DOIS POETAS EM TORNO DA AUSÊNCIA[1]

                   

      

por Elizabeth Dias Martins[2]

 

      

 

 

 

 

 

 

A presente análise diz respeito a dois temas, ausência e memória, nos poemas “Memória” e “A um ausente” de Carlos Drummond de Andrade, e “Ars Superandi” e “Os Ausentes” de Roberto Pontes.

O método seguido é o comparativo, que permite estabelecer um contraste direto entre o poetar dos dois autores, donde é possível chegar a conclusões significativas acerca dos temas e procedimentos que servem a esta abordagem.

A relação entre os dois conceitos é simples; basta recorrermos a algumas acepções da palavra ausência, tais como afastamento, carência, falta, distanciamento, termo que também pode significar lapso de memória, esquecimento. A ausência refere-se, portanto, ao afastamento espacial de coisas e pessoas, gerando falta e carência nos que se distanciam concomitantemente de fatos e de momentos da vida que passam no espaço e no tempo, os quais só podem se fazer presentes pela memória.

O poema “Memória”, de Drummond, consta de Claro Enigma (1951). Sobre esta obra, Affonso Romano de Sant’Anna escreveu: “a partir dele o poeta aprende a amar tudo aquilo que perdeu ou vai perdendo no atrito com o tempo”; acrescenta ainda que nos poemas de Claro enigma há uma “sensação de perda e lembrança insistente das pessoas e coisas que ficaram para trás no espaço (província) e no tempo (morte)”[3].

Neste livro é muito acentuada a temática da morte, pois o poeta começa a perder parentes e os poetas amigos de sua geração. A memória passa a ser uma forma de tornar próximas as coisas já bem distantes no tempo. Assim, o poeta estaria mais distante do “enigma” da morte, que neste passo de sua vida se fazia tão presente e tão real, privando-o da companhia de pessoas do seu convívio.

Em artigo acerca do discurso memorialista de Drummond, Silviano Santiago constata: “a escrita autobiográfica e memorialista percorre todos os livros do autor” e o tom dessa escrita leva o leitor “a perceber por detrás de antigos poemas memorizados o peso da experiência vivida que lhes serviu de alicerce”. Porém, a certa altura o adulto sai de cena, cedendo lugar ao “menino antigo”; nesse ponto “O passado não existe enquanto tal; ele não se dissocia do presente e do futuro – tudo transcorre num eterno presente cujo epicentro não é a contemporaneidade, mas o próprio passado (...) Para o escravo da infância não há futuro,  há só passado”[4]. É exatamente como acentua Ecléa Bosi ao tratar das lembranças de velhos em seu livro Memória e Sociedade:

 

Ao lembrar o passado ele [o idoso] não está descansando, por um instante, das lides cotidianas, não está entregando-se fugitivamente às delícias do sonho: ele está-se ocupando consciente e atentamente do próprio passado, da substância mesma da sua vida.[5]

 

“Ars Superandi”, de Roberto Pontes, é poema ainda inédito em livro, mas já nasce integrado a um conjunto que também tem por base a memória. Em Memória Corporal[6] este poeta procura deixar apreendido o instante, o momento transcorrido, mas pelo registro lingüístico calcado no presente, vemos que o passado não surge como lembrança nem à guisa de saudade, e sim como acontecimentos desdobrados que permanecem. Basta ler três dos “Cinco prelúdios” do livro em apreço, para termos a idéia da fixação do instante vivido sem apelo ao passado:

 

      I                                          II                                                    III

   Voadejando                             Gotagoteja                              Furtacolorindo

a pétala                                   a têmpera de cera.                   a polpa

pejada e só                              Forte âmbar                            pingo morno

repousa levitando                     vem do colo corroído.  afoga o ventre

no círculo do sonho.                                                               no betume.

