TODOS OS DIAS TODAS AS HORAS
   

 

  Geraldino Brasil
   

 

 

Felizmente o poeta não é a poesia que faz

como o mímico a mímica

da sua cara que mostra para fazer rir

enxugando inexistentes lágrimas.

As lágrimas tristes do poeta existiram de

verdade mas agora os olhos secaram

e lágrimas que secaram não fazem rir, fazem

                                                            poemas

de sentir uma dor calada, eis a diferença das

                                                            artes.

 

II

 

Por isso eu não uso palavras inéditas que

moram no casarão do dicionário

e nunca saíram, sem uma viagem pelo coração,

assim peças de automóvel nas prateleiras

que nunca sofreram numa buraqueira de dizer

palavrão contras as autoridades,

sem nunca um descaminho à noite, falta de

gasolina, aflito rezar.

 

III

 

Nada de palavras sem a humanidade das

fadigas e dos sonhos do cotidiano,

tal uma cama nova na exposição da loja

sem a ilusão ou sem o desânimo da dona que

ainda não teve,

sem o peso do homem que morreu sozinho noutra

                                                                        cama

e que quando estava vivo era leve,

porque ainda o erguiam do leito os gemidos

ou ainda a espera

da manhã que vinha vindo no canto dos pássaros.

 

IV

 

E por falar em cama. Uma vez havia uma linda

mulher,  numa cama, insone, ansiosa de amar

e seu marido calmamente ao lado, de pijama

azul, lendo os volumosos

livros de contabilidade da empresa.

A solidão dessa mulher tão triste

um dia a trouxe para um soneto sem rimas

e versos contados

nos dedos para não prender quem presa já

                                                estava.

Embora ela mesma não viesse – um sonho de

Excitar que tive ainda –

Escondi uns livros de versos que estavam comigo

Para que não os visse e nem de longe se

Lembrasse da contabilidade.

Foi o meu apoio moral, que outros proibiam,

ah quantos códigos!

E me defendi do seu marido. Nunca se sabe do

conceito de honra de um marido.

Substituí o contabilista do soneto por um

sujeito apaixonado por

tudo que saísse sobre o Triângulo das Bermudas.

O marido morreu, coitado, deixou uma linda

viúva consolável.

 

V

 

Assim eu sempre quis o meu poema, um momento

da minha vida ou do leitor que eu tivesse

ou da leitora sozinha e que o lendo quisesse

                                                            amar-me.

Ele nos levaria para o bem e para o bom

prazer da vida.

 

Um poema meu espinho/alegria, minha sujeição

                                                Liberdade, alívio da dor,

fuga da prisão, o meu falar para não saberem

                                                            que estou calado,

minha solidariedade ao homem do nome

                                                       iluminado de pastor

mas a quem sempre dão noites frias e casacos

                                                                        rasgados.

 

VI

 

Felizmente ele ainda pensa que tem um poder,

um poder sobre uma ovelha.

Mas nem isso, que os donos da terra em tais

coisas não o iniciariam.

Porque é mais um ardil político. A ovelha é

quem toma conta dele.

Se ele dormir, ele fugirá, e ele será castigado.

Mas é conveniente que pense: eles me confiaram

                                                            esta ovelha.

Este poder que é a sua escravidão, é seu

orgulho e a sua paz e a dos donos da ovelha.

Ou o meu poema comigo num hospital ou num

                                                                 cárcere.

Já estive num hospital. Me lembro da enfermeira

profissionalmente sorridente.

Nada mais triste do que ser dado a uma

mulher outro modo de sorrir.

E aquela me sorriu antes de fechar a porta

do quarto um momentinho.

“Para o proteger da poeira do corredor”

Nada de varredura. Isto ela diz sorrindo quando

vai passar a maca d vizinho que morreu.

E é contra-indicado vê-lo, pode fazer o sujeito

querer rasgar as bulas

mentirosas que o animavam, olhar desconfiado o

crucifixo, de soslaio....

 

VII

 

Ontem o meu vizinho estava animado, o padre

lhe sorria falando

sobre as belezas do céu, o médico lhe dissera um

“até amanhã”, olhando para o padre sorridente,

fique desconfiado, meu vizinho ficou conversador,

falando bem da sogra,

dizendo que era a sua segunda mãe, então

disse comigo: é a visita da Saúde.

Chorei escondido e pedi pelo meu desconhecido

vizinho de quarto do hospital.

