PEQUENO PEDIDO EM NOITE DE NATAL
   

 

  Geraldino Brasil

 

 

 

Senhor, Vós bem sabeis,

nunca Vos pedi para viver.

E nunca Vos pedi

para morrer, como os outros pedem

quando mudam os ventos.

 

É fácil: tudo está bem,

nem se lembram de Vós.

Quando as coisas vão mal,

vezes um nada, é o que desejam

por qualquer dor das pomadas.

 

E eu nunca.

Pelo menos nisso de pedir

Comigo estais feliz.

 

E sabeis que já houve

Motivo de pedir. Sofri.

Sabeis que houve motivo,

Mas nunca Vos pedi.

Porque foi Vontade Vossa,

respeitei. E pelo pouco que sei,

sei que muitas vezes Vos dói.

Também sofreis. Teve de ser.

Vos doeu.

 

E se agora Vos peço

é que pequeno pedido

fora disso de pedir

para viver, como Vos fazem

os gozadores. Nem de pedir

como os ingratos filhos Vossos,

para desaparecer.

 

Se agora Vos peço, sabeis

que Vos peço não por mim,

pois peço o que gostais

que Vos peça; pelos outros que conheço

e não conheço, gostais.

 

- Pede. PEDE!

 

Peço-Vos, Senhor, que o meu dia, para mim lindo

- aquele em que vireis buscar o Vosso filho –

dia que deve ser,   pois é da Ordem

do Vosso  Grande Amor, peço-Vos

que não seja

nos dias de Natal Vosso.

São os dias das Festas para Vós,

todos felizes na alegria

do Milagre do Nascimento Vosso.

E não é justo, Senhor,

- pobre de mim – entristecer

quem Vos festeja e está contente.

 

Nem nos dias da ilusão

do Ano Novo, nas festas

dos congraçamentos, pelo menos

até Reis. Não gostaria

que o Ano Novo dos companheiros

recomeçasse com mágoas, não por mim seja.

 

Nem nas Noites de São João,

de São Pedro, de Santo Antonio,

não é lícito, eu? Por minha

pobre morte um balão iluminado

não subir? E as crianças da família entenderiam?

E as moças, nos seus pedidos de amor

não atendidas: Iriam atribuir a mim o não atendimento.

Poupai-me.

 

Nem jamais seja nos nosso Glorioso Sete de Setembro.

Livrai-me de causar temor

aos da parada pela minha rua,

pois até os heróis tremem diante dos círios que choram.

Poupai aos companheiros o constrangimento

de ouvirem as salvas que aplaudem dos canhões vitoriosos

na hora do seu silencio pela minha paz.

 

ai, Senhor, procuro um dia propício!

 

Livrai-me de turvar os sábados dos companheiros amantes.

Livrai-me de turvar as manhas de domingo despertadas

                                                pelo amor ainda.

Livrai-me de perturbar as terças de carnaval

daqueles dos serviços fúnebres

no último dia de verem a passagem dos blocos.

 

Livrai-me de ser o desmancha-prazeres

das quintas e das sextas-feiras dos casamentos

das minhas netas e sobrinhas inocentes

e sua amiguinhas, livrai-me que me odeiem, elas que

                                                            me adoram,

 

Livrai o meu espírito de ouvir

para onde os seus noivos armados me mandariam.

 

Ai, Senhor, não vejo um dia propicio!

 

E me livreis de que morra

no dia de finados. Poupai-me de tirar para mim

um verso das orações rezadas pelas almas.

Elas, quase sempre penadas, merecem tudo, livrai-me.

 

E sobretudo, Senhor, Vos peço

que não seja o meu dia

o Dia Vosso do CONSUMATUM EST.

Eu não mereço tanto.

E nem dizer poderíeis: “Estarás

hoje comigo no Paraíso”

porque há milênios sois derrotado

em mim, nas minhas fraquezas do coração.

Não mereço o Dia da Vossa Gloria,

não mereço.

                                                                            r

E quero no Dia da Vitória Maior da Vossa Palavra

                                                                           v

                                                                           u

                                                                          o

                                                                          L

 

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                                                                         o

                                                                         V

 

E não só a Vós

                        mas louvar nos seus dias

com aquela luzinha a mais mínima que é a minha,

nos seus dias quero louvar

                         Nossa Senhora dos Milagres,

                         Nossa Senhora Aparecida,

                         Nossa Senhora da Conceição,

                         Nossa Senhora dos Navegantes,

                         Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

e demais dias e sobre todas

                         Nossa Senhora das Dores

                         Mater Sofredora

                        Mãe Santíssima Vossa

quero louvar em todos os seus dias,

                        Jesus!

 

Geraldino Brasil

 

 

Gratos a Beatriz Lopes, filha do poeta e também poetisa, pela cessão do poema. Ela nos informa: "Lembro que no poema 'Pequeno pedido em noite de Natal', ele pede ao 'Senhor' um dia propício para a sua partida. E seu desejo foi que Ele aguardasse pelo menos até Reis. Bem, seu pedido foi amavelmente atendido posto que o Senhor o levou no dia 7 de janeiro de 96."

Recife, julho de 2004.

 

 

 

 

 

 

Arte, editoração de Cláudia Cordeiro Reis

Foto de Marcus Prado - Visite a galeria virtual do autor neste site:

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