A SOBREVIVÊNCIA-MANGUE-RECIFE
 
Poema II


Cyl Gallindo


Aí vão minhas palavras a bordo duma ratoeira.
Quero soltá-las, dizê-las. Mas quem as ouve? Não sei!
Mergulhá-las no profundo, não é destino para um rio.
Transformá-las em gesto alado, quem dera?
Pois o ar está prensado, guilhotinado na poeira.

 
Se dizes: “--O barco é livre, do remo a força é própria,
no pescador não se interfere, pode andar na superfície!”.
Eis aí minhas palavras: abruptas, soltas de si.
Quero juntá-las, dize-las, sem receio dos caninos:
fazem tudo para retê-las, armados nos incisivos.
 
Devo, então, plantar uma árvore, no quintal da minha casa
que se chame Liberdade. Os seus frutos são palavras,
nascidas de um novo dia.  Amadurecerão tranqüilos:
como estrume terão sabres e algemas desoladas
e nas folhas a clorofila do calor dos meus vizinhos.
 

Conquistou prêmio nacional de poesia - Friburgo /RJ.
Vertido para o francês pela Prof. da UFPE Nilda Pessoa.
Publicado  em  Caliandra - Poesia de Brasília - André Quicé Editor/1995
E na revista “POESIA para Todos” – Rio de Janeiro/2000.

 

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