Um jogo de cartas marcadas

                            Maria  Esther Torinho

 

        

Breve análise do jogo de forças entre Eros e Thanatos no confronto com a alteridade da personagem Luís da Silva, em seu transtorno obsessivo-compulsivo, à luz dos conceitos psicanalíticos de- mecanismos de defesa do ego.

Luís da Silva é a personagem principal do romance Angústia, de Graciliano Ramos, publicado em 1936.
Trata-se de uma narração em primeira pessoa, em que a personagem principal, saindo de um mergulho na sombra, com febre e alucinações, após ter cometido um assassinato, passa a revelar, em tom confessional e através de um monólogo interior, os fatos que a levaram ao crime e à situação crítica em que se encontra.

A realidade é enfocada de forma embaralhada: Luís da Silva percebe “tudo empastado e confuso”, sinal de um desarranjo interior que se revela em várias situações e de variadas formas, inclusive e, principalmente, na dúvida sobre fatos e atos banais.
Temos uma personagem praticamente no limiar entre a sanidade e a loucura, que perde o senso da realidade: está praticamente correndo para a repartição, mas sente a sensação de imobilidade e estabelece um paralelo entre a própria imobilidade percebida e a imobilidade real do pai, durante o velório, o que nos fornece indícios, desde o início da narrativa, da grande força de Thanatos, impulsionando o ego em direção à autodestruição.

Entrincheirado em um mundo cheio de conflitos, Luís da Silva caracteriza-se por uma grande contradição, que se revela mesmo em fatos aparentemente sem muita importância, por um progressivo alheamento da realidade – vai ao cinema, mas não presta atenção ao filme, perdendo-se em um mundo interior confuso, desordenado, um grande pessimismo, baixa auto-estima, uma sensação de extrema inutilidade da vida e de todas as coisas (“não vale a pena. Tempo perdido”.), um forte sentimento de inferioridade (“eu sou um infeliz, não tenho onde cair morto”), que tem suas raízes na infância/adolescência/juventude recheada de dificuldades após a perda do pai e dos bens da família e que vai ganhando espaço em uma personalidade fraca, incapaz de reagir de forma realista e objetiva às dificuldades que se apresentam, haja vista que, em determinado momento, estando já cheio de dívidas, deixa-se arrastar ainda mais pelo endividamento, comprando presentes caros para a noiva e continuando a gastar em bebidas o pouco dinheiro que tem.

O sentimento de inferioridade, que se exterioriza no andar curvado, leva-o a desprezar a opinião pública e a odiar aqueles que, diferentemente dele próprio, detenham algum poder, algum status, uma situação econômica privilegiada em relação à sua. Sente-se desprezado por sujeitos ‘remediados” e acha que isso esse desprezo deve-se ao fato de ser ele um “pobre diabo”, o que o torna ainda mais revoltado.
Dinheiro e propriedades, duas coisas que ele tanto gostaria de possuir, causam-lhe sempre desejos violentos de mortandade e destruição; ao mesmo tempo, em sua cabeça, em que tudo se move de forma desordenada, ele percebe algumas pessoas como um bando de vermes que em seguida confunde com a “cara balofa” de Julião Tavares.

O desprezo pelos outros é tal que, em péssima situação financeira e moral, não deseja ver ou cumprimentar as outras pessoas na rua “seguirá seu caminho com dignidade curva, o espírito distante”. Esse desprezo, esse ódio cristaliza-se e toma vulto na figura de Julião Tavares, que ele passa a detestar desde o primeiro momento, alimentando pelo “amigo” uma raiva surda, um ódio gratuito, que vai crescendo e chega ao auge quando ele encontra o outro de conversa com Marina, com quem pretende casar-se.

Luís da Silva sente-se oprimido pelo ambiente da casa, vive mergulhado em um mundo de sons e ruídos externos. Exacerbam-se os sentidos e, incapaz de segurar as rédeas de seu mundo interno, ouve e interpreta os sons das casas alheias, imaginando com grandes detalhes as situações que estariam sendo vividas pelos vizinhos, ao mesmo tempo em que se desespera, cria fantasias e tece comentários a respeito de alguns animais que de uma forma ou de outra convivem com ele, na vida real ou através de lembranças, nesse mundo de sombras e tormentas – galos, grilos, cavalos, cobras e, principalmente, ratos, a maior parte dos quais são símbolos da desestruturação e do conflito.
Dentre esses animais, apenas os grilos não o incomodam. Os galos, que “marcam o tempo”, importunam mais que os relógios. Ora, os relógios marcam um tempo objetivo, o de cumprir obrigações rotineiras, enquanto os galos, que cantam de madrugada, despertando-o de uma noite mal dormida, cheia de sombras e fantasmas, mantêm estreita ligação com um tempo psicológico povoado de conflitos, por isso incomodam tanto.