 

                                                A árvore da janela do hospital

                                                passa para cima, escura e esguia,

                                                vestindo um verde lodo de viúva

                                                olhando a cama onde ele ontem

                                                                                       dormia.

 

VIII

 

Você nunca me viu no cárcere, companheiro,

que ontem deixaram matar

numa cela imunda.

Mas por Deus que eu já tenho dormido com

você,

com medo de ser acordado para morrer.

De ontem pra cá fiz duas coisas oposta, que

                                    só um homem pode fazer.

Uma foi rezar de joelhos como quando menino,

diante de minha mãe, e pedi por

você a um santo que me disseram que é mais

poderoso que o santo da minha fé.

E a outra que fiz foi rasgar uns papeis, beber

                                                um vinho doido

e me deitar numa cama solteira, uma coisa

                                                linda, excitante,

uma consciência gostosa de balanço numa

                                    onda perdida em alto mar.

Felizmente uma baleia maternal queria salvar-me

de um tubarão.

E fazer de mim como fez com o profeta Jonas

Quando você gemia eu estava entre os

telespectadores da praça gratuita

de uma cidadezinha religiosa e ouvi enquanto

morrias: “Menos um, Graças a Deus”.

Deram-Te “graças a Deus” pela morte do teu

filho ruim, aquele que se se salvasse,

mais Te alegraria do que o sorriso para Ti

de todos os outros, foi Tua palavra.

Pois bem, foi gente cristã. Da que lê os textos

sagrados, pelos menos

passa para o Templo com o Livro de Folhas

Sempre Novas, gente culta

com moeda estrangeira para o pedinte milenar e

necessário.

Porque uma Igreja sem as suas cuias, onde

derramariam caridade tanta, depois das

                                                            Missas?

 

IX

 

Ai, Senhor, é quando eu caio sempre naquele

sofrimento que me queima.

Porque eu não alcanço como é que consegue

ficar alegre a que soltou a moeda

na mão do mendigo sujo e malandro que em Teu

nome lhe prometeu o dobro do céu.

 

Eu não alcanço que ela ouse fazer o jogo das

“partidas dobradas”, possa

Te debitar  pela moeda que mostrou que dava,

ela tua credora, não alcanço.

E mais: eu não sei Te imaginar sorridente,

Ouvindo hinos a Tua Gloria,

pois eu nem posso imaginar Tua infinita tristeza

naquela noite de crime

em que um pecador filho Teu era acordado

covardemente para morrer sem defesa.

E para maior tristeza Tua uma velha de cabelos

brancos que há pouco rezara

na Tua casa agora angelicamente dava “graças

a Deus”por matarem o Teu

outro filho também bandido mas filho Teu amado,

                                                            está escrito.

 

X

 

Deus pai infeliz de tantos filhos bandidos, como

aquele assassino que foi enforcado enquanto

                                                dormia ofegante,

e o Teu filho ladrão que enforcou aquele que

pedira proteção ao carcereiro

e a velhinha cristã que se alegrou com o

                                                enforcamento

e no próximo domingo estará com uma santa

                                                palidez na Tua Casa

respeitosamente de olhos fechados para receber

das sanguíneas e firmes

mãos do Bispo Tua Hóstia Consagrada.

 

XI

 

É muito sofrimento para um Pai e se possível

me fosse ser absoluto em alguma coisa

eu teria uma pena absoluta, infinita da Tua

tristeza e da Tua solidão,

quando Te escondes no Céu para chorar nos Teus

desgraçados momentos dos teus filhos

                                                            ofendidos,

momentos de todos os dias, de todas as horas,

de todos os minutos no mundo,

porque eu não sei de um em que não Te

ofendam, inclusive aqueles a quem

confiaste o Trono, o Poder, a Força, o Dever,

e mais aqueles a quem

confiaste Tua maior confiança, aqueles da

Pobreza e da Beleza que vendem.

 

XII

 

Registro mais que teu filho doente foi assassinado

                                                dentro do cárcere,

que tem o outro lado do duro Código Penal,

seu lado bom, de o proteger.

Pois a honrada sociedade exigiu segurança e

Armou e elegeu autoridades.

Como então sob sua proteção eles, também

Teus filhos, são assassinados?

O que sei é que houve mais uma morte e mais

                                                uma entrevista.

“Os fatos serão apurados e rigorosamente punidos

                                                os culpados”.

