Um empate entre Eros e Thanatos
Maria Esther Torinho
Análise da personagem Quincas Berro d’água, de Jorge Amado, buscando uma breve contribuição em conceitos filosóficos de Leibiniz, Nietzche e Sartre, enfocando ainda o desempenho dos papéis sociais, a constituição da identidade, o processo de individuação formulado por Carl G. Jung, bem como os princípios de realidade e do prazer e as pulsões de vida e morte formuladas por Sigmund Freud.
Trata-se de uma obra inserida na Literatura fantástica - realismo mágico, no qual a ironia funciona como instrumento a serviço de uma sátira às convenções familiares e sociais.
Quincas Berro d’água, funcionário e
pai de família respeitável, aposenta-se e, a partir desse
momento, abandona por completo a vida que levava para misturar-se à
ralé. Esse abandono da vida “regrada”, com o imediato
ingresso no submundo representa um grito contra os preconceitos, contra
as amarras impostas pela sociedade e a castração imposta pela
esposa.
Essa opção por um outro extremo vem demonstrar que o primeiro
Quincas era um “eu”.
Forjado pelo ambiente social e familiar, que se contrapunha totalmente ao que existia em seu interior. De acordo com a teoria junguiana, esse eu aparente é a Persona de Quincas, a máscara exigida pelos papéis sociais e que, assumida em seu grau máximo, torna-se um fator neurotizante e alienante. Tão diferentes são os dois “eus” que, para encontrar-se, a personagem precisa morrer. E não lhe basta uma morte; são necessárias três: uma morte implícita e duas explícitas. Para cada uma delas, um diferente significado de vida e, no todo, a constituição da verdadeira identidade em um roteiro de liberdade que traz em seu âmago uma profunda lição de vida.
O espaço constitui-se em importante fator a ser considerado para chegar-se a interpretações conclusivas sobre o significado da obra. São dois espaços distintos e divergentes, habitados pela personagem em momentos diferentes: no primeiro momento, a repartição e o ambiente social e familiar e, no segundo momento, a Ladeira do Taboão, local onde convive com os mais variados tipos da classe mais baixa da cidade. Embora não haja grandes descrições do espaço físico na obra, é possível o quanto cada espaço constitui-se em um ambiente definidor do modus vivendi da personagem; um é o ambiente castrador por excelência, enquanto o outro é a liberdade levada ao extremo. No ambiente familiar e profissional, Quincas vive sua primeira identidade: é o funcionário público respeitável, o pai de família digno, embora fugindo ao que deseja e pretende seu eu mais profundo: por fora, um cidadão pacato, agindo de acordo com a moral e os bons costumes, mas por dentro, o que haveria?
Ao abandonar a família, é dado por esta como morto e, por conseguinte, deixa de existir enquanto indivíduo respeitável, perdendo assim a identidade até então construída e moldada de acordo com os preceitos sociais e familiares. Temos, aqui, a primeira morte da personagem, uma metafórica morte moral. Aparentemente, passa a ser um outro, mas na verdade, realiza-se, personaliza-se nessa nova vida, adquirindo o respeito de outros cidadãos, embora pertencentes estes à classe social mais baixa. Nesse ambiente Quincas pode ser ele mesmo, sendo querido e respeitado. Ali constrói uma nova identidade, que estava como que camuflada e sufocada pela anterior, aumentando a auto-estima e encontrando, enfim, seu verdadeiro “eu”.
Após passar algum tempo nesse ambiente de liberdade total, no qual vive como cachaceiro, debochado e jogador, sujo e maltrapilho, freqüentador do meretrício e morador de uma pocilga, ele de fato morre, sendo esta a sua segunda morte (primeira morte física).
Os novos amigos conduzem o corpo pelas ruas da cidade, dando a conhecer a sua verdadeira morte e, portanto, a sua não-morte anterior, constituindo-se esta peregrinação do corpo pela cidade como o passo final na constituição da verdadeira identidade: o desmascaramento da farsa da morte “moral” possibilita uma integração entre os dois “eus” aparentemente opostos mas, no fundo, complementares.
Após essa peregrinação, a personagem encontra a morte definitiva e verdadeira, jogando-se ao mar, na última e definitiva atitude de rebeldia, morte esta que muitos afirmam veementemente e outros, principalmente a família, negam categoricamente.
