Agonizavam os rastros de novembro.
E os meus ossos, cansados das neblinas,
doíam, no concerto das esquinas
da cidade, onde um dia, ainda me lembro,

penetrou-se de escuro a minha alma,
quando um cão, a ladrar contra o sol-posto,
mordeu o lado oculto do meu rosto
e deixou seus sinais à minha palma.

Lembro-me que era de tarde. Ainda chovia.
O eco dos espelhos conduzia
meus passos que jaziam pelas ruas.

Havia o som da água que caía.
E no horizonte, além da agonia,
um cemitério de meninas nuas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pensava ser abril e era janeiro:
o olhar sempre posto além dos pés.
Desfiava o roteiro das marés,
com a paixão de um soturno marinheiro.

Zarpava, então, num barco imaginário,
buscando um cais de bruma e soledade.
Sem saber em que porto, em que cidade,
escondera o seu louco calendário.

Depois, se punha em meio ao tombadilho,
a acenar, com um lenço, para o filho,
morto, sabidamente, há mais de um mês.

Dele, não se sabia se falava.
Apenas de vez em quando, assobiava,
trechos de um velho fado português.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

©scott mutter

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Borda algum sol o peito do menino.
O seu olhar abóia esse rebanho
obediente à clara voz de um sino,
a pastar no capim de um verde estranho.

Imenso touro vela às suas costas,
lambendo-lhe as vestes e os cabelos:
seus soluços se escondem nas encostas
e, entre nuvens, se perdem seus desvelos.

Mas o azul dos campos do seu olho
roça o meu pensamento. E eu escolho
seguir o vôo incerto de um morcego.

Nesses currais da tarde, o sol a pino,
o esguio fantasma de um menino
cumpre a sina do meu desassossego.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um gato anunciou-me seu olhar de chama.
Lembrei-me, então, de Charles Baudelaire,
num café de Paris, numa tarde qualquer,
a pensar na mulher que deixara na cama,

numa certa pensão do país de Bruxelas,
onde triste vagou, com ar de cão-sem-dono,
e as suas palavras, pelo chão de outono,
se cobriram de folhas amarelas.

Deixei-me atormentar-me pelo frio
a escorrer-me entre os dedos, como um rio,
passando pelas pontes do penar.

Tudo sabia a cinza. E sobre a mesa,
o pão dormido e o vinho da incerteza,
testemunhos da Noite por chegar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Formatação: Mariza Lourenço

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