Os ratos que o atormentam são símbolos da desintegração moral que ele projeta nos outros. Esses pequenos animais que devoram a madeira das estantes, que destroem sua biblioteca, segundo ele próprio, parecem roer alguma coisa dentro dele mesmo. Os ratos que lhe roubam comida e a madeira dos móveis representam as pessoas de seu convívio, que lhe roubam o prestígio que seria seu por direito, a pretendida felicidade, até mesmo a identidade. Marina, por exemplo, ao trocá-lo por Julião Tavares, é caracterizada como uma ratuína.
Os cavalos também estão inseridos dentro da simbologia da obra: poderiam representar a força, a potência, mas para ele fazem parte de uma lembrança vaga, de origem desconhecida, relacionada a força dominada – cavalos podem ser laçados com corda, como ele se julga laçado, acorrentado, o que nos dá a clara indicação de uma potência do ego em baixa.

As cobras – animais rastejantes – também funcionam como símbolos da degradação progressiva, de seus impulsos de morte: cobras rastejam, como ele já rastejou pedindo emprego aqui e ali, como ele rasteja ainda, na repartição, mas é nos ratos que essa degradação ganha força; são os ratos que aparecem com mais freqüência, citados, rejeitados, odiados mesmo, como seres mais inferiores do que na realidade o são, assim como são, a seu ver, inferiores, as diversas pessoas a quem ele despreza e/ou odeia.

Passemos agora a examinar o jogo de forças entre Eros e Thanatos, a atuação dos mecanismos de defesa do ego que estão subjacentes à personagem Luís da Silva e quais os caminhos pelos quais ele chega ao crime e à autodestruição.

Eros e Thanatos têm sua origem na Mitologia Grega, na qual Eros é o filho de Afrodite ou, para os mais antigos, um dos deuses primeiros, que teria surgido ao mesmo tempo em que a terra; é o Deus do Amor, enquanto Thanatos, irmão de Hipno, o sono, filho de Nix, a Noite e de Caos e das Trevas, é o terrível carrasco dos deuses, sendo representado como um jovem alado portando uma tocha apontada para o chão, sendo a divindade que marca o término da existência humana.
Sigmund Freud, em Além do Princípio do Prazer, desenvolveu as idéias de Eros e Thanatos, as pulsões de vida e de morte, identificando a existência, dentro de cada um de nós, de um antagonismo, um jogo constante entre as forças de Eros – a pulsão de vida e as de Thanatos – a pulsão de morte. Trata-se de forças simultaneamente complementares e complementares: enquanto as forças da vida estimulam o crescimento e a realização, as forças da morte alimentam instintos destrutivos e atitudes de auto-sabotagem e de autodestruição.
Quanto aos conceitos de defesa e de mecanismos de defesa do Ego, foram também formulados por Sigmund Freud. “Defesa” constitui-se no conjunto de operações efetuadas pelo Ego perante os perigos que procedem do Id, do Superego e da realidade exterior e que se resumem em: perda do amor, perda do objeto desejado, perda da auto-estima, perda da identidade. Sentindo-se ameaçado, o ego reage através de condutas defensivas que intervêm para o equilíbrio da situação de conflito. Essas condutas constituem justamente os mecanismos de defesa, dentre os quais o indivíduo inconscientemente seleciona alguns, de acordo com a situação que se apresenta e com seu grau de neuroticidade, a fim de lidar contra os perigos reais ou imaginários.

A função dos mecanismos de defesa é evitar o desgaste gerado pela tensão em situações de frustração e conflito e sua utilização pode ser benéfica, favorecendo a auto-estima e evitando o "stress" psíquico, entretanto, a utilização intensiva e prolongada de mecanismos de defesa pode ser prejudicial à pessoa, afastando o indivíduo da realidade e impedindo-o de chegar à solução do conflito. Notemos ainda que alguns mecanismos de defesa podem ser considerados mais saudáveis que outros e que sua utilização, mesmo que não traga a solução do conflito, pode, ainda assim, ser benéfica ao indivíduo e à sociedade - como é o caso da sublimação - enquanto outros mecanismos de defesa acabam por gerar mais tensão, mais stress, mais ansiedade.