Há uma grande ambigüidade em relação à personagem: várias mortes, a última das quais inclusive fica na hipótese; enquanto uns a narram com detalhes, inclusive relembrando a frase final do protagonista, outros a negam. A família inclusive concorre enormemente para o incremento dessa ambigüidade, com o intuito de salvaguardar as aparências, mostrando a certidão de um óbito ocorrido doze horas antes daquele, desautorizando a versão dos “patifes que contavam, pelas ruas e ladeiras, os momentos finais de Quincas” e conseguindo, com esse atestado de óbito, lançar o véu da sombra sobre a veracidade dos fatos narrados por tantos.
Consideremos ainda o significado do nome: Joaquim, o verdadeiro nome, pelo qual responde civilmente e segundo o qual vive a primeira fase da identidade, deriva do hebraico, significando o elevado de Deus, aquele de cuja dignidade ninguém ousaria duvidar, ao ingressar no submundo torna-se Quincas, um nome de apelo fortemente popular, condizente com a nova situação. A esse apelido, é acrescentada a expressão “berro d’água”, a partir da insólita situação em que Quincas, já acostumado às bebedeiras, berra ferozmente em um boteco onde pedira cachaça e recebera água.
Temos um caso de constituição de identidade (subjetividade) em três etapas bem definidas: primeiramente, o indivíduo submetido ao mundo, agindo de acordo com ele e contrariando totalmente seus próprios desejos; em segundo lugar, o indivíduo fazendo-se maior que o mundo e insurgindo-se contra ele e, finalmente, o desmascaramento da farsa familiar que propicia o encontro das duas personalidades distintas e aparentemente irreconciliáveis, com a preponderância do eu libertino e libertário, em uma última etapa que se constitui no definitivo encontro do indivíduo consigo mesmo.
Visando uma melhor interpretação da escolha radical de Quincas Berro d’água, busquemos um pouco de luz nos conceitos filosóficos de Leibiniz, Nietzche e Schopenhauer.
Segundo Leibiniz, Deus cria os homens e os cria livres.
Deus conhece os “faturíveis”, isto é, os frutos
condicionados, aqueles que se tornarão algo mediante certas condições.
Deus conhece o que faria a vontade livre, não sujeita à predeterminação.
Ainda de acordo com
esse autor, Deus quer que os homens sejam livres e permite que possam pecar,
porque é melhor essa liberdade que a falta dela. Para Leibniz a vida,
em suma, não é má, sendo o prazer maior que a dor.
Ele refere-se ainda a três condições para a liberdade:
a inteligência, a espontaneidade e a contingência, consistindo,
a liberdade da alma, em um fim em si mesma, independentemente de fatores
externos.
O Quincas responsável da primeira fase possui inteligência, mas vive na contingência das obrigações e lhe falta a espontaneidade, que só consegue vivenciar no segundo modus vivendi.
Segundo essa ótica, justamente porque criado livre, Quincas acaba por se rebelar, já que por tanto tempo se deixou dominar e a liberdade conquistada não teria outra pretensão que não fosse o próprio prazer de alcançá-la e fruí-la, independentemente da vontade da família e da sociedade ou de sua aceitação.
E quanto à perfeição do conjunto, de que nos fala Leibiniz? A perfeição do conjunto, no caso da novela em questão, só seria possível se houvesse adaptação: se Quincas encontrasse na vida familiar, profissional e social um mínimo de espaço para si mesmo. Ou ainda, se após sua escolha, a família não se sentisse mal com seu modo de vida, teríamos a harmonia pré-estabelecida, de que nos fala Leibiniz.
Para a família de Quincas seu comportamento é um mal, entretanto de acordo com o ponto de vista de Leibiniz, trata-se simplesmente da imperfeição inevitável.
Para satisfazer as necessidades psicológicas e de aceitação social da família de Quincas, o ideal seria que ele fosse feliz naquele ambiente que não se coadunava com seu modo de ser. Isso seria a perfeição, que é impossível e, sendo impossível, torna necessária uma atitude de Quincas no sentido de livrar-se do fardo que representaram durante toda a vida, as convenções e imposições familiares e sociais. Se a examinarmos pela ótica de Leibiniz, sua atitude de extrema rebeldia, que para a família representa o mal, tem sua raiz no mal que a antecede, a extrema imposição familiar, o jugo às convenções sociais, ao emprego burocrático, responsável pelo desajuste entre Quincas e o ambiente. Ainda de acordo com Leibniz, é desejo de Deus que o homem seja livre e. A escolha de Quincas a ninguém prejudica de fato, a não ser a suposta reputação da família perante a sociedade, haja vista o suspiro de alívio da filha e genro quando souberam da morte e, mesmo que prejudicasse alguém, ainda assim seria seu direito escolher um estilo de vida no qual se sentisse bem consigo mesmo.
