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Quando se termina a leitura de um livro como este O
Silêncio do Delator, de José Nêumane (A Girafa Editora, SP,
2004), pode se fazer muitas conjecturas. Pode-se emitir inúmeras opiniões
elogiosas. E se pode apenas redigir uma síntese originalíssima: é um
livro maravilhoso!
Tudo
o que outros já disseram sobre ele é verdade. E muitas outras verdades
exaltando as qualidades da obra surgirão. Os elogios se acumularão,
merecidamente. Tudo bem. Aplausos aos dois: autor e livro.
Para
nós, para além dos
espelhos e contra-espelhos que vêm ao vivo, que se unem e se afastam,
em feições fotográficas, psicológicas, anedóticas, doídas, cáusticas,
egoístas, dadivosas, em amostragens elípticas da vida
– exsurge, com a última despedida ao morto, um certo desconforto ou
perplexidade que nos vem com esta interrogação enorme: por que tudo é
fugaz e passageiro e se eterniza numa obra assim? Eterniza-se porque
tudo aqui é vivo e pulsante. Pouco vimos, na arte escrita, por mais
fantástica que ela seja, um morto tão vivo, em qualquer sentido que se
lhe dê ao adjetivo.
Fazer
qualquer apreciação mais objetiva desta obra monumental é cair no
pontual. É que ela é uma roldana, um vendaval literário com muitas
nuances, em bafejos de meios-tons, em lúdico jogo de dentro para fora e
de fora para dentro, que transmuda notavelmente o vendaval em cadeia ou
corrente de um elo só, cada segmento uma surpresa e um achado criador.
Logo
às primeiras páginas vimos no morto um Brás Cubas moderno, o que
levaria a obra ladeira abaixo. O morto pode ser o fulcro, dentro do
“emaranhado” formal, mas há de ser a grande metáfora ou sinal sensível
maior de uma época e de uma geração, com todas as suas crenças românticas
e tanta fé generosa perdida. Há sinalizações vívidas delas
em Bob Dylan
, nos Beatles etc., que até demarcam esse tempo histórico, mas não
chegam a ser suportes
fundamentais dele. Não chegam porque os suportes estão em todas as
palafitas que nascem da variação narrativa, que chamamos de espelhos e
contra-espelhos. Eis porque tudo aqui é inovação. Mas, dando
força à inovação técnica (há tantas inovações técnicas
que deram com os burros n’água...), o que arrebata, da primeira frase
do livro à última, é o como
dizer literário do autor. Não há, neste livro, nenhum andamento
narrativo, do mais “esculachado” ao de belo polimento e lavor
expressivo, que lese a beleza estilística do autor. Tudo muito objetivo
e subjacentemente instigante. Bordeja o descritivo, o psicológico
intimista, o teatro, a poesia, o mais que seja, e não cai em nenhum
deles. O autor narra, narra como ninguém. Nos pequenos dramas e
intrigas entre as personagens parece até que estamos presentes. Tudo se
move na roldana: o morto, as personagens, a sociedade e sua época. E
com esse como dizer, até
meio irônico e crítico, o autor vai “arrastando” tudo, o tempo e a
história dentro dela, em pandas velas. Um estilo só dele, culto, de
fino trato, e com aquela simplicidade – que nada tem de facilidade,
muito pelo contrário – que encanta e seduz. E mais: aquele toque de
brasilidade que cala fundo na alma de qualquer leitor.
Uma
obra como esta, assim concebida, assim realizada, merece uma palavra
apenas, por sinal novíssima: ficará.
Como
pôde José Nêumanne sacudir tudo isto, se tudo estava meio apagado sob
as cinzas do esquecimento?
Caio
Porfírio Carneiro é escritor, crítico literário e secretário-administrativo
da União Brasileira de Escritores.
(para
o jornal literário Linguagem
Viva)
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