 

 

Em Verbo Encarnado[7] a memória também desempenha papel preponderante. Desta feita, porém, com o intuito de superar a memória dolorosa de fatos políticos devidamente registrados em notas posteriores. Os poemas, por sua  vez, não trazem a nostalgia do passado e sim procuram registrar a presença dos seres e fatos evocados como em “Lembrança de Neruda”:

 

                        O búzio dorme na madeira enxuta

                        e dentro dele, represado, o mar.

                        E as uvas pétreas

                        que jamais se douram

                        junto ao símbolo marinho

                        trazem-me à lembrança os temas de Neruda

                        os versos que cantou

                        e os que ele quis cantar.

 

A memória é usada para prestar uma homenagem, com doçura, bem oposta ao pensamento melancólico.

Feitas essas considerações, vejamos de que modo elas se refletem nos poemas trazidos para comparação. Em  Carlos Drummond a memória é evocada desde o título, sendo  ela a responsável pela confusão que acomete o coração do poeta, visceralmente preso ao passado, “o perdido”, que surge nostalgicamente:

 

                                   Amar o perdido

                                   deixa confundido

                                   este coração.

 

O eu-poético admite não ter o esquecimento forças diante do apelo do não-lembrar, que se torna sem sentido no confronto com o desejo de trazer à tona o passado:

 

                                   Nada pode o olvido

                                   contra o sem sentido

                                   apelo do Não.

 

O poeta dá-nos a entender que as coisas reais, ou seja, as situadas no presente, não são perceptíveis às pessoas mergulhadas no passado. As coisas reais são para ele as idéias, os espectros do pretérito, e assim se aproxima das teorias neo-platônicas (a idéia é o real; o real-objetivo é apenas imagem) – se com estas não se identifica de todo:

 

                                   As coisas tangíveis

                                   tornam-se insensíveis

                                   à palma da mão.

 

 O poema se conclui com uma confissão de apego memorialístico às coisas passadas

                                   Mas as coisas findas,

                                   muito mais que lindas,

                                   essas ficarão.

 

Os versos de Drummond celebram o passado, a memória nostálgica, melancólica e estaticizante, uma espécie de retorno.

O poema de Roberto Pontes traz a última estrofe de “Memória”, de Drummond como epígrafe, apresentando a tese (as coisas findas são belas e as únicas que permanecem), logo questionada nos dois tercetos, após ter sido apresentada a antítese nos dois quartetos, sendo o verso final a conclusão do jogo dialético (Hegel). Mas, qual a antítese suscitada pelo poeta?

A partir do título o autor já declara sua intenção, qual seja a “arte de superar” o apego ao passado.

A idéia básica do poema é o carpe diem de feição horaciana, que sugere  colher o instante, aproveitar o momento. Para Roberto Pontes o passado não deve ser esquecido ou apagado:

                                   Não sendo lindas

                                   As coisas findas

                                   Devem ficar

                                   Soltas no ar .

 

Porém “as coisas findas” não devem suplantar o presente, segundo os versos de Roberto Pontes. Devem oferecer a perspectiva de viver o presente voltado para o futuro. As coisas do passado não são bem-vindas quando evocadas com nostalgia ou melancolia. Elas são comparáveis a restos, resíduos existenciais, que devem ser diluídos ou dissolvidos por ato existencial equivalente à alegria:

 

                                   Não são bem-vindas

                                   São como aindas

                                   A dissipar

                                   Em qualquer bar.

 

Essa estrofe sugere que ao primeiro gole já se dá o esquecimento do que é morto.

O poema não encerra a perspectiva hedonística (desfrute do prazer refinado), nem a de viver tudo num instante só (epicurismo). Para o poeta, o momento significa uma duração maior. Portanto, não vê ele razão em viver-se apegado ao passado, ou seja, ao abrigo de ilusões, em vez de fruir a realidade:

 

                                   E se são findas

                                   Quais as razões

                                   De assim trocar

 

                                   Coisas florindas

                                   Por ilusões?

                                   – Deixá-las ‘tar.

