.
Pouco depois de publicar Círculo Cósmico
– obra de estréia – lançou Oração pelo
Poema, e com este título definiu uma tendência da
sua poesia, ou mesmo um seu gênero: meditação,
evidentemente muito distinto daquela meditação sobre o
Tietê de Mário de Andrade. Agora o seu círculo se amplia
com Meditação sob
os lajedos. Não há apenas um nexo formal e causal
entre os dois livros (Oração... e Meditação...),
há outro de mentalidade, uma espécie disfarçada de
filosofia em forma de verso. A vocação aforística nos
seus primeiros octossílabos continuou nos Poemas à mão
livre, se ampliou em Carne de
Terceira,
não arrefeceu em Yacala (poema
narrativo) e mais se acentua agora.
Há uma evidente unidade entre os
poemas octossilábicos e os que se denominam à mão livre.
Entre os da chamada fase formalizante do poeta e outros
que, na falta de melhor expressão, apareceram como
versos livres, isto é, sem métrica e sem rima. A
ausência de métrica e de rima é pouco relevante,
porquanto o que marca a retórica de ACM é a respiração,
o ritmo, o pensamento. Seria interessante, porém, que o
autor escrevesse um livro usando toda a estrutura nova
que criou (quarteto, dístico, terceto, dístico), mas sem
rimas, como o fazia com os octossílabos. Aliás, sobre
esses aspectos puramente formais cabe dizer que, no
desenvolvimento de sua obra, o autor ora privilegia a
rima (o que o vincula a uma tradição latina), ora a
aliteração (mais valorizada pela tradição germânica). A
insistência na rima e nos versos curtos talvez sirva
para aproximá-lo do universo da poesia popular.
No primeiro poema de Meditação sob os
lajedos, encena-se a distância, a perda e a
impossibilidade de evasão. Não é o aeroporto (que dá
lições de partir) do conhecido poema de Bandeira, nem a
angústia do personagem de América (de
Kafka) que esquece a bagagem no navio. É a angústia do
sonho ou esperança referida na desgraça estudada por
Kierkegaard, que sempre terá como fruto o desengano,
pois a vida é mais insuportável do que a morte. Não
deixa de ser sintomático que esse primeiro poema seja o
único em que a morte não está referida de modo explícito
(a viagem, a alma, a perda são associações não tão
diretas quanto parecem). Mais vinculada ainda está à
angústia, ao temor e ao tremor do dinamarquês. A memória
funciona como centro da angústia e da desdita, e nem
deus nem o paraíso perdido da infância conseguem
diminuir o peso titânico do tempo. Um dia, a lembrar-se
de Medéia, é o bastante para qualquer desgraça.
No lugar do aeroporto (aqui o
espaço é mais amplo, desértico e angustiante: o
macrocosmo do aeroporto ou do céu sabe doer mais do que
o microcosmo do avião), tem-se, no poema seguinte, o
navio “atropelando o próprio porto” (porto/aeroporto: o
paralelo é perfeito): ambos são lugares de transição e
passagem. Mas a personagem central não é o tempo, nem a
espera, nem o desengano, mas a palavra e o seu poder de
destruição –não de construção, como o Logos que se faz
carne-: “sabe matar pelo distrito,/ sem deixar marcas do
delito.”
Os poemas seguintes continuam a
refletir os problemas da Palavra, da poesia e de suas
orações e começam a aparecer os termos que, por
excelência, definirão as estratégias deste livro: lágrima, sol,
sombra, espaço. Em “Lição de casa” (note-se a
associação possível com “Casa vazia” e com “Aeroporto”,
que também trata de um dia desditado ou “maldito”, como
maldita é a literatura, repetem-se lágrima e sol,
representado aqui positivamente com a dor, como a lágrima e o sal
– o seu diminutivo (sal está para lágrima como lágrima está
para mar).
A maldição da
palavra e da mimese é ainda mais exacerbada nos poemas
seguintes: “Falar, falar” e “O desenho”. Em
“Ars, artis, arte”, os problemas da imanência e
transcendência (ou de modo mais preciso, materialização
e abstração) encontram, além de Infinito,
Eternidade, Deus, espaço, um símile mais precioso –
o Mar.
Novamente irrompem a mimese e a condição desditada da
arte e dos artistas (todos eles, poetas, escultores ou
pintores passíveis de hybris e
condenados), que reaparecem sintetizadas como trabalho
de mera vaidade.
Em “Rodin”, isso
está posto também, mas de modo mais sintético. O mar – última
palavra do texto anterior – está sintetizado numa
simples “lágrima”. O texto seguinte, “As moscas”,
continua o ciclo do bestiário particular do poeta (de
todos os bichos referidos, apenas dois (cão e gato) não
são alados ou não têm vocação volátil, quase inorgânica.
Os demais são moscas, abelhas, pombos, pardais, galos.
No caso do poema dedicado a Kafka, o inseto serve apenas
aos propósitos da alegorização cotidiana e crítica que
marca o autor. Poema a poema, todos, sem exceção,
discutem vida e morte. O cotidiano mastiga e dilui o
transcendente, numa implacável e precisa meditação, como
se cada poema fosse mesmo um epitáfio, não do poeta, mas
da condição humana ou, para usar sua expressão: “da
ordem fatal das coisas vivas”.