Na personalidade extremamente desajustada de Luís da Silva, alguns mecanismos de defesa são necessários para fazer frente à perda da auto-estima, à ameaça de perda total da identidade: a regressão, o deslocamento, a formação reativa, a projeção, a racionalização.
Extremamente insatisfeito com sua situação social e financeira, insatisfeito consigo mesmo, angustiado, em certos momentos recorre às lembranças da infância como uma fuga momentânea para os acontecimentos que o atormentam no presente, embora no passado também tivesse tido momentos difíceis; alterna a narrativa do passado recente e dos acontecimentos que o levaram ao assassinato com as lembranças do passado remoto, em um fluxo de consciência que faz o perfeito retrato de uma personalidade fragmentada.
Através da figura da datilógrafa podemos perceber o deslocamento, outro mecanismo de defesa de um ego extremamente frágil: a personagem vislumbra nessa moça que mal conhece uma possibilidade de resolver-se afetivamente, ao mesmo tempo em que, contraditoriamente, também transfere para ela os defeitos de caráter que vê em Marina, achando que ela seria bem capaz de trocá-lo por outro, como a noiva o fez.

Mesmo antes da traição de Marina, o seu afeto e o seu desejo por ela já aparece misturado com um forte sadismo: (“Veio-me o pensamento maluco de que tinham dividido Marina. Serrada viva), pensamento sádico com o qual ele consegue ter satisfação.
Na verdade, nesse sadismo está patente mais uma contradição da personagem, mais um mecanismo de defesa do ego, a formação reativa que o faz negar o desejo de tê-la como mulher. Ao mesmo tempo em que a deseja, despreza-a também, demonstrando uma inversão do verdadeiro desejo. Aliás, esse desprezo por Marina é demonstrado de diversas formas: quando a vê pela primeira vez, chama-a, de si para consigo mesmo de “lambisgóia”; posteriormente, chama-a de estúpida porque lhe sugere usar um smoking e também porque nos jornais, a moça lê as notícias sociais: casamentos, batizados, aniversários; em outro momento, chama-a de burra devido à admiração da moça por D. Mercedes; acha-a preguiçosa e prevê para ela um final ruim: morar na Rua da Lama (local de prostituição). Entretanto, como a narrativa tem início após o noivado, a traição e o crime, restaria saber até que ponto esse desprezo por Marina já existia antes ou seus sentimentos por ela estariam sendo distorcidos devido à traição.

Quanto a suas reações à traição da moça, serão fruto de amor próprio e orgulho ferido ou o resultado de amor genuíno? Temos aqui o seguinte: de todo o romance com ela sua memória apenas retém os montes de cisco, a água empastando a terra, o cheiro dos monturos, urubus nos galhos da mangueira farejando ratos em decomposição.
O fato de lembrar-se de fatos banais e que pouco ou nada têm a ver com o romance e também com coisas sujas poderia levar-nos à errônea conclusão de que ele não sente qualquer afeto por Marina, mas se ela e o romance são tão insignificantes e/ou asquerosos, por que motivo, mesmo após o crime e a doença, ele ainda gasta duas horas escrevendo o nome da moça para em seguida, a partir de seu nome, escrever outros (ar, mar, rima, arma, ira, amar)? E por que motivo, quando não consegue formar combinações novas, traça rabiscos representando uma espada, uma lira, uma cabeça de mulher?
O fato de escrever justamente estas palavras poderia nos fornecer material para demoradas interpretações, porém não desejando desviar-me do tema principal, ressalto apenas rapidamente o alto significado das palavras- ar, mar, rima, arma, amar, lira, cabeça de mulher, espada, todas elas inseridas no contexto do amor, do ódio, do crime).
Esses dois fatos, juntos, levam a interpretar a associação do romance com os objetos asquerosos como mais um mecanismo de defesa do ego, a negação do afeto: associando a moça e o romance a coisas desagradáveis e sujas torna-se mais fácil aceitar a rejeição.

