Aluvião
 
 
 

Para Irma Chaves

 

Com as mesmas vinte palavras

girando ao redor do sol

que as limpa do que não é faca:

                          (João Cabral de Melo Neto)

 

Parlo in rime aspre, et di dolcezza ignudo

                                               (Petrarca)

 

Falo do que não falo quando falo:

falo do meu silêncio,

bem mais claro

que as vozes incessantes dos que falam.

 

Falo do que não falo: do que sou:

bicho da terra, surdo e mau cantor.

 

Falo do que não falo: tão pequeno

a destilar à noite o seu veneno.

 

Falo, não para o mundo dos sentidos:

falo somente para o inteligível.

 

Falo do que percebo: coisas claras

aéreas superfícies, copos d’água.

 

Falo na muda fala da batuta,

clara e precisa, do maestro à música.

 

Falo da pedra dura, da aspereza

de pedra sobre a pedra desta mesa.

 

Falo de mim em tudo de que falo.

Falo dos meus espelhos quando calo.

 

Falo como quem vai a julgamento

sem esperar o indulto de seu tempo.

 

Falo com a voz alheia que me toca.

Falo e regresso –ileso– à minha toca.

 

 

Esman Dias

 

 

 
 
 
                                                   
 
 
Tudo Vale a Pena se a Poesia nos Envenena!
 
 
 
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