Graças

 

 

I

Por esta areia,

pelo rumor da chuva

e o silêncio sem nódoa

 

Pela faina dos meus

e, à noite, a casa,

hoje deserta,

mas que se foi em mim reduplicando.

 

Pelo fumo distante da planície

e o horizonte ¾ mais vasto que a planície

 

Pelo rumor da chuva que se espalha,

a palavra contida e não dispersa,

o vinho turvo, o orgulho, a soberana

ironia

A espada enferrujada e o seu desuso,

eu te agradeço beleza e desperdício

 

e me perdôo a mim e à minha sombra

ferindo a claridade do teu dia

vão ganido de luz, fósforo no escuro,

o riso sem razão, a madrugada

e a solidão na jaula dos sentidos.

 

II

(A palavra estrangeira e o seu murmúrio,

essa fuligem de chaminés distantes.)

 

III

Eu me perdôo agora

pelo momento raro em que fui livre

e não me vi em mim. Vi-me em teu rosto.

 

E te perdôo, Senhor, o sopro aos quatro ventos.

E te agradeço a tarde, a praia, o mar, os búzios,

todo o esplendor que me ofertaste um dia

e a areia movediça em que me morro.

 

E o nada que perdi na maresia,

o nada do meu nome inominado,

o nada que retive para mim,

o nada

que ora ofereço em sacrifício ao nada

que te deixo ao partir, se me abençoas.

Perdôo-te, Senhor ¾  se a mim perdoas.

Esman Dias

 

  

 

 
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