Mar-Horto

 

Cláudia Cordeiro 

 

Esta não é a água

cristalina de beber

nem abençoada de benzer

 

É a água de cem mortos

pedaços de corpos

boiando na luz da manhã.

 

À noite,

ondas vermelhas

tropeçam

em mãos, pés, braços, orelhas...

no recuo da praia.

 

Angústia

do morto, do torto:

o arcabouço apodrecido dos sonhos.

 

Angústia maior:

a de ter olhos de ver.

 

Arte edição e voz da autora

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