 

O poema de Roberto Pontes é celebração do presente, memória evocadora e de registro. Implica dinamicidade, o passado compreendido como elemento construtor do presente e do futuro. Nele “o sujeito se acha situado antes no eixo presente-futuro que no eixo passado-presente”[8].

No plano da linguagem a ars superandi também ocorre: Carlos Drummond usa o idioma materno; Roberto Pontes utiliza também o Latim. O léxico de Carlos Drummond é todo dicionarizado; o de Roberto Pontes inclui um neologismo (v.12) e duas re-circulações de feição clássica ( v.6, v.14), a segunda, irônica. 

Quanto à métrica: o verso de Carlos Drummond é de cinco sílabas; o de Roberto Pontes é de quatro, logrando este um ritmo mais leve.

No que respeita ao modo poemático: Carlos Drummond utiliza quatro tercetos (12 versos); Roberto Pontes faz uso do sonetilho (14 versos), modo de mais difícil consecução.

“A um ausente” é poema do livro póstumo, Farewell, concluído por Drummond e deixado “numa pasta de cartolina azul-claro, pouco antes de morrer”[9], o que veio a acontecer em 17 de agosto de 1987.

No posfácio a este livro, Silviano Santiago nos informa que o poema em análise é “possivelmente dedicado ao amigo e companheiro de geração Pedro Nava”[10], que suicidou-se e, portanto, rompeu um trato de amizade, indo embora antes do tempo sem despedir-se dos amigos, ferindo a lei da natureza. O poema é uma acusação, libelo contra a traição da amizade praticada por Pedro Nava através do suicídio. A ausência, no poema de Drummond, é a de quem não retornará mais.

Seu texto tem estrutura bem moderna, com versos heterométricos. Nele o autor emprega o processo anafórico (vs. 1, 2, 5, 6, 16, 21, 22, 25), lança mão basicamente de metáforas (vs.3, 10 e 11), de eufemismos (vs. 4, 23, 25), e circunlóquios, para não falar tão direto de morte e suicídio. Através dessas expressões há uma espécie de escrúpulo do poeta em tratar do ato que patenteia o egoísmo de quem se mata.

Nos versos de Carlos Drummond o poeta dialoga hipoteticamente com aquele a quem dirige o libelo, e inicia dizendo – quem sabe para si mesmo – a razão de ter saudade e de acusar: “Tenho razão de sentir saudade, / Tenho razão de te acusar”. Depois são acrescidas algumas informações para justificar as afirmativas. Alguém rompeu, eliminou bruscamente uma amizade, e o modo como isso foi feito fica bem marcado pela significativa escolha da forma verbal “detonaste”, empregada  numa gradação demonstrativa da gravidade, e dos motivos da acusação – alguém detonou o “pacto” e a “vida geral”. Tal ato pôs fim a um acordo comum de viver tudo “até o limite das folhas caídas na hora de cair”, de explorar novos rumos sem pressa:

 

                        Houve um pacto implícito que rompeste

                        e sem te despedires foste embora.

                        Detonaste o pacto.

                        Detonaste a vida em geral, a comum aquiescência

                        de viver e explorar os rumos de obscuridade

                        sem prazo sem consulta sem provocação

                        até o limite das folhas caídas na hora de cair.

 

Na estrofe seguinte o poeta deixa mais claro o sentido da palavra detonar (Pedro Nava matou-se com um tiro), pois o ato do acusado foi  grave, único e último, “sem continuação”. Diz isso de forma interpelativa, procurando resposta para a ousadia de um “ato em si/ o ato que não ousamos nem sabemos ousar/ porque depois dele não há mais nada”. Adiante, a justificativa da saudade está nas lembranças do dia-a-dia, nos gestos simples e conversas as quais, mesmo “conhecidas e banais”, tinham algo de “certeza e segurança”, contradizendo o ato de pôr fim à vida, vivê-la “sem provocação”. Na estrofe final, o poeta mais uma vez reforça a razão de seu sentimento e a reprovação do ato cometido. Nela fica marcado o contraste entre SIM e NÃO. Ao modo de um veredito, o poeta condena e diz NÃO a todo aquele que age contra as “leis da amizade e da natureza”, e SIM aos que prezam a vida, compartilhando-a com amigos:

 

                        Sim, tenho saudades.

