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Sertão-Sertões: Singular-Plural
Cláudia Cordeiro Reis
Duas obras atravessam o século XX e chegam ao XXI com uma vitalidade inigualável no contexto da literatura nacional: Os Sertões, de Euclides da Cunha, e Grande Sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Há um século da publicação de Os Sertões, os registros variados sobre essa obra nos remetem ao seu desdobramento temático e estético imantando-nos a outras do mesmo tônus literário, e, quase imperiosamente, nos conduzem às “veredas” de Rosa. A primeira edição de Os Sertões, conforme se convencionou referir nos quadros didáticos das Escolas Literárias, inaugura, juntamente com Canaã, de Graça Aranha, o nosso pré-modernismo que será marcado pela coexistência, nem sempre pacífica, de vertentes do passado então recente e outras que se inspiravam nas vanguardas européias pós-impressionistas. Massaud
Moisés1,
prefere falar de uma “Belle Époque Tropical”, e, embora os
“ismos” constituíssem a novidade estética que mais procurava
impor-se, o ensaio também passou a ocupar espaço relevante, e é na
categoria ensaio, pertencente ao gênero didático, que ele irá
classificar a obra de Euclides, considerando que: O
ensaio é, na oscilação dialética entre Ciência e Arte, ou entre
compromisso com a lógica objetiva e as pulsões do sujeito indagador, um
exercício de liberdade. (...) Mas a liberdade que, utilizando a um só
tempo a inteligência analítica e a intuição criadora, busca o
conhecimento da verdade nas suas mil formas, notadamente aquelas que
escapavam ao cerco dos rígidos pressupostos ideológicos e das prescrições
rasamente científicas. 2 Já está largamente elucidada a fragilidade científica das ultrapassadas teses naturalistas nas quais o escritor se apoiou para redigir seu relato. É bom lembrar também que a presença dele, no que se convencionou chamar de “teatro de operações” não passou de dez dias. Dessa forma, o autor teve que recorrer a fontes secundárias – especialmente “Última expedição de Canudos”, de Dantas Barreto – livros e matérias jornalísticas de outros autores, para concluir o seu trabalho.
Ao
largo da narrativa, evidencia-se a postura de “homem letrado” a
estudar as “raças inferiores”, fato este que a crítica mais recente
se empenhou em denunciar, a exemplo: (...) rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa. Porque não no-los separa um mar separam-no-los três séculos. Ou ainda: Da consciência da fraqueza para o debelar, resulta, mais forte, este apelar constante para o maravilhoso, esta condição inferior de pupilo estúpido da divindade. Em paragens mais benéficas a necessidade de uma tutela sobrenatural não seria tão imperiosa. 3 Cabe,
então, a pergunta: o que restou da obra de Euclides para incrustar-se tão
profundamente na consciência nacional? E respondendo, aqui muito
simploriamente, dir-se-ia que nela, prevalecendo o discurso sobre o relato
histórico, o “eu” sobre o “não eu”, restou a sensação de
beleza, conforme completaria Massaud Moisés: (...)
posto que beleza da forma: o ensaísta é por definição o bom escritor.
(...) o ensaio vale menos pelo acerto ou procedência das idéias que
pelos horizontes que descortina aos dois interlocutores, um ativo porque
compõe o escrito, outro passivo até certo ponto, porque reage aos
conceitos expedidos, acolhendo-os ou refutando-os. Assim, o ensaio se
identifica como um texto redigido com os olhos voltados, ao mesmo tempo,
para a beleza da expressão literária e a beleza da verdade que exprime.
