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O que consolida a obra de José
Nêumanne Pinto como um novo marco da literatura brasileira é a sua unidade sólida.
Para mim, neste momento, a minha dificuldade maior não é apreciar aqui, num simples espaço de
crônica do cotidiano, o romance que Nêumanne acaba de lançar para o mundo. Ao contrário, o verdadeiro dilema é precisamente não alcançar a dimensão real da sua criação, contando apenas com estes recursos imediatos de primeiro grau...
Seja como for, importa ao leitor reconhecer o autor em suas feições verdadeiras, sem disfarces.
Pois aqui está José
Nêumanne Pinto, meu caro leitor. Ao lado de Afonso Romano de Sant'Anna, uma das expressões mais íntegras da literatura brasileira contemporânea. E não me falta legitimidade para chegar a essa conclusão. Quanto a este aspecto, autoridade não me falta. Conheço a sua obra desde As tábuas do sol, sua primeira manifestação poética, seguida de Barcelona, Borborema e Solos de silêncio. Aí já se podia perceber o fenômeno do tormento pela palavra insinuando-se implacavelmente para dentro da obra de José
Nêumanne.
Impedido de exercer, neste exíguo espaço de jornal, a verdadeira crítica exegética que merece o escritor, talvez seja este o único traço disponivel a realçar neste momento.
Quem, nos anos 70, leu o romance de J.D. Salinger, O semeador no campo de centeio, deve estar lembrado da catarse que a obra produziu no espírito perplexo daquela geração perdida entre os boulevards da Paris de Cohn-Bendit e as florestas metafóricas de uma Bolivia juncada de cadáveres de milhões de Ches que não sabiam se decidir: a careira jurídica ou a guerrilha? O jornal ou a clandestinidade? Papai-com-mamãe lá em casa ou o estupro no beco da História?
Nêumanne é esse asceta, capaz de ressuscitar um morto nas páginas do seu romance – O silencio do delator – para dizer tudo isso numa linguagem pendular, entre a contundência psicológica da atmosfera dostoievskiana e a delicadeza dos cristais de Machado de Assis.
O certo que José Nêumane sabe dizer isso como ninguém.
E aí está a unidade de sua obra. Agora é possível compreender a sua trajetória de escritor, no ascetismo monástico que se impôs, antes da sagração do romancista. Na verdade, o poeta de Barcelona, Borborema preparava, recolhido no claustro poético, o seu logos mundano.
É o que está escrito. O silêncio do delator é o memorial da alma brasileira em dimensão insuspeitada. Uma obra talhada a golpes de um talento atormentado pela sofreguidão da palavra perfeita, do texto edênico. Havia muito que não se registrava algo assim na ficção brasileira.
Se eu fosse gente grande na frente de
Nêumanne, seria capaz de repetir (ou, quem sabe, dizer melhor) o que lhe disse em versos o poeta Pedro Paulo de Sena Madureira:
Musas – ah! As musas
exaurimos os oráculos.
Gastamos o mar.
Musas – ah! As musas
traíram nossos
míseros versos
e elegeram a prosa o discurso cabal
do mundo que não nos ganha,
epitáfio do céu que não nos corrompe.
Mas, como não sou o poeta Sena Madureira, resta-me a reverência ante a encarnação do sonho grandioso do amigo escritor.
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