Então, nesse sentido, a escolha de Quincas reconstitui a perfeição do conjunto ao escolher a liberdade e o prazer.
Podemos ainda analisar a escolha de Quincas pela ótica de um Schopenhauer, o primeiro entre os filósofos de destaque, em toda a história da Filosofia, a considerar o âmago do mundo como irracional e fundamentalmente oposto à inteligência e à razão, em suma, uma vontade de viver.
No entanto, mesmo após todas essas considerações, ainda resta um quê de inexplicável em seu comportamento, visto que, para esse filósofo, a vontade irracional não é, de nenhum modo, um valor positivo e o poder de fato é a causa de todo o sofrimento, devendo ser por esse motivo, aniquilada. Poderia ainda haver uma possibilidade de entendimento, se apelarmos à concepção nietzscheana, que interpreta essa vontade de poder como o valor mais alto, a finalidade máxima do viver, que transforma o homem em um “super-homem”.
E ainda assim, como tanto para Schopenhauer como para Nietzche a inteligência humana constitui-se essencialmente em um instrumento dos interesses pragmáticos da vontade, resta ainda algo a entender na atitude de Quincas, já que não levou à consecução de qualquer objetivo prático, ao contrário, veio em oposição total a qualquer praticidade.
Seu comportamento nos remete ainda a Sartre, que na obra O ser e o Nada nos fala de sua “condenação a ser livre”, dizendo que se sente condenado a “existir para sempre, além de sua própria essência, além das causas e motivos de seus atos”. Segundo o existencialismo de Sartre, o único limite para a liberdade é a própria liberdade e, portanto, o ser humano não é livre apenas para deixar de ser livre.
Entretanto, Sartre diz também que, apenas pelo fato de ser consciente das causas que inspiram seus atos, elas (as causas) já transcendem para a consciência e permanecem fora. No caso de Quincas, não é feita qualquer referência a qualquer outro motivo que o tenha movido, a não ser a não aceitação do excesso de regras. E é justamente quando a filha lhe apresenta o noivo, no qual ele percebe a repetição, em um grau extremo, de conformismo às regras e imposições. E é justamente nesse momento que ele decide fazer a grande mudança em sua vida, o que nos leva a concluir que sua motivação é, de fato, a rebeldia para com um estilo de vida com a qual há muito estava insatisfeito.
Resta-nos, então, buscar outras formas de entendimento e para isto, pode contribuir a Psicologia, com sua Teoria dos Papéis Sociais, os princípios de realidade e do prazer, bem como as pulsões de vida e morte formuladas por Sigmund Freud.
A tentativa de penetrar mais fundo nas motivações de Quincas obriga-nos a perguntar: O que é o ser humano inserido em uma sociedade na qual tem diversos papéis a cumprir? Qual será a essência do ser? Até que ponto o homem é moldado pela sociedade e pelos papéis a serem desempenhados e até que ponto ele consegue expressar seu verdadeiro eu, de forma a deixar sua marca no mundo, remodelando-o? Enfim, em que se constitui a liberdade e qual o grau de liberdade possível na vida social?
De acordo com o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, diversas são as acepções da palavra ser: existir, ter um atributo, um modo de existir, além das acepções de pertencer e estar no mundo. Joaquim estava naquele mundo (o da repartição e da família), mas não pertencia a ele, sendo um estranho nesse ambiente. Esse modo de existir não lhe apetecia nem o convencia, os atributos com que era identificado – nome, sobrenome, cargo, funções e papéis familiares - nada disso correspondia ao que trazia dentro de si, ao que pretendia como ser. Apenas junto à ralé é que ele encontra o verdadeiro sentido do pertencer, ali é rei e senhor, o amigo de verdade, o pai: a notícia de sua morte é seguida de “vários rituais de homenagem, que consistiram em ajuntamentos precipitados no mercado, semelhantes a comícios relâmpagos, gente andando, a notícia subindo e correndo de boca em boca, os homens dos saveiros incrédulos, uma grande desolação entre as pessoas da ralé, em rememoração de fatos, detalhes e frases que fossem capazes de defini-lo, de exaltar sua generosidade, enquanto a amante Quitéria do Olho Arregalado gritava furiosamente e prostitutas decidiam não receber nenhum homem naquela noite, decretando feriado “como se fosse quinta ou sexta-feira santa, enquanto o comércio aumentava o do preço dos balangandãs, bolsas de palha e esculturas de barro que vendiam aos turistas”.
