Poemas do livro Cinco Marias

 

Fabrício Carpinejar

 



Chega um momento
em que somos aves na noite,
pura plumagem, dormindo de pé,
com a cabeça encolhida.
O que tanto zelamos
na fileira dos dias,
o que tanto brigamos
para guardar, de repente
não presta mais: jornais, retratos,
poemas, posteridade.
Minha bagagem
é a roupa do corpo. 

... 

Eu fui uma mulher marítima, 
as rugas chegaram antes. 

Eu fui uma mulher marítima, 
paisagem e pêssego, 
uma faísca 
entre a corda do barco 
e a rocha. 

Eu fui o que não sou. 
Depois que inventaram o inconsciente, 
a verdade fica sempre para depois. 

... 

A mãe orquestrava a horta. 
Reservava espaço para ervas daninhas 
e seu alfabeto de moscas. 
Não mexia na ordem de Deus. 
Louvada seja 
a esmola de uma hortaliça. 

... 

Acerto o relógio pelo sol. 
Percorro as dez quadras 
de meu mundo. 
As ruas são conhecidas 
e me atalham. 

... 

Meu medo se interessa por qualquer ruído. 
Hoje quero alguém para conversar enquanto dirijo, 
baixar os faróis em estrada litorânea, 
enxergar pelas mãos. 

... 

Fazer as coisas pela metade 
é minha maneira de terminá-las. 

 


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