Moro tão longe, que as serpentes

morrem no meio do caminho.

Moro bem longe: quem me alcança

para sempre me alcançará.

 

Não há estradas coletivas

com seus vetores, suas setas

indicando o lugar perdido

onde meu sonho se instalou.

 

Há tão somente o mesmo túnel

de brasas que antes percorri,

e que à medida que avançava

foi-se fechando atrás de mim.

 

É preciso ser companheiro

do Tempo e mergulhar na Terra,

e segurar a minha mão

e não ter medo de perder.

 

Nada será fácil: as escadas

não serão o fim da viagem:

mas darão o duro direito

de, subindo-as, permanecermos.

 

 

 

O céu parece revestido

de uma camada de cimento:

deixo as marquises porque sei

que esta chuva não passará.

 

Se esperasse um tempo de paz,

nem meu túmulo construiria.

Começo e recomeço a casa

de papelão em pleno inverno.

 

Um plano, um programa de ação

debaixo de uma árvore em prantos,

e voltar à primeira página

branca e ferida pela pressa.

 

A poesia já não seduz

a quem mais forte ultrapassou-a,

libertando um pouco de vida

e luz, da corrente de estrelas.

 

Toda renúncia nos convida

a recomeçar outra busca,

porque algo a inocência perdeu

no chão, para arrastar-se assim.

 

 

 

 

 

Cai um silêncio de ondas longas

e sucessivas como a chuva.

E que silêncio será esse

que cai assim antes de mim?

 

Fauna marinha, gestos lentos

de anjos calados golpeando

um polvo em fúria que me espera

(sob os sonhos). Há quanto tempo?

 

Poucos amigos, tudo salvo,

ainda temos nossas raivas

e uma esperança ilimitada

nos setembros. Mas, até quando?

 

Caem livros silenciosos

das prateleiras: baixa a luz

morna e abundante sobre as capas.

Que foi feito de tanta noite?

 

A esperança nova se agarra

entre as barreiras e as ossadas

de nossos morros. E por que

morremos antes de salvá-la?

 

 

Arte e Editoração: Cláudia Cordeiro Reis

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