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[...] Nós somos filhos da Guerra ou do imediato pós-guerra. Fomos
educados na Guerra Fria. Fomos rebelados contra a autoridade, libertados
dos confessionários e escravizados pelas psicoterapias. Indignados com
as injustiças sociais e vacilantes entre o capital, o fascínio de Che
Guevara e as Encíclicas de João XXIII. Apaixonados pelo romantismo dos
Beatles e atraídos pela Chinesa de Godard ou, mais ainda, pela Chinesa
de Mao Tse Tung. Éramos pluralistas, embora quase que ortodoxos na
nossa crença de democracia.
(Roberto Aguiar)
Crimes e política. Eu não disse que você está mais
escravizado à estética do filme de Godard do que à dos romances de
Camus e Salinger, [...]. A chinesa, com suas longas citações, seus
debates intermináveis, contribui mais para esta obra que outra ora,
ora! (José Nêumanne, p. 497)
Iniciamos,
propositalmente, estas notas sobre O
Silêncio do Delator, o nono livro, segundo romance,
de José Nêumanne, com a epígrafe de Roberto Aguiar – fragmento de
seu depoimento sobre a Geração
65, no livro de mesmo nome organizado por Jaci Bezerra – não só
pela pertinência com o tema da obra aqui abordada e pela lucidez da análise
desse grande sociólogo pernambucano, que já não está entre nós, mas
também para registrar que a senda memorialista traçada por Nêumanne,
sem geografias definidas, instiga-nos, mais insistentemente que em
outras experiências de leitura do gênero, a acender inúmeros flashs
recorrentes, uma espécie de filme paralelo, de nossas vivências,
embora esfacelado, uma vez que destituído dos recursos que
magistralmente Nêumanne utiliza, para a colagem dos fotogramas do
ruidoso silêncio do seu romance.
É
necessário registrar a pontualidade histórica com que esse Inventário (nome do poema de Pedro Paulo de Sena Madureira, cujas
estrofes encerram cada capítulo) da geração 60 chega às livrarias,
bastando para isso ter em mente o número considerável de matérias e
documentários que a mídia vem publicando, inclusive a pernambucana
Continente Multicultural (2004), com O
carpinteiro do traço, sobre o genial Quino, de outubro, além matéria
de capa Rock. O som da fúria, de setembro, que vêm permitindo uma avaliação
parcial e fragmentária dessa geração singularmente inquieta,
extremamente crítica, causticantemente irreverente. O romance O Silêncio do Delator, no entanto, parece fazer convergir esses
fragmentos avaliativos, fazendo um “Inventário moral, estético, político-ideológico,
espiritual”, como registra Ruy Fabiano, no artigo Testamento de uma geração, publicado no Estadão. E Affonso Romano
de Sant’Anna, no jornal O Globo, do dia seis de novembro, conclui que
o livro de Nêumanne “realizou, de modo original, aquilo que tantos
tentaram — ‘o romance de minha geração’”.
Nessa tarefa, José Nêumanne enveredou refratário a técnicas
narrativas consagradas, imprimindo à obra uma coerência singular com a
sua temática, uma rebelada inovação. Sobre esse aspecto, ressalta-se
o ritmo imposto à narrativa. Deonísio da Silva, em matéria do Jornal
do Brasil, refere-se coerentemente a um “Romance com Trilha Sonora”,
mas, acreditamos, não só porque os títulos dos capítulos se referem
às faixas dos discos Sergeant
Pepper’s lonely hearts club band, dos Beatles, e Bringing it all back home, de Bob Dylan, mas também por incorporar
à linguagem ágil e avessa a malabarismos verbais o som da guitarra de
um Hendrix, ou o ganir de Joplin, numa articulação
vigorosa entre ritmo e melodia predominando sobre a harmonia, definição
do rock que Daniel Piza descreve na matéria de capa da Continente de
setembro, mas já com as características do encantar
agredindo ou agredir encantando, expressão também dele,
referindo-se à ascensão da guitarra enquanto instrumento mais que
adequado a esse contexto histórico-musical. Nêumanne encanta e prende
o leitor dando à narrativa esse vigor e quando nela o folk
americano à Bob Dylan parece esvair-se paralisando as letras,
especialmente no romance de tese paralelo incrustado pertinentemente na
obra, pondo freios aos precipícios da metamorfose da verdadeira
protagonista do romance, a Patota
dos Socavões Solitários — , “uma
tradução meio gozativa de Sergeant
Pepper´s Lonely Hearts Club Band”, como informa José Nêumanne
em entrevista a Astier Basílio — um pseudo-narrador-defundo, espécie de versão rascante
e alucinada de Brás Cubas, tira-nos da letargia das letras esfriando na
página para expressões como: “Peidaram no velório”. É assim, com
um humor sarcástico, impiedoso, e uma irreverência agressiva levada às
últimas conseqüências, até à morte, que João Miguel consegue
arrebatar-nos de qualquer possibilidade de tédio durante a leitura das
541 páginas.
