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Show no Olímpia. Zé Ramalho em uma de suas melhores apresentações. Numa mesa, estão duas personalidades
paraibanas, referências nas áreas em que atuam. Um das letras, o outro da música. O escritor e jornalista José
Nêumanne Pinto, ao lado do compositor Antônio Barros, que privava da companhia de sua eterna companheira Cecéu, além
da também cantora e filha do casal, Maíra. A atmosfera era plenamente propícia para que os deuses da inspiração
bafejassem bons ventos. A conversa entre o poeta e o compositor girou em torno da pauperização e vulgaridade
reinantes na cultura brasileira e conseqüentemente na música regional nordestina. O quadro está tão desanimador que o
autor de grandes sucessos como "Homem com H" confessou ao amigo o desejo de "pendurar as chuteiras", haja visto que
atualmente não é possível fazer frente ao chamado "forró de plástico" cearense.
Logo após a desalentada confissão, Antônio Barros faz
outra revelação ao amigo: "Tentei musicar poemas seus de
barcelona, borborema, mas não achei nenhum que se adequasse à melodia". A conversa, felizmente, não parou por aí. E eis
que o desafio foi lançado. Antônio Barros pediu a Nêumanne que compusesse letras com o fim exclusivo de serem
musicadas. Só foi preciso uma semana para que o autor de "Seara de Saramago" enviasse duas letras. O ânimo e o
entusiasmo tomaram conta da nova dupla, pois, Antônio Barros com pequenas modificações, pôs música e ritmo em um baião e
numa marchinha junina. "O popular não tem que ser forçosamente vulgar". Esta expressão foi a pedra de toque
que norteou os novos parceiros da música popular nordestina.
José Nêumanne Pinto é um artista que não hesita em enfrentar desafios. Poeta de prestígio nacional, havia
lançado um romance Veneno na Veia no qual, segundo seu parecer, o vezo jornalístico acabou por, de alguma maneira,
comprometer a prosa. Ano passado lançou O Silêncio do Delator, romance que vem amealhando uma respeitável fortuna
crítica com pareceres de medalhões da crítica literária nacional como Wilson Martins e Affonso Romano de Santa'Anna.
Agora se aventura na seara insidiosa da composição musical.
Retomando a antiga e constante querela a respeito de que poema e letra de música são coisas distintas ou não,
Nêumanne, que foi contactado pela reportagem do JORNAL DA PARAÍBA, revela que descobriu algo novo. "Poesia é liberdade
total, voar em pleno espaço. Letra de música é prisão ao ritmo, à rima, ao tema. Uma gaiola onde o pássaro pode ser
belo e feliz, mas não tem liberdade para voar pela amplidão", opina Nêumanne.
O compositor Antônio Barros falou com exclusividade à nossa reportagem e disse que em princípio sempre achou muito
difícil musicar poemas, posto que a estrutura das estrofes é muito peculiar, impedindo a fluência rítmica, essencial para
a composição musical. "Bom, eu pedi pra ele mandar umas letras com uma métrica, com compassos de quem estivesse
cantando. Aí, como a composição é a minha praia, ficou bem mais fácil", relata Barros.
Para o escritor, cada letra composta para Antônio Barros trouxe para ele a reafirmação de que letra de música
e poesia são gêneros diferentes. "Tenho poemas musicados por parceiros. Gereba musicou 'Na casa avoenga'. E Zé Ramalho,
parte de 'Poeira de estrelas'. São canções e o ouvinte não perceberá. Mas não são letras. São poemas. Algo
completamente diferente das letras que fiz para Antônio Barros", esclarece Nêumanne.
A parceria continua. Além da marchinha junina e do baião, Nêumanne escreveu uma letra baseada num verso de
Antônio Barros, feito para a filha Maíra. Não é um forró, mas uma música romântica. "Nêumanne nem sabe que eu já
coloquei música", revela Antônio Barros.
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