Após o desfecho final, passa a ser uma lenda vida, com direito a vida e morte narrada pelos cordelistas.
Discorrendo sobre o desempenho dos papéis sociais, Agnes Heller explicita que, apesar de as funções de tipo "papel" serem condicionadas pelo conjunto da sociedade, o ser humano é mais do que o seu papel ou conjunto dos seus papéis, porque eles jamais esgotam o comportamento humano em sua totalidade: "Mesmo nos contextos mais manipulados, produz-se constantemente a ‘recusa do papel’. Em todos esses contextos, há excêntricos, rebeldes e revolucionários. Até mesmo os contextos mais manipulados estão repletos de homens que vivem em ‘incógnito de oposição’." (Heller, 1985, p.106)
No desempenho de seus papéis sociais, o indivíduo pode assumir uma grande variedade de atitudes, que vão desde a conformidade e a sujeição em diversos graus até a pequenas insubordinações ou à insubordinação total.
Esses comportamentos são identificados por Heller
como:
"recusa do papel" verificada nos rebeldes ou revolucionários
em que o indivíduo, indo contra tudo e contra todos, insurge-se contra
o sistema para preservar sua individualidade; o "incógnito de
oposição" em que, através do qual, embora ainda
contrapondo-se ao ambiente, o indivíduo apresenta um grande distanciamento
entre sua personalidade e o papel que representa: não sendo nem conformista
nem revolucionário, encontra no desempenho dos papéis sociais
uma permanente forma de angústia; o "incógnito dissimulado",
caso em que o indivíduo também não se identifica com
o seu papel, mas é capaz de penetrar nele e em sua função
aceitando as regras de jogo dominantes: na dissimulação temos
uma conduta perigosa, porque não se deixa conhecer por ninguém
e pode terminar desconhecendo a si mesmo e, finalmente, a "identificação"
onde pode ser observada uma total identificação com o papel,
uma forma perigosa de o indivíduo colocar-se no mundo, já
que pode levar à alienação, pela perda da continuidade
do caráter, e à dissolução da personalidade.
A situação ideal é aquela em que o indivíduo adquire consciência do que está por detrás desse jogo de forças e, assumindo os papéis sociais que lhe cumprem, encontra, todavia, formas de expressão que lhe permitam ser ele mesmo, não se submetendo totalmente, achando um caminho por onde conduzir com sucesso a sua individualidade.
Voltando à nossa personagem: durante a vida, Quincas não encontra uma forma de conciliar a ânsia de liberdade com a vida social, profissional e familiar.
Queria mesmo era ser marinheiro, achava que “para isso nascera”, - na falta de identificação com a função de funcionário público, não constitui uma identidade profissional.
Aposentando-se, solta as amarras e vai ao outro extremo, conhecendo a liberdade desregrada e constituindo-se ali enquanto novo sujeito, ou, em outros termos, enquanto verdadeiro sujeito. Após isto, morre, de fato, entre trapos, e perambula pelas ruas, um morto-vivo acompanhando a gentalha, dando um testemunho da sua total insubordinação, eis que não se submete nem mesmo aos ditames da vida e insurge-se contra a Morte. Então é levado para um barco, onde ocorre sua terceira morte (segunda morte física), com um desfecho surpreendente: a personagem joga-se no mar, não deixando vestígios de sua passagem pelo mundo dos vivos, representando, dessa forma, sua purificação. Representaria este ato uma purificação da vida libertina? Não, a meu ver esse ato simboliza a purificação da opressão imposta pela vida anterior, a rejeição final ao mundo “careta” e a total entrega à vida livre.
Ao mar entrega seu corpo e no mar integra-se a si mesmo,
seus dois eus agora unidos para sempre, apontando ao mesmo tempo para a
impossibilidade de liberdade na vida comum.
Realizada a integração entre os dois “eus”, a
personagem torna-se uma lenda: não se tem mais certeza de nada. Terá
ele morrido de fato? Quando? Antes do barco ou no barco?
Em ambiente digno ou em meio à gentalha?
Através desse ato (jogar-se no mar), realiza a terceira etapa da constituição de sua identidade, no encontro definitivo com seu verdadeiro “eu”.