                        Sim, acuso-te porque fizeste

                        o não previsto nas leis da amizade e da natureza

                        nem nos deixaste sequer o direito de indagar

                        porque o fizeste, porque te foste.

 

Cabe ver na estrofe uma alusão implícita ao estreito convívio da turma do Colégio Arnaldo, integrada por Afonso Arinos, Juscelino Kubitschek, Pedro Nava e pelo próprio poeta, entre outros. Relevante é o fato de todos os integrantes da referida turma já haverem desaparecido, com exceção dos dois últimos, quando Nava cometeu o ato fatal. Através de Ecléa Bosi sabemos que o grupo social:

 

é suporte da memória se nos identificamos com ele e fazemos nosso seu passado. (...) O grupo (...) duradouro, constitui, pouco a pouco, uma história e um passado comuns, não raro se definindo por alguma maneira de atuar na sociedade que caracteriza sua geração. (...) As lebranças grupais se apóiam umas às outras formando um sistema que subsiste enquanto puder sobreviver a memória grupal. Se por acaso esquecemos, não basta que os outros testemunhem o que vivemos. É preciso mais: é preciso estar sempre confrontando, comunicando e recebendo impressões para que nossas lembranças ganhem consistência.[11]

 

A ruptura dos laços de amizade consolidados pela memória fazem Drummond assumir o tom retórico e acusativo da última estrofe, quando recorre ao emprego do Sim por duas vezes, significativamente escritos com maiúsculas. Na mesma estrofe, o inconformismo e o espanto deixam vir à tona a perplexidade do poeta para com o amigo que não se valeu da amizade para abrir-se.

“Os ausentes”, do livro Verbo Encarnado, foi escrito em 1969 e vai dedicado pelo poeta ao colega do Liceu do Ceará, votado frade da Ordem dos Dominicanos, Tito de Alencar Lima. O poema foi vertido para o francês pelos monges do convento de La Tourette, L’Arbresle, Lyon, França, e “circulou como abertura do chamado Dossiê Tito, por iniciativa dos dominicanos franceses”[12]. O livro se abre com a versão francesa do poema. Nele também há a  consagração de uma “inabalável amizade” cuja origem é a mesma da de Drummond e Nava. Aqui, entretanto, a ausência é a de alguém distante, mas não desaparecido para sempre (no momento em que foi escrito Frei Tito ainda vivia).

Texto de estrutura anafórica e paralelística. As estrofes começam da mesma forma, havendo apenas uma pequena variação na última delas. Os versos, a exemplo dos de Carlos Drummond, são heterométricos, e também não há modo poemático definido. Além desses elementos, caracteristicamente modernos, deve-se ressaltar ainda a utilização do “processo de condensação da linguagem”, como no caso da elisão do de e do por ou às no 2º e 3º versos da primeira estrofe, respectivamente. Este processo, segundo Silviano Santiago, é o aprendizado da lição do poeta e crítico Ezra Pound[13], assimilada por seus pósteros, aquela que no poema caracteriza também experimentação lingüística, se somarmos o recurso da elisão ao uso neologizante do “recheias” como adjetivo. A linguagem é comedida quanto a ornatos. Dentre os poucos que nela há, temos: enumerações com assíndetos (vs.2, 4 e 17); conceitualizações (uso de 5 verbos que exprimem estado ou modo – necessitar, ser, ter, jamais fugir, ficar); uma única metáfora (vs. 8 e 9); uma comparação (vs. 15 e 16); na formulação sintática, duas proposições que implicam causa e conseqüência (vs. 5 a 7 e 8 a 11);  uma antífrase (v. 6); e um oxímoro (v. 13).