Embora seja uma pessoa cheia de defeitos, de vícios, aparenta uma excessiva rigidez moral - julga perceber sintomas de decomposição da sociedade em notícias sem importância lidas nos jornais e critica com veemência até mesmo atitudes inocentes das outras pessoas – segundo ele, as mulheres que admiravam as vitrinas mereciam chicote.
É perseguido por uma frase da Bíblia: “Bem-aventurados os que têm sede de justiça”, embora não consiga lembrar-se do restante da mesma.

Também utiliza a racionalização como mecanismo de defesa, ao encontrar erros imperdoáveis em Julião Tavares, erros tão graves, a seu ver, que justificam o ódio e o crime. A traição perpetrada por este e Marina, nada mais é do que uma confirmação de sua má sorte, de sua infelicidade, de quantos as pessoas o odeiam, de quanto lhe fazem mal e serve como ponto de apoio para que a personagem justifique a todo o momento seu ódio e seu desejo de vingança.

Quanto a Julião Tavares, é a encarnação de tudo o que Luís da Silva gostaria de ser e de ter e este inconscientemente projeta naquele toda a degradação que é incapaz de perceber em si mesmo. O outro reflete, como um espelho, os aspectos positivos que ele deseja e os negativos que ele nega em si mesmo.

Ao pressentir os primeiros sinais da traição que virá, ele nada faz de concreto para reconquistar a noiva, para tentar deter a situação. Ao contrário, deixa-se arrastar pelos acontecimentos como uma vítima fatal, incomoda-se quando percebe silêncio na casa da moça, perdendo-se em suposições do que estariam fazendo juntos e imaginando as cenas, passando depois a vigiá-los. Quando não os vê juntos, põe-se a imaginar que se encontrariam daí a pouco, de que estariam juntos em algum lugar, novamente chegando a ponto de visualizar as situações imaginadas por sua mente doentia.
Tudo isso ocorre porque, na verdade, Julião Tavares é o seu “outro”, fornecendo-lhe a confrontação inevitável e insuportável com a alteridade.

Neste momento façamos um parênteses para abordar, ainda que rapidamente, a alteridade e como ela se configura e se resolve no universo do romance.
O conceito de alteridade, formulado por Emanuel Lévinas, uma referência no campo da Bioética, tem como base a constante constatação das diferenças entre eu e outro, consistindo em o indivíduo colocar o outro no lugar do ser, de modo que o outro não se constitua em um objeto para um dado sujeito, mas sim, um outro sujeito.
Isto implica na capacidade de conviver com o diferente, de lhe proporcionar um olhar interior a partir das diferenças, em reconhecer “o outro” como sujeito, com direitos iguais aos nossos, através da constatação e do respeito às diferenças individuais, culturais, sociais, o que resulta em uma convivência harmônica e em cooperação para o bem estar comum. No entanto, uma personalidade intolerante, sendo incapaz de conviver, afronta a Ética, desrespeitando o direito do outro e passando por cima da máxima “tratar o outro como gostaria de ser tratado”. Neste caso, temos um confronto com a alteridade gerando preconceitos, estigmas, discriminação e segregacionismo e que pode tomar as proporções catastróficas de uma guerra.
O reconhecimento do outro como ser passa por um grande leque de possibilidades de respeito (reconhecendo o outro como ser) ou de desrespeito (ignorando-o). O respeito tem seu início no ato de enxergar o outro como tal, passando pela abertura ao diálogo na discussão das diferenças, na responsabilidade pelo outro e na conseqüente disposição de fazer algo por ele, na proximidade sem a exigência de reciprocidade, tendo a linguagem como fator de reencontro com o outro, justamente naquilo que ele possa ter de desconhecido e de estranho, todos esses fatores tornando possível a proximidade, o estar lado a lado que se opõe ao confronto.
O desrespeito ao outro consiste em ignorá-lo, negá-lo enquanto indivíduo diferente e com direitos e ainda na impossibilidade total de convivência, que pode levar ao afastamento ou, em casos extremos, à eliminação do outro.
No caso de Julião Tavares, que sofre de sérios transtornos de personalidade, com baixíssimo grau de auto-estima, quase à beira da perda total da identidade, o confronto com a alteridade torna impossível a convivência com o outro, a aceitação até mesmo de seus pequenos defeitos.
Sendo impossível conviver, torna-se necessário eliminá-lo e, para isto, vem concorrer o presente que recebe do amigo, a corda com a qual acaba executando um crime que, na verdade, já vinha sendo cultivado em seu espírito. Se não fosse assim, por que, mesmo tendo fantasias conscientes com a corda e o crime, passa a levá-la consigo? E não nos esqueçamos que, antes mesmo de receber a corda de presente, já fazia associações perversas, já vinha tendo fantasias com cordas, já imaginava Julião Tavares enforcado.
No momento em que vê o outro conversando com Marina pela primeira vez, faz imediata associação com um assassinato, cujo instrumento teria sido uma corda. (“Quem teria morrido ali? – Alguém que roubou a namorada de outro”). Então, os dedos se contraem, movem-se para Julião Tavares e a fantasia torna-se consciente – ele percebe que poderia atingir facilmente o rival. Logo em seguida, vem a lembrança da cobra enrolada no pescoço de seu Evaristo. Tudo isto vem confirmar as fantasias de destruição que desde o começo lhe agitam o espírito.