4 Mas
é importante lembrar que Euclides inseriu, em definitivo, no Brasil, o
pensamento moderno, espelho da desconfiança nas teorias científicas que
até então procuravam explicar o mundo através de rótulos rotos em relação
à dinâmica e à complexidade da vida, do humano. Ele revela a sua perplexidade ao perceber que ruíram os valores morais, científicos e políticos, com que se armou para descrever a saga do Conselheiro. Euclides viveu, na ante-sala da I Guerra Mundial (1914-1918), em um mundo eufórico e aflito que buscava a si mesmo. Ele procurou compreender o Brasil e descobriu dois brasis, o do litoral e o do sertão, conseguiu revelar a chaga deste último e expôs a comunidade brasileira ao constrangimento de constatar o quão inútil e injusto tinha sido o massacre de Canudos: “Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo”. 5 No contexto essencialmente literário, mesmo prevalecendo o gênero didático do ensaio, podemos também detectar o amálgama dos gêneros lírico, épico e dramático. Lírico se considerarmos o trabalho obsessivo com e da palavra, determinando o que a crítica convencionou chamar de “barroco-naturalista”. Mas marcado por uma acústica especial que imprimirá, em definitivo, o caráter artístico da composição de Euclides. Guilherme de Almeida, em seu artigo, “Poesia de Os Sertões”, desentranha da obra um poema, ao qual deu o nome de “A Vaqueja": De
repente estruge o gado um
estrídulo tropel de cascos sobre pedras, um
estrépido de galhos estalando, um
estalar de chifres embatendo; tufa
nos ares, em novelos, um
nuvens de pó; rompe,
a súbitas, na clareira, embolada,
uma ponta de gado; e,
logo após, sobre o cavalo que estaca esbarrado, o
vaqueiro, teso nos estribos... Entrebatem-se,
enredam-se, trançam-se e alteiam-se
riscando vivamente o espaço, e
inclinam-se, e embaralham-se milhares de chifres. Vibra
uma trepidação no solo: e a boiada "estoura"... ............................................................................................. torrentes
de cascos pelos tombadores; rola
surdamente pelos tabuleiros ruído soturno e longo de trovão longínquo...6
O desdobramento épico se dá especialmente no capítulo “A Luta”, marcado, pelo estilo impressionista, que nele se adensa devido à perplexidade do autor diante dos fatos. Talvez tenha sido essa perplexidade que transformou o tempo presente do narrador, sobre o pretérito da cena, em “presentificação lírica”, somando-se, a esta, o drama, movido pela tensão que os capítulos anteriores, “A Terra” e “O Homem”, conseguem dar ao desfecho. O fato é que tema e estilo de Euclides permanecem na nossa literatura, embora mutantes, numa sucessão de obras como: Pedra Bonita (1938), de José Lins do Rego; A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna; e Caldeirão, de Cláudio Aguiar; ou outras que se debruçam exaustivamente, ao longo do século XX e mais ainda neste centenário (2002) de publicação, para entendê-la. Ou, ainda mais, refletindo-se em obras de primeira grandeza como é o caso de Grande Sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Esse único romance do mineiro da cidadezinha de Codisburgo é considerado, pela unanimidade da crítica, sua obra-prima, assim como Os Sertões é considerada a obra máxima de Euclides. A nossa Literatura, pois, amadurecera bastante com a tempestade de 22 e a farta seara dos pós-modernistas, especialmente os da Geração de 30. À unanimidade, Guimarães e Clarice Lispector são considerados os grandes expoentes da prosa da Geração 45. A obra-prima de Guimarães parece sintetizar todos os estilos de época, dentro do que ele próprio convencionou chamar de “ficção poética”: “Cresceu em mim o sentimento, a necessidade de escrever e, tempos depois, convenci-me de que era possuidor de uma receita para fazer verdadeira poesia. (...) Meus romances e ciclos de romances são na realidade contos nos quais se unem a ficção poética e a realidade”. É uma das revelações que faz em entrevista ao crítico alemão Günter Lorenz8. A narrativa de Rosa refletirá essa época mais promissora quanto aos cuidados necessários para se tratar da alma humana. Os temas abordados por ele, tanto os sociais – a eterna luta do homem, pela posse da terra, principalmente – quanto os psicológicos – o amor, o ódio, o júbilo e muitos outros que dizem respeito à natureza humana – fogem a qualquer naturalismo, subtraem as matrizes regionais da prosa de 30, e permitem refulgir a mais complexa e bela trama da imaginação e da sensibilidade, como acentua Antônio Cândido7. Em “À Busca da Poesia”, Pedro Xisto analisa meticulosamente os recursos estilísticos utilizados por Guimarães que evidenciam mais proximamente a proposta do escritor. São inúmeros os poemas que ele consegue desentranhar, de variados metros, de variadas formas. Escolhemos este:
Passarim, todo tempo todo o tempo; Se
