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O Silêncio do Delator
Bráulio
Tavares
©
Jornal
da Paraíba, 23 de dezembro de 2004 http://jornaldaparaiba.globo.com/sabado/index.html
José Nêumanne
acaba de lançar seu segundo romance, "O Silêncio do
Delator", pela editora A Girafa (São Paulo). É um livro caudaloso
(540 páginas), mas que se lê num só fluxo: no começo o leitor custa
a pegar o tom e o ritmo, mas depois que consegue passar terceira, vai em
terceira até o fim. Nêumanne comenta a certa altura do livro que fez
uma opção por um "texto zero", ou "grau zero do
texto": uma prosa sem enfeites (ou com poucos enfeites), seu
complexidades lingüísticas, aquilo que Isaac Asimov chamava de
"prosa vidraça", transparente, discreta, servindo de veículo
submisso e silencioso para a passagem das idéias com um mínimo de
refração.
Sou meio suspeito
para falar do livro porque é a história da minha geração, que é a
mesma do autor, ele mesmo ligeiramente mais jovem que eu. O livro é uma
autópsia impiedosa (como aliás tudo que se faça a um cadáver) dos
ideais cultivados pela chamada "geração anos 60", a geração
que foi adolescente nessa turbulenta década e que foi a única, até
hoje, que acreditou serem possíveis os sonhos sonhados então.
A técnica
utilizada é um coral entrecruzado de vozes (amigos da adolescência se
reencontram na meia-idade, no velório de um deles) e de temas (sexo,
drogas, rock-and-roll, revolução política, misticismo oriental, o
Brasil). São monólogos interiores entre os quais se incluem o do
defunto e o do autor, e ao pularmos de um para outro vamos percebendo as
contradições, os desmentidos, os equívocos, os mal-entendidos entre
aquelas pessoas que perderam a virgindade, experimentaram drogas e
tiveram a idéia de derrubar o governo numa época em que se ia à loja
da esquina para comprar o disco mais recente dos Beatles ou de Bob
Dylan. As canções dos dois servem como roteiro, cada uma intitulando
um capítulo do livro, e definindo o tema que os monólogos silenciosos
se encarregarão de retomar e improvisar em cima.
A necessidade
destes improvisos temáticos já é uma notável "constraint"
(restrição auto-imposta), mas o autor se obriga a outra, ainda mais
acrobática: evitar qualquer menção geográfica que possa situar a
história num lugar específico. Somente um leitor campinense, e daquela
geração, será capaz de reconhecer a precisão com que o espírito-do-tempo
é captado, porque o livro prescinde totalmente dos adereços externos
do realismo: nomes de ruas, lojas, bares, colégios... Sabemos que se
trata do Brasil, e mais nada. O que talvez desaponte alguns leitores
que, sabendo tratar-se de um "romance de geração", irão
procurar em vão a cor local, a "tranche de vie", a
"horta da Luzia", as miudezas memorialistas a que a gente se
apega tanto após certa idade.
O romance de Nêumanne
não ocorre num vácuo, pelo contrário, ocorre no turbilhão de catástrofes
políticas que lembramos tão bem. Mas seu passado é tão estilizado e
impessoal quanto certos futuros da ficção científica, como o de
Godard em "Alphaville". É Campina Grande, mas poderia ser
qualquer lugar.
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