IVO BARROSO,
Três sonetes,
do livro de poesia
A Caça Virtual.
(Editora Record: RJ – 2001)
 
 
Três sonetes
 
 
I
 
Teu nome nasce em grito no meu peito
 
Sobe em soluço da garganta à boca
e sai do lábio já num ai desfeito
 
No espaço, a voz se faz lamentação;
em teu ouvido é uma palavra rouca
e esvai-se em pranto no teu coração
 
Num sopro débil lentamente desce,
quase em surdina no teu sangue escorre,
ganha teu seio transformado em prece,
chega em tua alma num suspiro e morre.
 
 
II
 
Glória de ser aquele que te afaga!
 
Há carícias de mar em teu desejo
e há no teu beijo um soluçar de vaga.
 
Glória de ser alguém que te repele:
há suplícios de sangue no teu beijo
e há volúpias de mágoa em tua pele.
 
E glória de ser mesmo o que não toca,
o que em sonhar-te apenas se resume,
que a vida nasce dessa tua boca
e a morte chega nesse teu perfume.
 
 
III
 
Nas sombras o teu corpo palpitava...
 
Havia nessa espera a inquietação
do pássaro ferido que esperava.
 
Sem ver-te, a minha mão avança e desce;
a carne adivinhando o gesto, e a mão
bem antes de tocá-la se estremece.
 
Pousa na morna ondulação do busto,
corre e vacila, espera e freme, e roda
pelo teu dorso, já desliza, e em susto
te encontra toda e te ilumina toda.
 
 
 
 
Editoração: Cláudia Cordeiro Reis,
Mariza Lourenço e Silvana Guimarães
Fundo musical:  Chopin, Estudo C, Opus 10, Número 1

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