Segundo Freud, essas duas forças pulsionais, Eros e Thanatos, apesar de trabalharem juntas, não atuam com a mesma força, sendo variáveis em quantidade e em intensidade em cada indivíduo, em cada situação.
Sempre existe um pouco de Eros e de Thanatos na vida de cada um e no caso de Luís da Silva, Eros também se revela em algum momento: quando ele conhece Marina, rapidamente conquista-lhe a amizade e passa a namorá-la. No entanto, o desejo que o leva à pretensão de casar-se, que o faz gastar todas as suas economias e endividar-se para tê-la como esposa, é quase esquecido desde o primeiro momento em que a vê conversando com o outro, dando lugar à raiva, ao ciúme, ao desejo de vingança.
Em Luís da Silva, a melancolia e o masoquismo, importantes componentes da pulsão de morte, vão progressivamente tomando vulto, levando-o a uma agressividade e destrutividade simultaneamente ao outro, enquanto objeto do acalentado projeto de assassinato e também a si mesmo, através da fragmentação de seu mundo interno, com sérias conseqüências em sua vida.
Eros poderia intervir com um mínimo de atitudes positivas de amor à vida, mas diante da baixa auto estima e do amor próprio praticamente anulado, a obsessão toma conta e cala a pulsão de vida, fazendo prevalecer a pulsão de morte.
A uma intensa atividade mental contrapõe-se, cada vez mais, uma enorme inatividade no plano real e a partir desse ponto, Eros vai perdendo cada batalha, vai sendo sufocado por Thanatos: a personagem vai afundando cada vez mais em um mar de angústia: seu ódio inicial por Julião Tavares chega a um grau insuportável e ele, impotente para qualquer reação diante do afastamento da noiva e do romance entre ela e o inimigo, torna-se completamente obcecado pela progressão dos acontecimentos, deixa esfriar seu relacionamento com a moça, ao mesmo tempo em que constata a intensificação da relação entre ela e o odiado rival.

A obsessão e a compulsão estão presentes em diversos comportamentos conscientes ou semiconscientes, bem como em reações involuntárias; desde a necessidade constante de lavar as mãos, típico comportamento obssessivo-compulsivo, que demonstra claramente o conflito interno a que está sujeita a personagem – sentindo-se inferior, indigna e suja – precisa lavar as mãos com freqüência (posteriormente, ao imaginar-se preso, reflete que não terá dificuldades em adaptar-se ao ambiente da prisão, desde que lhe dêem água para lavar as mãos). Outro sintoma do transtorno obssessivo-compulsivo é a extrema importância que confere a pequenos acontecimentos do dia-a-dia, até outros comportamentos obsessivos como o de contar os conhecidos que encontra na rua, o fato de passar horas a ouvir os sons das casas vizinhas, imaginando com detalhes o que estaria a se passar nas mesmas, são todos sintomas da obsessão que o acomete. Há ainda outros comportamentos compulsivos: contar os conhecidos que encontra na rua, ficar olhando os pés das pessoas que passam, ler os anúncios que havia no espelho do café e com as letras de algumas palavras formar nomes novos.

