Bruxelas

 

                   A Esman Dias

 

 

Escurecia e o dia era tão frio

que cada rua era um desvão sombrio

e nossos passos pelo calçamento

num compasso de mudo desalento

soavam como fuga para o Eterno

ante o cerco sem fim daquele inverno.

As pessoas envoltas em seus mantos

passavam numa profusão de espantos

perdendo-se, de vez, por trás dos muros

em busca de lugares mais seguros

e o céu baixava com indiferença

a nublada carranca. A noite imensa

sem coorte de estrelas e sem lua

caía bruscamente sobre a rua.

E eu seguia sem rumo e sem saída

na noite que inundava minha vida.

 

Sob os arcos de um velho monumento

gemia um vagabundo sonolento

e o vento uivando para todo lado

passava como um lobo esfomeado.

Naquela noite minha solidão

se arrastava ao meu lado como um cão

que embora exposto à dor e ao abandono

se recusava a abandonar o dono.

E eu, desterrado e, ali, vagando a esmo,

carregando esse espectro de mim mesmo,

caminhava sob a garoa fria

que doía nos ossos e feria

com as pontas dos dedos o meu rosto

aumentando-me a chaga do desgosto

numa Bruxelas para sempre hostil,

a centenas de léguas do Brasil.

 

 

                     

 

 

Há um momento em que, longe de casa,

o homem pensa em tudo que lhe abrasa

o coração, repensa toda a vida

e vê como cresceu sua ferida,

como tudo fugiu e quase nada

lhe resta do que amealhou na estrada,

vê como até o amor naquela hora

é só lembrança do que foi, outrora,

o verde imaculado da esperança;

é poeira dos passos de uma dança,

que há muito se acabou e no salão

deixou apenas ecos da canção.

Percebe, então, que em cima de tudo isso

a noite tomba no auge do seu viço

lançando um gosto amargo de derrota

nessa vida que aos poucos se desbota.

Mas não pode fugir: o tempo é escasso

( a morte nos espreita a cada passo)

e essa mesma Bruxelas que  o assedia

é toda sua vida fugidia,

tudo que ele viveu ou não viveu

e para sempre, agora, se perdeu.

Vê que a dor é sem fim e que no mundo

nos envolve segundo por segundo.

Mesmo assim ele arrosta a chuva fria

de uma cidade estúpida e sombria

desemborca seu barco, enfuna as velas

e se perde na noite de Bruxelas.

 

 

             Domingos Alexandre

 

 

Arte e Editoração: Cláudia Cordeiro Reis

Poema inédito

Plataforma para a Poesia

Sítio Virtual Pernambucano da Poesia Contemporânea em Língua Portuguesa

 

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