Aético, mulherengo, escritor frustrado, o professor universitário
João Miguel, em sua condição de morto, testemunha do seu próprio velório,
é apenas um simulacro do narrador-autor Brás Cubas: “agora que sou pó,
que voltei à cinza [...] me disponho a abrir o jogo, a mostrar as
cartas, a peruar o baralho alheio. [...] Nada nem ninguém me calará,
nem você que fui eu quando corpo. [...] A este velório comparecerão
muitos amigos. Na certa, também muitos inimigos. E não adianta você,
seu escribazinho de merda, ficar tolhendo minha linguagem...”.
Percebe-se então, ao contrário das Memórias
Póstumas de Brás Cubas, que o narrador-autor não cede as rédeas
da fabulação ao defunto. Há momentos esclarecedores, como na página
34: ele “apenas age como se narrador fosse”. Embora impiedosamente
retire o narrador-autor do conforto da terceira pessoa e das suas onisciência
e onipresença para inseri-lo numa trama paralela de avaliação
constante da própria construção da obra.
É
possível entender a personagem João Miguel como uma espécie de
corifeu das sete “vozes” que se revezam nos capítulos conforme o
samba de Caetano Veloso: A Voz do
Morto, Pés do Torto (as transgressões, como drogas) , Cais do Porto (parentes, ancestrais e descendentes do grupo), Vez
do Louco (as iniciações promovidas pelo personagem Coelho), A
Paz do Mundo (política), Atrás
do Muro (as cenas de sexo) e Na
Glória (cenas do próprio velório). Essas vozes, assim nomeadas,
podem, inclusive, configurar as rubricas de um texto teatral conotando
as anotações do narrador-autor para uma espécie de prévia da encenação,
portanto é questionável atribuir ao “morto” essa regência das
vozes.
Assim,
João Miguel se nos apresenta mais adequadamente como uma espécie de
sujeito da enunciação, ou seja, uma espécie de locutor particular que
atualiza as frases de um enunciado e ainda o elemento impiedoso da
avaliação, entendida aqui como parte essencial da narrativa de acordo
com Labov Waletzky. E se configura um delator delatado, mais do que os
que se propunha delatar. Toda a sua ousadia, toda a sua irreverência,
que lhe permite o mito do “morto” é inútil, porque a voz do morto
é o silêncio.
Quando
apontamos como protagonista do romance a Patota
dos Sovações Solitários esperávamos apenas a oportunidade de
ousar dizer que ela o é apenas por tratar-se de uma célula mãe onde
cabem personagens a princípio estereotipados, se tomarmos o contexto
revolucionário da época, e que, posteriormente são avaliados, em sua
maioria, como fracassados em suas intenções primevas. Em síntese: “O
publicitário de sucesso que não consegue se afirmar como escritor; o
guerrilheiro que enriqueceu especulando na bolsa; o militante comunista
que chegou a ministro; o astro de rock;
o artista plástico tornado mendigo; a esposa historiadora; a amante que
nunca abandonou o marido e a adorável filha; a ex-paixão da adolescência
com quem viveu um caso fugaz; o filho espiritualista; a filha pragmática;
e a mãe possessiva giram em torno do morto com suas convicções,
incertezas, falhas e virtudes”, tão bem resumidos na orelha do livro.
E mais o Coelho, que, na definição iluminada de Ruy Fabiano, é a
personificação do espírito da época: “um ser misterioso e
intrigante, cujo enigma é decifrado apenas no final do livro”. Este
personagem e o defunto pseudo-narrador, acentuam a fusão do humorismo
filosófico e fantástico, e traduzem o gênero cômico-fantástico,
que, conforme José Guilherme Merquior, “tomou corpo na literatura
ocidental, no fim da Antiguidade; sua realização mais perfeita são as
sátiras em prosa de Luciano de Samósata (séc. II), autor dos Diálogos
dos mortos.” A personagem João Miguel resume perfeitamente
um dos atributos desse gênero narrativo, também chamado de literatura
menipéia, pois desprovido de qualquer enobrecimento em suas ações.