O ódio que nutre por Julião Tavares independe da traição, pois que se manifesta antes desse fato, fazendo-o desde então acumular observações negativas a respeito do amigo, fazendo crescer a raiva, o despeito e a inveja inconsciente.
Em sua opinião, Dona Adélia (mãe de Marina) é um instrumento, até mesmo Marina é um instrumento e merece compaixão. Quanto a Julião Tavares, também é instrumento, mas Luís não tem pena dele e decide que o mesmo deveria morrer.
A corda vem, então, de encontro a um desejo interno da personagem; se não a tivesse recebido de presente, outro instrumento e outro meio arranjaria para perpetrar o crime.
Thanatos, que sempre esteve por trás do jogo de cena, comandando o espetáculo, dando as deixas à personagem, vai ganhando força.

E então, quando não encontra Julião Tavares, Luís da Silva sai às ruas para procurá-lo; ao descobrir que este tem outra amante, passa a seguí-lo por lugares distantes, sempre com a corda, presente que lhe cai como uma luva para ajudá-lo a perpetrar o crime, dando-nos, assim, mais alguns indícios de que não se trata realmente de uma vingança pela traição e sim do desejo de eliminar o seu “outro”. Ora, Julião Tavares e Marina já não estão juntos, ele pode tentar uma reaproximação com a moça, mas não o faz. Até em algum momento diz que fez, mas não há demonstrações efetivas de tê-lo feito. Apesar da intensa atividade mental, é incapaz de tomar atitudes sadias no que se refere a sua vida, no sentido de tornar mais positivo qualquer dado da realidade. Está preso ao seu mundo interno, corroendo-se entre dúvidas e sobressaltos, mas atribuindo aos ratos todo o movimento de destruição de que ele mesmo é o sujeito ativo. É ele quem se rói por dentro, de raiva, de despeito, de inveja, mas desloca para os ratos a atividade destruidora. Na última noite em que segue o inimigo, sente-se ultrajado porque este, em sua opinião, lhe volta as costas.

Temos aqui novamente a pulsão de morte, temos Thanatos revelando sua face e sua força e levando-o ao assassinato. A partir desse momento, Luís da Silva deixa-se dominar pela ansiedade, tecendo na imaginação as personagens e circunstâncias que fatalmente o levariam à prisão: pessoas se confundem com policiais, sempre com o fito de encontrar provas, de incriminá-lo. Importante deixar claro que não é o sentimento de culpa o que o domina, mas sim a quase certeza de ter deixado vestígios do crime e o receio de ser descoberto. Não há qualquer sentimento de culpa, pois através da racionalização muito antes do crime já havia encontrado no inimigo os piores defeitos, tendo, portanto, todos os motivos para justificar o ato covarde e criminoso.

O suor intenso, que ocorre com o extremo esforço de içar o corpo para simular suicídio, muito mais do que a demonstração do esforço físico, é o sinal inconteste da ansiedade que lhe vai no espírito: continua intenso mesmo após ter chegado em casa, continuará intenso ainda por muito tempo. Esse suor intenso ocorre também em outra situação: quando ele vai ao quintal apanhar o dinheiro escondido pela empregada, os olhos do gato que o olha do muro crescem de forma extraordinária, iluminando todo o quintal e dando-lhe a impressão de vigiá-lo, constituindo-se em olhos da consciência - a ação de um superego rígido sobre um ego culpado.

Imediatamente após o assassinato ele tem uma fantasia de deslumbramento, em que a idéia de perigo desaparece, sendo substituída por uma grande alegria advinda da sensação de
poder e grandeza: quaisquer pessoas que apareçam ali serão figurinhas insignificantes, todas as pessoas da cidade são insignificantes, somente ele é forte e poderoso, força e poder adquiridos através da corda, que lhe possibilita o grande ato de bravura (assassinato).
A obsessão, sempre progressiva, faz com que imagine cada vez com mais detalhes o incriminamento, a prisão e até mesmo como reagiria diante de tudo. Então, como negação da inferioridade, da humilhação que representaria ser preso, temos a indiferença, a aceitação passiva e ainda algo grandioso: escreverá um livro e será sucesso, tendo, enfim, resgatada a identidade. Não será mais um Luís da Silva, será alguém com nome e prestígio, mesmo que encarcerado. O livro terá que ser escrito na prisão, para ganhar mais relevo o contraste entre a auto-estima terrivelmente em baixa e a realização suprema e levando à suplantação da impotência pela megalomania.

Mas a prisão não ocorre e ele mergulha na escuridão: atacado de febre, seus momentos alternam-se entre incompreensíveis e vagas percepções da realidade externa e uma extensa gama de sombras que, vindas tanto do passado remoto como do passado próximo, embaralham-se em alucinações visuais e auditivas, em um ritmo vertiginoso.