O texto de “Os ausentes”, conforme a escritora e professora Angela Gutiérrez, é peça de “delicadeza, quase diafaneidade”[14]. O poeta o inicia dirigindo-se a um TU geral, assumindo uma atitude de solidariedade e carinho típica de quem pensa a carência humana. O poema nos fala da presença constante dos distanciados espacialmente. Assim estando, necessitam da prova concreta dessa lembrança, manifesta não só por saudade, falta, e por muito mais; solidariedade, pena, realização comum de tarefas, importância da pessoa distante. Neste poema a amizade é celebrada num tom evocativo:

           

            Os ausentes necessitam sempre

                        bilhetes, cartas e coisas

           

                      vezes pequenas lembranças

                      uma gravata, um poema, um postal.

 

                      Os ausentes são tão necessitados

                      que ninguém os lembra

                        nem só por saudade ou falta

 

                        Os ausentes têm mãos invisíveis

                        e figura tão diáfana

                        que os versos para eles

                        já nascem feitos poemas.

 

Quando da leitura desses versos sentimos certo tom de solenidade, porque as palavras selecionadas transmitem respeito pelo outro. Porém o poema é muito mais uma mensagem de alerta em favor dos “exilados”, naturalmente carentes de “pequenas lembranças” que possam fortalecer o ânimo do distanciado de suas raízes culturais, da pátria, do convívio fraterno de amigos e familiares. Oportuna é a observação de Ecléa Bosi quanto à importância dos objetos como alimentadores da memória:

 

Mais que um sentimento estético ou de utilidade, os objetos nos dão um assentimento à nossa posição no mundo, à nossa identidade. Mais que da ordem e da beleza falam à nossa alma em sua doce língua natal.[15]

 

Com este poema o autor chama nossa atenção para a presença constante daqueles que se ausentam e se são queridos, “jamais fogem ao nosso convívio/ ainda que a distância seja tanta”, pois deles “fica sempre um sorriso/ como as pinturas recheias/ de surpresa, reencontro, irreal”. Há mesmo um sentimento de falta recíproca, tanto é que qualquer coisa se converte em sinal de existência, inclusive o próprio poema. Para concluir, queremos ressaltar que o poema de Carlos Drummond é uma espécie de desdobramento do de Roberto Pontes e ao mesmo tempo poderia ser a continuação do sentimento do poeta de Verbo Encarnado, posto que algum tempo depois Frei Tito se desfez da vida, abandonando-a aos galhos de uma árvore, num bosque da distante Lion francesa.

 

Referências Bibliográficas

 

ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988.

–––––––. Farewell. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembrança de velhos. São Paulo: T.A. Queiroz / EDUSP, 1987.

GUTIÉRREZ, Angela. O Verbo Encarnado em Roberto Pontes. Fortaleza: mim., 1996.

PONTES, Roberto. Memória Corporal. Rio de Janeiro: Antares, 1982.

–––––––. Verbo Encarnado. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996.

SANT’ANNA, Affonso Romano. Drummond: o gauche no tempo. Rio de Janeiro: Lia Editor, 1972.

SANTIAGO, Silviano. “Discurso memorialista de Drummond faz síntese entre confissão e ficção”. In: Folha de São Paulo. Letras. 7 de abril, 1990.

–––––––. “Posfácio”. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Farewell. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 105-129.

WERNECK, Humberto. “Prefácio”. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Farewell. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 7-12.

 


 

Anexo

 

Memória

 

Amar o perdido

deixa confundido

este coração.

 

Nada pode o olvido

5         contra o sem sentido

apelo do não

 

As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis

à palma da mão.

 

10      Mas as coisas findas

muito mais que lindas,

essas ficarão.

 

Carlos Drummond

 

 

 

 

 

 

A um ausente

 

Tenho razão de sentir saudade,

tenho razão de te acusar.

Houve um pacto implícito que rompeste

e sem te despedires foste embora.