Morto, Quincas mostra nos lábios um sorriso irônico, como a indicar que não se sente derrotado. Na morte, o encontro da liberdade, o encontro da vida, eis que em cada uma das mortes encontra a si mesmo: a vitória diante das convenções sociais, das amarras que lhe foram impostas na primeira fase da vida, em que viveu petrificado em sua liberdade de expressão.
De acordo com a teoria de Heller, o primeiro Quincas, que vivia em total conformidade com os padrões sociais, era um “incógnito dissimulado”, pois sem identificar-se com os papéis a serem desempenhados, aceitava-os, todavia, penetrando neles e cumprindo as regras de um jogo perigoso, já que capaz de anular totalmente sua personalidade.
Através da recusa dos papéis, passa a viver em outro ambiente, que lhe propicia a eclosão do verdadeiro eu, libertário e libertino, contrapondo-se totalmente ao que lhe fora imposto e dando a conhecer a face oculta de sua personalidade, totalmente oposta à anterior, instaurando, assim, a indignação, a revolta e um certo caos nas mentes e nas vidas daqueles com quem convivia.
Sendo totalmente submisso, não consegue modificar, em um mínimo que seja,o modo de ser da família e da esposa; não existindo flexibilidade nas atuações das personagens envolvidas quanto ao cumprimento de seus papéis, não há qualquer possibilidade de conciliação entre as partes no sentido de se flexibilizarem as atuações e comportamentos das personagens: para Quincas, não há qualquer saída e ele se submete, já que encontra à sua volta tanta intransigência e, não havendo um certo confronto nesse jogo de forças, não pode haver aprendizagem nem mudança.
Inexiste no grupo familiar a assimilação
do modo de ser de cada um: nem Quincas assimila o estilo de vida da família,
nem esta a dele. Portanto, não há acomodação
possível para esta situação e o rompimento definitivo
se faz indispensável: os laços familiares, a afeição,
recuperáveis tantas vezes apenas após a morte, no caso de
Quincas continua sendo impossível, já que o distanciamento
é gigantesco e agravado pelos rumores da vida desregrada que ele
leva, o que, para a família, constitui-se em motivo de muita vergonha.
Impossível nestas circunstâncias, qualquer aprendizagem de
vida, qualquer modificação da personagem pelo meio ou do meio
pela personagem.Onde não existe o mínimo conflito não
pode haver mudanças, então a insubordinação
também não se caracteriza como instrumento de conciliação.
Seria Quincas um caso de dupla personalidade?
Um dos conceitos fundamentais da Psicologia Analítica
ou Transpessoal, formulada por Jung, é o da individuação,
um processo através do qual a pessoa vai descobrindo quem ela realmente
é. De acordo com Jung o homem é capaz de tomar consciência
desse desenvolvimento e influenciá-lo. Do confronto entre o inconsciente
e o consciente é que os diversos componentes da personalidade amadurecem
e unem-se em uma síntese, na realização de um indivíduo
específico e inteiro. A meta do processo de Individuação
é a síntese dos opostos, é obter uma relação
consciente com o Self, o que implica uma mutualidade entre o Ego e Self,
já que um é indispensável à a existência
do outro.
Embora isto não seja explicitado na obra, tudo leva a crer que Joaquim,
pai de família e funcionário público, já continha
em si as raízes do Quincas insubordinado e rebelde que viria a ser
após a aposentadoria. Nele, a propensão para a rebeldia encontrava-se
camuflada, ou porque não tivesse descoberto quem de fato era ou porque
não conseguia encontrar um espaço para expressar sua individualidade
no ambiente doméstico e profissional.
O processo de individuação implica na transformação do sujeito humano, concomitantemente com sua integração na coletividade.
Quincas jamais se integrou ao ambiente em que convivia; assumiu seu papel de forma radical e não conseguiu um espaço próprio para transformar-se naquilo que de fato era, por isto a mudança é tão radical. Não havendo uma compensação pessoal para o rigor no cumprimento dos papéis familiar e social, é necessário que haja um rompimento brutal: estando em total oposição à família e ao meio, não pode conviver nele e retira-se para um ambiente onde possa desfrutar da liberdade jamais conquistada, nem mesmo minimamente.