Ai, Senhor, já não suporto mais ouvi-los, só o

                                                povo crédulo,

esse jeito de falar aparentemente sério, num

deles vi lágrimas, Senhor.

E não posso deixar de ouvi-los, Senhor, porque

tenho o dever de faze-los saber

que não fiquem tranqüilos, que há os que

                                    sabem das suas omissões,

há os que tem vigilância contra todas as

técnicas de propaganda, por mais caras e

                                    capazes que sejam,

por mais repetidas que sejam, que a repetição é

                                                uma técnica

da mentira que deve ser proclamada e repetida

                                    e parecer verdade.

Tenho o dever do poema, Senhor, tenho o dever

De ouvi-los sempre para que

Não fiquem tranqüilos, não durmam

completamente e saibam da repugnância

e dos vômitos no primeiro beco sujo e escuro

onde possa ficar

a macarronada azedas das suas palavras que Te

                                                desrespeitaram.

 

XIII

 

Ouço-os porque sempre haverá ao menos um

que num balcão de venda leia

o pedaço de jornal de enrolar sabão.

E o poema no pedaço de jornal não deixará que

O sabão apague esta mancha.

Antes será lido e a sua denuncia se gravará

no seu espírito de menino de recado e de

fazer pequenas compras.

Ali ficará para sempre, porque um verso no

espírito  não é como um verso na

                                                            areia

que durará a vida de um amoroso sorriso na

                                    praia, até que a onda o leve

para o mesmo fundo do mar onde repousam os

velhos navios e ignorados

estão grande amores que houve, de quem? Quem

sabe mais? Quem já soube,

além deles enquanto desciam ao fundo do mar, no

                                    último beijo?

 

XIV

 

Mas no espírito do menino os seus nomes

ficarão para sempre, e um dia não

                                                poderão

deixar o velho navio que se afunda, como os

                                                            ratos.

Deus meu, estou cansado disso tudo de ver e de

                                                Ouvir.

Compreende que eu tenha repugnância,

Compreende que tenha vontade de

                                                vomitá-los,

e já que não posso faze-lo ao menos que

                                    vomite suas palavras.

e mude a televisão para outro canal, para as

crianças não terem professores

da mentira e da simulação.

No outro canal, com a seriedade das suas

lições, está o velho Chaplin.

No momento em que eu mudava de canal de

Televisão o jovem repórter

dizia que a autoridade se revelava chocada

com o fato acontecido quando ele

                                                            dormia.

Saíra quase às lagrimas, depois de um suco de

                                                            Laranja.

Aparecido num copo sobre o ombro, erguido por

                                    um braço solto, de ninguém.

 

XV

 

Senhor, é a mesma gente que festeja as geadas

que arruínam os laranjais da Flórida.

A do leite aos porcos, a que afoga ou queima

os pintinhos amarelos.

Isto não é poesia? Merda de poesia. E quem

festeja a ruína dos outros.

E quem mata os pintinhos. E quem deixa o

Homem preso no cárcere ser

                                    Assassinado, quer poesia?

E quem nunca viu a mulher gorda que há anos

Expões no chão quente e sujo

da Rua Nova seus filhinhos louros. Ou a mulher

forte que vive da menina esquálida, etíope?

Ou os velhinhos e meninos na calçada da Capela

Dourada, quer poesia?

 

XVI

 

Pois então se é para dizer que o Capibaribe

é um cão perfumado e de colo

e não para dizer que os peixes não fogem dele

porque o povo magro está nas

suas margens, com as frigideiras,

eu fico comigo mesmo, eu perco a glória

literária, fico fora dos manuais de literatura,

porque isto não é poesia, isto sou eu mesmo

resmungando um verso de um velho

                                                            poeta.

Sei que quem estiver com o meu verso não terá

o sorriso do rei, nem sua mesa.

 

Porque quem estiver com o meu poema estará

comigo, um poeta que perturba

tranqüilidades de jantares como para sempre

o jantar dos que comemorarem

a noite daquela noite em que a Academia

                                                Brasileira de Letras

fechou suas portas ao poeta Mário Quintana.

Resmunguei, resmungo

ainda que todos os maribondos vermelhos me

queimem e me mordam.

 

Geraldino Brasil, 29.06.85

 

 

 

 

 

 

 

 

Arte, editoração de Cláudia Cordeiro Reis

Fundo Musical: Bachiana nº 5, Villa Lobos

Foto de Marcus Prado - Visite a galeria virtual do autor neste site:

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