1
 
 
 
Canto, filho da luz da zona ardente,
 
coisas que vi a luz, sempre estrangeira,
 
tecer no ar e inevitavelmente
 
ir baixando com modos de redeira
 
   ao tear deste mundo. A vida inteira
 
vi me escapar a luz do sol cadente,
 
e é essa rosa de sangue na fogueira
 
que agora arranco às dúvidas da mente.
 
   Mente o intelecto que se esquece dela.
 
Se a pura luz de leste se desdiz,
 
a cada ocaso há no final feliz
 
   dos números da mente a bagatela
 
de uma luz de mentira. Contra ela
 
fui tecendo este canto de aprendiz.      
 
 
 
 
 
 
2
 
 
 
Canto o que amo e amo o que é mortal.
 
A luz que se debate ao horizonte,
 
a frágil mariposa cor de fonte
 
que é todo o nosso bem e imita um mal,
 
   nossa doce enfermeira terminal
 
empalidece, cai por trás de um monte,
 
e a mente sem demora baixa a ponte 
 
e faz entrar a luz conceitual.
  
   Canto para contar daquele instante
 
quando o que mais amamos chega ao fim
 
e um belo simulacro delirante
 
   usurpa-lhe o lugar; quando é assim
 
que a arte desfaz da luz agonizante,
 
convence a muitos, não comove a mim.
 
 
 
 
 
 
3
 
Não contai a ninguém que não vos creia
 
o quanto a luz padece; baste apenas
 
com colher um coral solto na areia
 
e confiá-lo a um par de mãos morenas,
 
    ou alvas como as pérolas e as penas
 
da pomba vesperal à lua cheia;
 
observai-as, como a manuseia,
 
como o desfaz, e meditai nas cenas
 
   que outras mãos igualmente minerais
 
teceram, tentadoras, tela a tela,
 
mas a distâncias como a alturas tais
 
   que tudo quanto sofre se rebela:
 
a pior traição é a que se faz
 
quem vendo a luz sangrar fecha a janela.
 
 
 
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18
 
 
 
Porque a mão que pintou La Derelitta
 
na cena mais cruel do Quattrocento
 
sabia o quanto vale o pensamento
 
à luz das chagas que um pincel imita.
 
   Não tratara de pária ou parasita
 
a dor da criatura: ao sofrimento,
 
a uma luz de verdade e de visita
 
aos charcos deste mundo purulento,
 
   o pintor da Beleza, ali, naquela
 
antiplatônica, ansiosa tela,
 
dava enfim estatutos de nobreza;
 
   clamava assim um mundo de verdade
 
no qual envelhecer, em que a certeza
 
de morrer não traísse a luz da tarde.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
         
 
 
 
TOLENTINO, Bruno. O Mundo como Idéia. São Paulo: Globo S. A., 2002.
 
Ilustração: La Derelitta, Botticelli. Coleção particular, Roma. Superstock.
 
Capa: Paulo Astiz
Foto de capa: A caçada, de Paolo Uccello, Ashmolean Museum, Oxfor. Corbis Images.
 
Pedidos pelo endereço de correio eletrônico: atendimento@edglobo.com.br
 
 
Bruno Tolentino
Endereço de correio eletrônico:  fcultura@pucsp.br
 
 
 
 
Editoração deste mail: Cláudia Cordeiro Reis
 
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