5          Detonaste o pacto.

 

Detonaste a vida em geral, a comum aquiescência

de viver e explorar os rumos de obscuridade

sem prazo sem consulta sem provocação

até o limite das folhas caídas na hora de cair.

 

10      Antecipaste a hora.

Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas

           [horas.

Que poderias ter feito de mais grave

do que o ato sem continuação, o ato em si,

o ato que não ousamos nem sabemos ousar

15        porque depois dele não há nada?

 

Tenho razão para sentir saudade de ti,

de nossa convivência em falas camaradas,

simples apertar de mãos, nem isso, voz

modulando sílabas conhecidas e banais

20        que eram sempre certeza e segurança.

 

Sim, tenho saudades.

Sim, acuso-te porque fizeste

o não previsto nas leis da amizade e da natureza

nem nos deixaste sequer o direito de indagar

25        porque o fizeste, porque te foste.

 

Carlos Drummond

 

 

 

 

 

Ars Superandi

 

                               Mas as coisas findas

                               muito  mais que lindas

                               essas ficarão.

                                               C.D.A.

Não sendo lindas

As coisas findas

Devem ficar

Soltas no ar.

 

5                     Não asão bem-vindas.

São como aindas

A dissipar

Em qualquer bar.

 

E se são findas

10                  Quais as razões

De assim trocar

 

Coisas florindas

Por ilusões?

– Deixá-las ‘tar.

               

                Roberto Pontes

 

Os ausentes

                Ao Frei Tito

 

Os ausentes necessitam sempre

bilhetes, cartas e coisas

vezes pequenas lembranças

uma gravata, um poema, um postal.

 

5                     Os ausentes são tão necessitados

que ninguém os lembra

nem só por saudade ou falta

 

Os ausentes têm mãos invisíveis

e figura tão diáfana

10                  que os versos para eles

já nascem feitos poemas.

 

Os ausentes por qualquer acaso

jamais  fogem ao nosso convívio

ainda que a distância seja tanta.

 

15                  Dos ausentes fica sempre um sorriso

como  as pinturas recheias

de surpresa, reencontro, irreal.

 

                               Roberto Pontes

 

 

 

 

 



[1] A análise comparativa entre os poemas estudados decorreu de sugestão feita pelos alunos da Oficina de Interpretação Literária do Departamento Nacional do Livro/Fundação Biblioteca Nacional, 2º semestre de 1996. Ensaio originalmente publicado na Revista das Comunidades de Língua Portuguesa, nº 13/1999. São Paulo.

[2] Crítica e ensaísta. Doutora em Literatura pela PUC-Rio. Professora Adjunta do Departamento de Literatura do Curso de Letras da UFC.

[3] Santa’Anna, Afonso Romano. Drummond: o gauche no tempo. Rio de Janeiro: Lia Editor, 1972. p.185

[4] SANTIAGO, Silviano . “Discurso memorialista de Drummond faz síntese entre confissão e ficção”. In: Folha de São Paulo. Letras. 7 de abril, 1990.

[5] BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembrança de velhos. São Paulo: T.A. Queiroz / EDUSP, 1987. p. 23.

[6] PONTES, Roberto. Memória Corporal. Rio de Janeiro: Antares, 1982.

[7] PONTES, Roberto. Verbo Encarnado. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996.

[8] BOSI, Ecléa. Op. cit. 1987. p. 29.

[9] WERNECK, Humberto. “Prefácio”. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Farewell. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 8.

[10] SANTIAGO, Silviano. “Posfácio”. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Farewell. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1996. p.122.

 

[11] BOSI, Ecléa. Op. cit. 1987. p. 336.

[12] PONTES, Roberto. Op. cit. 1996 p.103-104. Notas Posteriores.

[13] SANTIAGO, Silviano. Op. cit. 1996. p. 108.

[14] GUTIÉRREZ, Angela. O Verbo Encarnado em Roberto Pontes. Fortaleza: mim., 1996.

[15] BOSI, Ecléa. Op. cit. 1987. p. 360.

 

 

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