MULHER AO ESPELHO

 

Cecília Meireles 


Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.


Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.


Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

 

 

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.


Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.


Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.



 

Flor de poemas, Editora Record, 1998 - Rio de Janeiro, Brasil 

Esta edição é dedicada à poetisa baiana MARTHA GALRÃO, que me enviou o poema em 02 de novembro de 2006. Conheça a poesia de Martha. Clique aqui!
Editoração: Cláudia Cordeiro - MID: Bandolins. Oswaldo Montenegro 

Tudo vale a pena se a poesia nos envenena!

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