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(fragmento)
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Joaquim: O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
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O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água. O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
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O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
"Os Três Mal Amados "; In: Obra Completa. Volume único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.57 |
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JOÃO CABRAL DE MELO NETO (1920-1999)**Poeta e diplomata, nasceu no Recife, PE, em 09 de janeiro de 1920 e faleceu no Rio de Janeiro, em 12 de outubro de 1999. Filho de Luiz Cabral de Melo e Carmem Carneiro Leão Cabral de Melo, ambos de tradicionais famílias pernambucanas. Viveu a infância em engenhos de cana-de-açúcar até 1930, quando passa a residir no Recife. Em 1943, foi nomeado por concurso público para o DASP. No corpo diplomático, exerceu funções na Espanha, Inglaterra, França e Senegal. Em 1968, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras e tomou posse em 6 de maio de 1969. Costumam incluí-lo na Geração 45, mas dela se destaca por uma poética especial, fundada na depuração do verso, na concisão e na precisão da linguagem, em uma nítida desmistificação da linguagem poética e de seus temas, introduzindo a crítica social, mas sem concessões ao sentimentalismo; assim, em Morte vida Severina, em O cão sem plumas, por exemplo, quando da abordagem da vida do homem das camadas populares do Nordeste e de suas paisagens. João Cabral de Melo Neto tem seu nome incrustado, definitivamente, nas páginas da literatura brasileira. Obras do autor: Poesia: Considerações sobre o poeta dormindo (1941, prosa); Pedra do sono (1942); Os três mal-amados (1943); O engenheiro (1945); Psicologia da composição com a Fábula de Anfion e Antiode (1947); O cão sem plumas (1950); Juan Miro (1952, prosa); A Geração de 45 (1952, depoimento),; Poemas reunidos (1954); O Rio ou Relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à Cidade do Recife (1954); Pregão turístico (1955); Poesia e composição / A inspiração e o trabalho de arte (1956, prosa); Duas águas (1956); Da função moderna da poesia (1957); Aniki Bobó (1958); Quaderna (1960); Dois parlamentos (1961); Terceira feira (1961); Poemas escolhidos (1963); Antologia poética (1965); Morte e vida Severina (1965); Morte e vida Severina e outros poemas em voz alta (1966); A educação pela pedra (1966); Funeral de um lavrador (1967); Poesias completas 1940-1965 (1968); Museu de tudo (1975); A escola das facas (1980); Poesia crítica (1982, antologia); Auto do frade (1983); Agrestes (1985); Poesia completa (1986); Crime na Calle Relator (1987); Museu de tudo e depois (1988); Sevilha andando (1989); Primeiros poemas (1990); J.C.M.N.: os melhores poemas (1994, org. Antonio Calos Secchin); Obra completa (1995, organizada por Marly de Oliveira); Entre o sertão e Sevilha (1997); Serial e antes (1997); A educação pela pedra e depois (1997); Prosa (1998). |
Editoração e voz: Cláudia Cordeiro Reis Leia poesia
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