ri nas bochechas do vento; E
minha alma está bem guardada; Vento de todas as asas...9 Para a realização dessa proposta de uma “ficção poética”, Rosa transformou o protagonista, Riobaldo, em narrador-autor que submeterá o narratário, espelho ficcional do próprio Rosa, ao seu discurso “uno”. Rosa, na mesma entrevista ao crítico alemão Günter Lorenz, teoriza: “A personalidade, é preciso encarcerá-la no momento de escrever (...) O escritor deve se sentir à vontade no incompreensível, deve se ocupar do infinito, não se pode tratar o infinito com intimidade”. 10 Encarcerada, então, a personalidade do autor, na figura do narratário, o protagonista, Riobaldo, será, ficcionalmente, o criador por excelência de uma complexidade semântica e sintática que permitirá instaurar-se o estado lírico, ou anímico, através do espaço da recordação. “ ‘Recordar’ deve ser o termo para a falta de distância entre sujeito e objeto, para um-no-outro lírico”11, afirma Steiger. O
tom dramático de Rosa se dará durante todo o relato do narrador-autor,
porque o “mal” estará sempre à espreita, ameaçando invadir o logos
narrativo a qualquer instante. Enquanto o drama se faz, em Euclides, através
da tensão promovida pelos primeiros capítulos, em Rosa, essa tensão é
constante pela presença do “demônio na rua, no meio do
redemoinho...”, e de um misterioso pacto que a narrativa não elucidará
se houve realmente, mantendo suspensa a obra, ao contrário da tentativa
euclideana de explicar logicamente e à exaustão, os fatos. Antônio Cândido é taxativo ao afirmar que os únicos pontos comuns às duas obras são a obsessiva presença física do meio numa sociedade cuja pauta e destino dependem dele e que tem como resultado o conflito entre os homens: “(...) a analogia pára aí, não só porque a atitude euclideana é constatar para explicar, e a de Guimarães Rosa inventar para sugerir, como porque a marcha de Euclides é lógica e sucessiva, enquanto a dele é uma trança constante dos três elementos”12. São muitas as variáveis de tais afirmativas, e Antônio Cândido se refere, especificamente, ao "como" se estrutura a narrativa na sua abordagem temática. As possibilidades de comparação entre essas obras, na verdade, são inumeráveis. Tanto em Guimarães como em Euclides, por exemplo, a paisagem que se revela dolorosa para o homem do sertão, será a mesma que o resguarda dos inimigos, uma ambigüidade comum, como tantas outras, tratadas com recursos da arte poética abundantemente utilizada por ambos. Se vislumbrarmos, especialmente, a descrição da paisagem, teremos verdadeiros quadros com requintes de tonalidades de fazer inveja a qualquer artista plástico, principalmente se considerarmos a musicalidade que só a arte literária consegue somar ao quadro artístico das letras. Parece-nos que essa identificação horizontal, entre as duas obras, com a poesia, ou “ficção poética”, como queria Rosa, está muito longe de se esgotar desses copiosos volumes da nossa mais alta Literatura. Essa vitalidade, em um esboço abrangente, pode ser decorrente de uma estética “singular”, entendida aqui em suas especificidades de caráter inédito, e simultaneamente “plural”: amálgama de estilos e gêneros, nascente de um tendência que vem se verticalizando na arte literária contemporânea, mas aliado a uma obsessão pelo trabalho da palavra que talvez justifiquem, à priori, a recepção que tiveram e têm até hoje. Somando-se a isso, obviamente, a genialidade dos autores, alicerce indispensável à construção desses monumentos da literatura nacional.
Cláudia Cordeiro é Professora de Literatura Brasileira
1 Massaud Moisés. Euclides e a arte do ensaio. Revista Brasileira, Rio de Janeiro, Fase VII, n. 30, p. 30 - 37, janeiro-fevereiro-março, 2002, p. 31. 2 Idem, ibidem, p. 37. 3 Euclides da Cunha. Os Sertões. (Campanha de Canudos), 22. ed., Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1952, p. 113. 4 Massaud Moisés. A criação literária. Prosa. São Paulo, Cultrix, 1978, p. 226. 5 Euclides da Cunha, op. cit., p. XXII. 6 Guilherme de Almeida. A poesia de Os Sertões. Revista Brasileira, Rio de Janeiro, Fase VII, n. 30, p. 205-215, janeiro-fevereiro-março, 2002. 7
Antonio Cândido. O Homem dos Avessos. In: COUTINHO, Eduardo F. (Org.). Guimarães
Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, p. 294-309.
(Fortuna Crítica). 8 Günter Lorenz. Diálogo com Guimarães Rosa. In: COUTINHO, Eduardo F. (Org.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, p. 62-97. (Fortuna Crítica), p. 70. 9 Pedro Xisto. À Busca da Poesia. In: COUTINHO, Eduardo F. (Org.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, p. 62-97. (Fortuna Crítica). 10 Günter Lorenz, op. cit. , p. 74. 11 Emil Staiger. Conceitos Fundamentais da Poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975, p. 60. 12 Antônio Cândido, op. cit. , p. 295. |