Dois Poemas de
Ângelo Monteiro
 
de Os Olhos da Vigília,
Lisboa: Aríon, 2002
 
 
 
 
 
A Geração 65 de poetas pernambucanos
em traje de gala.
No final, Alberto da Cunha Melo
saúda o amigo poeta, e inserimos ainda
fragmento do prefácio do também poeta
Francisco Soares.
 
 
 
 
 
Por isso eu quero os olhos da vigília
Que só a serpente possui.
 
Ângelo Monteiro
 
 
 
 
O  Vice  Deus
 
 
 
Pisando a terra com garbo
Despontei
Quando já tinham desabado
Todos os tronos e altares
No coração dos homens.
E as últimas manchas do grande crepúsculo
Se desbotavam sobre os horizontes
Impermeáveis a todas as florações da luz.
Mesmo assim pisei com garbo
- Apesar de banhado pela luz escura da ironia -
O tapete das luas mortas,
Algumas vezes detendo-me diante das piras apagadas
No altar de todos os deuses
Dantes encravado no coração dos homens.
Frustrado padre de um culto sem adeptos
Ainda me vi sagrado Papa e Imperador
De um mundo por sonhar.
Mas apesar da desproporção de tantos sonhos
Só consegui ser poeta. Porque só com a poesia
É possível iludir ou contrariar a realidade.
E, como não pude escapar do destino de poeta,
Tentei ser Vice Deus.
Pois nasci num país em que a maioria
Dos homens públicos e das mulheres públicas
Aspiram sempre, uns mais, outros menos,
Se tornar vices de alguma coisa.
De vice-presidente a vice-lixeiro
O posto de vice nunca perdeu a serventia
Por restar a possibilidade
Perfeitamente em aberto
De alcançar-se a vaga do titular.
Como ser vice é ser pela metade
Todos se julgam felizes
Porque a metade lhes exige menos que o todo.
Mas por não querer ser metade de nada
Resolvi me passar por Vice Deus.
Sim, por Vice Deus. De uma vez que ninguém até agora
Alcançou este título no mundo.
E como Deus não dorme, segundo o adágio,
Contento-me em ser apenas o seu vice
Embora saiba que não possa haver alguém
Que venha a atingir, em qualquer tempo, o seu poder.
Não importa! É uma forma que encontrei
De estar mais perto Dele.
Como sou inteiramente Vice Deus
Pelo menos não o serei pela metade.
E já que Deus não tem metade
Dou graças a Ele, que não é pela metade,
Por todos os séculos dos séculos,
Amém.
 
 
 
 
 
 
Calendário
 
 
Dia após dia, sob ceús sem combate,
Ante folhas que tombam para o inexistente
E ante homens que se movem como pedras
No tabuleiro esquecido de todas as coisas
Persigo o meu caminho
No séquito dos anos.
 
 
Os amigos, como os quadros, mudaram de lugar.
E as lembranças mais fortes
Quando muito são rugas
Na face amarelada do tempo.
 
 
 
 
 
 
 
SOBRE ÂNGELO MONTEIRO
Francisco Soares
 
 
As páginas de um currículo extenso e diversificado não desenham de forma evidente o perfil de uma personalidade sofrida mas elevada, paradoxal e desconcertante. A vida o excruciou desde a infância, com episódios que fariam a glória de qualquer psicanalista, surrealista ou cineasta. Apesar disso, ele mantém-se hoje, como disso Olavo de Carvalho, para além de um grande poeta um verdadeiro 'escândalo de autenticidade num universo de fingimento'.
 
 
 
 
 
 
 
Saudação a Ângelo Monteiro
Carta do poeta Alberto da Cunha Melo
 
 
 
Grande Ângelo, Grande Poeta, Grande Amigo,
Vice-Deus e Grão Mestre da Sagrada Ordem
dos Sábios da Babilônia:
 
 
Acabo de sair d'Os Olhos da Vigília, ainda com insônia e lamentando a
"inteira vida sonhada/ sem se vivê-la um só dia",
sem tirar a vista
"da passagem dos homens/ sobre a infinita areia/ entre a música das águas/ e o clamor da vida eterna".
O interressante, amigo, é que se trabalhar com a palavra é trabalhar a própria dor,
"toda palavra é essência/ da nossa própria agonia".
Será que fazemos isso porque, apesar de velhos, continuamos a soprar as brasas
"do amor que - além dos ossos - foi poesia?",
e procuramos, vaidosos que sempre fomos, chamar a atenção "dos pássaros mais altos do futuro"?
Não sei, amigo, apenas desconfio que lá fora
"fez-se treva no centro da linguagem",
sabendo-se, embora, que
""... só com a poesia/é possível iludir e contrariar a realidade".
E, para contrariá-la, é preciso uma poesia de forte fibra e altíssima culminância, com a sua.
Um grande abraço,
extensivo à Elizabeth.
 
Alberto da Cunha Melo
 
 
 
 
 
 
Arte e editoração deste mail: Clau
Capa: Luís Manuel Caspar
Todos os direitos reservados: Ângelo Monteiro
e Aríon Publicações, Ltda.
Mid: Concerto Andante - Hummel
 
 

 

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