A individuação de Quincas só tem início a partir do momento em que ele deixa para trás as convenções e imposições e ingressa em um mundo novo: entre as pessoas da classe social mais baixa, ele não somente encontra a si mesmo, como passa a vivenciar o herói: é querido, é amado e reverenciado, é o pai cuja vida é decantada e cuja morte é deplorada em uma “noite de encantamento na qual ... o Pelourinho parecia um cenário fantasmagórico”, em um verdadeiro ritual de reverência a quem antes conseguira um mínimo talvez de uma admiração parca, recebida da família apenas na medida em que cumpria o papel de provedor, mas jamais como ser independente e autônomo, amado por si mesmo.
Sendo justamente a convivência com o outro o que possibilita a constituição da subjetividade de cada um, sendo o outro um espelho no qual nos refletimos, nos buscamos e nos reconhecemos, esse encontro pode ser caracterizado pela simpatia e pela identificação ou por um confronto constituído de rejeição, de rivalidades, de raiva, de ódio, além de outros sentimentos negativos, conscientes ou não.
No caso de Quincas, a convivência com o(s) outro(s) caracteriza-se pelo confronto, principalmente em caso, enquanto no novo ambiente a convivência possibilita a vivência do verdadeiro eu.
A esposa de Quincas é retratada como sendo uma pessoa difícil: o amigo que vai levar à família a notícia da morte de Quincas identifica no retrato dela o olhar acusador e boca dura, o que explica sua personalidade autoritária e a insubordinação de Quincas.
Conforme dito anteriormente, Quincas já possuía dentro de si, desde a fase anterior, o gérmen daquilo que viria a ser: o duplo – que estava escondido e que vem à tona após a aposentadoria, sendo o outro representado pelo modo de vida que o subjuga durante anos a fio, pelas obrigações familiares e convenções sociais e que encontra sua expressão máxima na figura da esposa. No entanto, as duas faces divergentes que constituem esse duplo não são vividas concomitantemente e sim em fases distintas, evidenciando a total impossibilidade de conciliação entre os dois “eus” da personagem.
No convívio social e, principalmente, no cumprimento dos deveres profissionais e familiares, ele não consegue estabelecer laços harmônicos, que lhe proporcionem algum grau de satisfação. Ao invés de um convívio gerador de simpatia e satisfação, há um confronto que lhe traz profunda insatisfação e que tem seu ponto máximo na figura da esposa - ele se submete durante anos às imposições do modo de vida dela e também às convenções sociais, aos papéis . Durante o velório esse confronto exacerba-se, com a filha assumindo o papel que tinha sido da mãe, na tentativa de resgatar para a família a antiga imagem do pai.
Os familiares discutem os detalhes do enterro enquanto comem uma peixada, com direito a sobremesa. Depois de tudo resolvido, enquanto está a sós com o defunto, Vanda tem um sorriso de satisfação “como se houvesse finalmente domado Quincas”. Segundo o narrador, também a filha possui lábios de uma rígida dureza, havendo, portanto, uma identificação muito forte com a prepotência da mãe. Dessa forma, com a morte do pai sente-se vingada pela humilhação que este infligira à família.
No velório, ao tomar as primeiras decisões
sobre o enterro, Vanda “levantou a cabeça, passou um olhar
vitorioso pelos presentes, ordenou com aquela voz de Otacília:”
Desejam alguma coisa? Senão, podem ir saindo”.
No entanto, novamente Quincas não se submete e quando ela pensa havê-lo
subjugado, já que morto nada podia (no entender da filha), ele novamente
se insurge, através de gestos obscenos e de um sorriso irônico,
que demonstra o desprezo pela família, pelas convenções
sociais, pela antiga identidade.
“O riso de Quincas foi se ampliando, alargando, aos poucos ressoava na pocilga imunda.”, ele ria com os olhos e com os lábios, depois soou a voz: - Jararaca! (signo de rebeldia com que afrontou a família ao ir embora e com que afrontava a família quando tentavam fazê-lo retornar à antiga vida). Para a cunhada (Tia Marocas): - Saco de peidos!, ainda ajeitou-se melhor no caixão, como se começasse a recobrar a vida”.
“Porque se impunha finalmente sua vontade (da filha), que” finalmente restaura Joaquim Soares da Cunha, aquele bom, tímido e obediente esposo e pai: “bastava levantar a voz e fechar o rosto para tê-lo cordato e conciliador."
Quincas morto, sobre um lençol “negro de sujo”, tendo sob o corpo uma colcha rasgada, calçando uma meia furada e sapatos rotos, com a barba sem fazer e as mãos sujas, trasmuta-se pelo jugo da filha no antigo e respeitável pai de família, jugo esse representado pelas roupas e sapatos com que lhe vestem e que parece ser mais uma mortalha, impondo-lhe nova sujeição e sufocando-lhe de novo a liberdade conquistada, a qual apenas os amigos da ralé vêm resgatar.
