Soneto do Desmantelo Azul

 

 
 

Carlos Pena Filho

 
     
 

 

 
  Então pintei de azul os meus sapatos 
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos 
e colori as minhas mãos e as tuas.
 
   
 

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

 
            E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
   
  E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.
 
     
     

Transcrito da antologia: Os cem melhores poetas brasileiros do século. organizada por José Nêumanne Pinto. São Paulo: Geração Editorial, 2001, p. 135.

Editoração e voz de Cláudia Cordeiro

 

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