A conclusão é que, embora Eros se tenha feito presente através do relacionamento com Marina e depois, do breve desejo pela datilógrafa, é Thanatos quem comanda a personalidade de Luís da Silva. A extrema fraqueza do ego configura-se através do imenso pessimismo, do niilismo, da sensação constante da inutilidade da vida, que o leva à incapacidade de lutar e à autodestrutividade.

É Thanatos quem dá a tônica, quem conduz com mão forte os fios frágeis da trama, guiando a personagem através de um caminho de fragmentação progressiva, passando pelo comportamento obsessivo-compulsivo e levando-o senão à loucura total, ao aniquilamento de seu ser.

A narrativa se faz em um percurso circular - tendo início logo após a doença advinda do crime, percorre situações da vida familiar (passado remoto), do passado próximo (a vida atual, a repartição, a vizinhança, os amigos, seu relacionamento com Julião Tavares, com Marina, a traição e por fim o crime), terminando na doença que o acomete em seguida. Esta circularidade deixa-nos uma sensação de inexorabilidade da vida: nada mudou, ao menos naquela vida e naquelas circunstâncias, nenhum outro caminho se abrirá, nenhuma luz virá iluminar as trevas.

Entre o presente e os dois tempos do passado, insere-se a inutilidade de tudo. A outra possibilidade seria a do tempo pretérito, o tempo do desejo – o que seria possível, mas, neste caso, este tempo configura-se não como um desejo de um novo amor, de novas realizações e conquistas, não como um desejo de vida, que afirmaria a prevalência de Eros, mas como um desejo de vingança e destruição.
Houve Eros, mas este, muito fraco para combater Thanatos, perdeu-se completamente nos meandros das dificuldades emocionais.
Contraditoriamente, ao destruir o rival, ao invés de reerguer-se moralmente, a personagem mergulha na sombra, no caos e, mesmo após recuperar-se da doença, não consegue reconstituir-se como ser inteiro.

Na morte de Julião Tavares, temos estilhaçado o espelho que refletia o “outro eu” de Luís da Silva e este, enquanto ser vivo, independente e autônomo, praticamente deixa de existir. O que existe é uma personagem atormentada por idéias, segundo ele próprio, “fragmentadas, instáveis e numerosas, por hiatos nas recordações: suas lembranças são estilhaçadas (nas lembranças, agora, o reflexo do eu interior dividido e atormentado) e necessitando confessar o crime, ao mesmo tempo em que encontra todos os motivos para justificar-se. É alguém alheio e indiferente a si mesmo, cujas ações aparecem” baralhadas e esmaecidas", como se fossem de outra pessoa, em um processo de despersonalização.
Não tendo havido o incriminamento, a confissão do crime, o julgamento e a prisão, confessa-se e assume as múltiplas funções de réu, promotor e advogado de si mesmo; confundindo as responsabilidades de promotor e advogado, encontra grandes culpas no outro, ao mesmo tempo em que cria motivos aceitáveis para si próprio.

Ainda assim, nem mesmo essa confissão, que funciona como uma catarse e uma remissão da culpa, lhe traz o alívio para o desespero, o remédio para a fragmentação e ele permanece enredado nas sombras, não conseguindo vislumbrar qualquer possibilidade de retorno a uma vida saudável, não alcançando o re-equilíbrio emocional, que poderia ser a fonte da recuperação social e financeira, que possibilitaria, quem sabe, até uma nova união.
Eros perde, assim, a última batalha dessa guerra e está definitivamente instaurado o império de Thanatos.

Bibliografia:

Freud, S. (1915). As pulsões e suas vicissitudes. E.S.B. Rio de Janeiro: Imago, 1974. vol. XIV.
______. (1920). Além do princípio de prazer.
______. (1921). Psicologia de grupo e análise do ego.
______. (1930). O mal-estar na civilização.
Lévinas, E. (1998) Da existência ao existente, Edições Setenta
_______(2000) Totalidade e Infinito, Edições Setenta

Ramos, Graciliano – Angústia - Editora Record, Rio de Janeiro, 1979

 

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Maria Esther Torinho é poeta, cronista e contista, graduada em Letras, Psicóloga, Orientadora de Informática Educativa.

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Um empate entre Eros e Thanatos