Novamente Quincas troca de traje, desta vez pelas mãos dos amigos e, através dos trajes, muda novamente de vida - retorna à identidade adquirida na sarjeta e à liberdade ali conquistada, constituindo-se, dessa forma, os trajes em importantes signos a apontarem para a oposição prisão/liberdade.
No velório ocorre um novo confronto de alteridades, revelado através das atitudes de desprezo por parte dos familiares do morto em relação aos amigos deste, bem como em relação ao defunto.
Durante todo o tempo a hipocrisia faz-se presente: por
detrás das atitudes, comprando roupas boas, caixão e revezando-se
no velório, o intuito dos familiares na verdade é salvar as
aparências com o mínimo de gastos, o que se denota pela sensação
de gasto inútil – o dinheiro poderia ser utilizado em outras
coisas, por exemplo, para o genro, um sapato novo, além do fato de
que, embora demonstrem desprezo pelos amigos do pai, por serem da ralé,
deixam o defunto sozinho em companhia destes. Desde que haja alguém
com o defunto, mesmo que sejam aqueles seres desprezíveis a seus
olhos, as aparências estão salvas. No dia seguinte farão
um enterro restrito apenas aos familiares, o que possibilitará esconder
dos amigos as verdadeiras condições de sua morte.
Na primeira fase da vida, Quincas é inteiramente dominado pelo princípio
da realidade, vestindo a máscara do funcionário público
e do chefe de família exemplar; não lhe sobrando espaço
para sonhos, para realização pessoal; nenhuma folga lhe é
concedida, a liberdade lhe é confiscada. Ao mudar de vida, adota
por lema e princípio guiar-se total e exclusivamente pelo princípio
do prazer, sem qualquer chance para o outro lado.
Na primeira fase é Thanatos quem dá as cartas, quem impõe as regras do jogo, fazendo de Joaquim um homem excessivamente sério, pacato, comedido mas, tendo sido represado durante anos, Eros ressurge das sombras e impõe seu domínio, mesmo que para isto, Joaquim, o pai e funcionário exemplar, tenha que se tornar Quincas, o amigo da ralé, em uma virada completa.
Apesar da importância do primeiro ambiente em que Quincas vive para a posterior insubordinação, não podemos deixar de observar que esse mesmo ambiente é referido apenas de maneira breve e após a morte de Quincas, tendo ele já vivido seu período de insubordinação, que deveria terminar com a morte. Mas tudo termina com a morte? Não no caso de Quincas: a insubordinação levada a cabo nos dez anos de vida desregrada continua com o defunto rindo debochadamente da família, dizendo coisas, fazendo gestos obscenos, rebelando-se contra a família, contra a filha que pensava tê-lo agora sob seu total controle e poder, assim, resgatar um pouco da, segundo seu ponto de vista, dignidade perdida.
Pois Quincas morto continua um sujeito insubordinado e,
após os deboches todos, volta à vida para acompanhar seus
amigos da ralé por um passeio pelos ambientes sórdidos em
que foi – e continua sendo – mais que um amigo, um pai para
muitos, um rei. Rei morto, rei deposto? Não no caso de Quincas que
adquire nova vida e perambula pela cidade, sendo reconhecido e festejado:
o que deveria ser um velório passa a ser uma comemoração
de aniversário.
Rei morto, aprisionado em um sarcófago, como uma múmia, para
que os parentes resgatem a sua (deles) dignidade julgada perdida?
Não no caso da nossa personagem, que foge ao decoro imposto pela família, pelo caixão, pelo velório e, após a perambulação pela cidade em bebedeiras, sendo inclusive o pivô de uma grande briga, recusa-se a ser aprisionado em uma sepultura, preferindo entregar-se ao mar. Encontrada a liberdade e a verdadeira identidade após a camisa de força anterior e tendo podido desfrutá-la por dez anos, Quincas recusa-se a vestir novamente a máscara de morto exemplar que a família tenta impor-lhe.
As idéias de Eros e Thanatos, cuja origem remonta à Mitologia Grega, foram desenvolvidas por Sigmund Freud, em Além do Princípio do Prazer, trabalho em que ele identifica um antagonismo existente em cada ser humano, um jogo constante entre as forças de Eros - a pulsão de vida e as de Thanatos – a pulsão de morte, a primeira estimulando o crescimento e a realização e a segunda alimentando instintos destrutivos e atitudes de auto-sabotagem e de autodestruição.