No
entanto é ele que nos permite ousar dizer que a verdadeira protagonista
dessa obra é a própria geração 60, que tem como esteio a célula-mãe
da Patota dos Sovacões Solitários: “[...] Este não é o velório
de um homem só. Mas o velório de uma geração inteira, o sepultamento
do sonho desta turma de gente bem-intencionada, mas que não soube
cuidar direito das próprias intenções, por melhores que elas
fossem” (p. 335). Essa geração é avaliada nesse “Inventário”
audacioso, e reflete a vontade cega, obscura e irracional de viver, num
conflituoso querer, fatalmente doloroso, porque necessariamente
insatisfeito, à medida da filosofia schopenhaueriana. Mas não consegue
deprimir, pois redunda em uma “comovida homenagem àquela década, na
evocação de seus poetas, líderes, idéias e ideais” (Ruy Fabiano).
Conforme o próprio autor: “No fundo, o leit motiv do
romance é o conflito entre João Miguel e Penélope. Ele acha que a
geração deles é a maior, trouxe uma imensa contribuição para a
humanidade, citando Heráclito de Éfeso, para quem nunca ninguém se
banha nas mesmas águas quando vai a um rio. Ela cita Hegel, segundo
quem a história sempre se repete, é cíclica. Ou seja, o que a geração
dos 60 fez foi repetir o que vem sendo feito desde Adão e Eva. O livro
trata do fracasso da revolução política, que deu nas ditaduras
comunistas; do fiasco da revolução dos costumes, que pregou o amor
livre e terminou na ‘galinhagem’; do malogro das drogas que
prometiam o céu químico e trouxeram o inferno da doença e
da competitividade exacerbada; e, também, do sucesso da mulher,
que liberou o corpo e dá uma aula de ética aos homens.”
Diante
de tal esclarecimento, mais importante que tentar fundar uma teoria
sobre essa obra, o que inclusive não caberia neste artigo, é lê-la, e
tentar percebê-la como uma grande hipérbole de uma alma barroca em
linguagem moderna, a descascar a aura de todo o romantismo e de todo
idealismo da pretensa revolução social e de costumes promulgada pela
geração dos anos 60. O desmonte do mito dentro do rito – o velório
–: a impiedade até a morte, e a ousadia, a única aventura que tenta
pateticamente sobreviver até a última cena, tão surpreendente quanto
tola, como assim parece ser todo o exposto submetido à avaliação da
impiedade e da insubmissão. “Caía aquele último dia, virando noite,
mas todos os presentes puderam ver muito bem o fulgor boreal da pele
branca da moça, que se despiu rapidamente, jogando a blusa, a saia, os
sapatos e as meias na grama. Quando ela tirou a calcinha preta e a
atirou sobre o caixão já meio coberto de terra, seus pêlos púbicos
refletiram os últimos raios do sol, o fulgor rubro do dia extinto.
Fazia-se tarde. Era apenas o fim.”
Ousar
expor e expor o que ousa, ousando. Eis a fórmula que José Nêumanne
utilizou para escalpelar a euforia dos anos 60, numa exasperante e
paradoxalmente comovente narrativa, desesperada e terna. A obra convida
a um velório que ressuscita carinhosamente, mesmo com todo ceticismo, o
sonho, neste dia de finados em que concluímos este artigo e as
personagens de papel parecem encarnar em nós, em tudo e todos a nossa
volta. É corpo de um silêncio acordado que parece não tão cedo parar
de ganir, de gritar, até que se decida: Valeu a pena? Quem ou o quê
decidirá?
Sobre
o autor: José Nêumanne Pinto nasceu em 1951, em Uiraúna, Paraíba, é
casado e tem três filhos e um neto. Jornalista, escreve editoriais no Jornal
da Tarde e artigos para O
Estado de S. Paulo e apresenta comentários diários na Rádio
Jovem Pan e na rede de televisão SBT.
Escritor, tem, além deste, outros oito livros publicados: de poesia (As tábuas do sol, Barcelona,
Borborema e Solos do silêncio),
ficção (Veneno na veia),
reportagem (Atrás do palanque e A República na lama),
ensaios políticos (Reféns do
passado) e perfil biográfico (Erundina,
a mulher que veio com a chuva). Gravou poemas no CD As fugas do sol e organizou a antologia Os cem melhores poetas brasileiros do século.
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