Na personalidade de Quincas, de início é Thanatos quem dá as cartas, impregnando a vida da personagem de insatisfações e dando pouquíssima chance de defesa a Eros. Após abandonar a família e a vida anterior e ingressar no submundo, Eros mostra sua força e, apesar do ambiente e das pessoas de péssima reputação com quem passa a conviver, é ali que ele encontra a liberdade, a auto-estima cresce e ele se realiza como ser humano, encontrando a sua verdadeira face. No momento em que morre e a família vem para o velório, vestindo-o com roupas limpas e novas e submetendo-o novamente ao seu jugo, temos novamente a força de Thanatos, que parece ressurgir, trazendo pelas mãos da morte, uma fase final, derradeira e definitiva de sujeição para Quincas, porém novamente sobrevém o resgate da pulsão de vida, através dos amigos, quando Eros rapidamente restaura seu domínio: retirado o traje social, que é substituído por roupas paupérrimas, afastada a família, Quincas sai, acompanhado dos amigos, para o reconhecimento final dos seus pares: chocada, entristecida, ao corpo que pede passagem e que acredita vivo, a comunidade rende homenagem.
Se antes, no seio da família, era um vivo quase morto, agora é um morto muito vivo que passeia, bebe, briga, encontrando na morte seu momento de glória e reconhecimento, mesmo que por parte da ralé, até entregar-se espontaneamente às ondas do mar.
Enfim, Quincas está morto e recuperado como rei da gentalha. E morto, entrega-se ao mar revolto. No mar se purifica e no mar se redime de possíveis culpas, ao mar entrega seu corpo, em uma morte final e derradeira que simboliza ao mesmo tempo a purificação e o renascimento, último e verdadeiro encontro consigo mesmo, na continuação do encantamento pela liberdade que sempre esteve subjacente à sua personalidade e do qual desfrutou na vida libertina das ruas. O mar é então a continuação da liberdade e, ao invés de aprisioná-lo, liberta-o definitivamente; deixando definitivamente para trás o mundo de prisões e deveres, a que se sujeitara no seio do funcionalismo e principalmente sob as rédeas de uma esposa autoritária.
Quincas sempre dizia que jamais entregaria seu corpo à terra, era no mar que queria morrer pois “reservara ao mar a honra de sua hora derradeira, de seu momento final”, podendo-se, portanto, concluir que ele atingiu seu objetivo.
Assim, esse final de certa forma ambíguo –
morre, mas entrega-se ao mar, que sugere liberdade – confere à
história um sentido totalmente inusitado, pois se a morte costuma
representar a força de Thanatos sobrepujando Eros, neste caso especial,
Eros revela sua força: afinal: é através da morte que
Quincas recupera definitivamente a liberdade conquistada nas ruas, junto
à ralé, o que leva à hipótese de que neste caso
especial, trata-se de um caso de empate entre Eros e Thanatos, constituindo-se
a obra, enfim, em uma metáfora da liberdade.
Bibliografia:
Amado, Jorge – A morte e a morte de Quincas Berro d’água
– Rio de Janeiro – Editora Record, 74a. edição.
Bueno, Francisco da Silveira Bueno – Dicionário Escolar da
Língua Portuguesa – FENAME - Rio de Janeiro, 1981
Freud, Sigmund – Além do Princípio do Prazer - Rio de
Janeiro: Imago Editora, 2001
Heidegger, Martin – Coleção Os Pensadores – Editora
Nova Cultural – São Paulo,1996
HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. Tradução Carlos
Nélson Coutinho e Leandro Konder. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
Jung, Carl G. – Psicologia do Inconsciente – Rio de Janeiro:
Editora Vozes, 1999
Leibiniz - Coleção Os Pensadores, Ed. Nova Cultural Cultural
– São Paulo,1996
Nietzche – Coleção Os Pensadores – Editora Nova
Cultural – São Paulo,1996
Schopenhauer - O mundo como Vontade e Representação - Editora
Contraponto 2001
___________________Aforismo para A Sabedoria da Vida (184?) – Editora
Martins Fontes, 2002
Sartre, Jean Paul – O ser e o nada – Ensaio de Ontologia Fenomenológica
– Rio de Janeiro: Vozes, 2002
Maria
Esther Torinho é poeta, cronista e contista, graduada em Letras,
Psicóloga, Orientadora de Informática Educativa.
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