|
|
|
|
Não se pode concordar com
quem, como fez Daniel Piza no Estado de S.Paulo de domingo (19/12), não
achou prosa de ficção relevante para registrar no ano de 2004.
Pontificando com coluna semanal num dos maiores jornais brasileiros,
que, aliás, tem prestígio internacional, não viu um dos grandes
romances do ano bem pertinho dele, pois é de autoria de um colega de
redação.
É O silêncio do delator, de José Nêumanne Pinto,
editorialista e colunista da Casa. Se não se lê nem o colega de
jornal, que podem esperar os outros? A imprensa ficou parecida com a
universidade, onde os cubículos dos intelectuais, semelhando as mônadas
de Leibniz, não têm comunicação umas com as outras? Intelectuais de
prestígio, como Wilson Martins e Affonso Romano de Sant'Anna, estão
entre os que destacaram esse livro.
Dieta de leitura
Sem a
pretensão de elaborar lista completa, destaco alguns pontos altos da
safra de 2004 na prosa de ficção, só para não dizer que estou de
bronca com os editores que se "esquecem" de livros
importantes. Esses
ficcionistas são craques titulares em qualquer time de
prosadores.
O Brasil tem cerca de 3 mil editoras e 900 pontos de
vendas (ninguém sabe ao certo quantas livrarias temos, nem mesmo a Câmara
Brasileira do Livro), de modo que talvez seja impossível sequer
examinar a produção literária nacional para fixarmos as contribuições
mais relevantes.
Eis 14 prosadores da mais alta qualidade, craques da
narrativa que lançaram livros inéditos em 2004. Um responsável pela
seleção brasileira de literatura não poderia deixar de convocá-los.
1. O silêncio do delator, de José Nêumanne Pinto
(Editora A Girafa);
2. A ira das águas, de Edla Van Steen (Editora
Global);
3. Mare nostrum, de Salim Miguel (Editora Record);
4. O opositor, de Luis Fernando Verissimo.
(Objetiva);
5. Trevas no paraíso, de Luiz Fernando Emediato
(Geração Editorial);
6. Concerto para paixão e desatino, de Moacir
Japiassu. (Editora Francis);
7. O vôo da madrugada, de Sérgio Sant'Anna
(Companhia das Letras).
8. Tróia, o romance de uma guerra, de Cláudio
Moreno (Editora LPM);
9. Um homem chamado Noel, de Mário Pontes (Editora Funcet
- Fundação de Cultura, Esporte e Turismo de Fortaleza; lançado
em fins de 2003);
10. Sujeito oculto, de Manoel Carlos Karam (Editora
Barcarolla);
11. O homem que colecionava manhãs, de Liberato Vieira da
Cunha (Editora Objetiva);
12. Contos de São Paulo, de Filippo Garozzo (Editora de
Cultura);
13. Na teia do sol, de Menalton Braff; (Editora Planeta);
14. Getúlio, de Juremir Machado da Silva (Editora Record).
Para que a dieta de leitura seja ainda mais caprichada,
registre-se o relançamento de Histórias das quebradas do mundaréu,
Plínio Marcos (Editora de Cultura); Morte no paraíso, de
Alberto Dines (Editora Rocco), edição revista, consideravelmente
ampliada e reescrita; Hora aberta, poemas reunidos de Gilberto
Mendonça Teles (Editora Vozes); Todas as horas e antes, poesia
reunida de Neide Archanjo (Editora A Girafa); Portinari, de
Antonio Bento (Léo Christiano Editorial Ltda); Poemas reunidos
(2 volumes), de Affonso Romano de Sant'Anna (LPM); Pequeno dicionário
de percevejos, de Nelson de Oliveira (Editora Lamparina). E, por
fim, Francisco Félix de Souza: mercador de escravos, de Alberto
da Costa e Silva (Editora da UERJ e Nova Fronteira).
Tempos terríveis
E o melhor inventário da literatura brasileira, de Pero
Vaz de Caminha os nossos dias, veio de um pesquisador italiano, Giovanni
Ricciardi, que ensina literatura brasileira na Universidade de Nápoles.
É simplesmente referencial a sua obra Scrittori brasiliani (Tullio
Pironti Editore, com apoio do Ministério da Cultura do Brasil, da
Biblioteca Nacional e do Departamento Nacional do Livro). Em 1998, a
APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) já premiara seu
trabalho de divulgação da literatura brasileira no exterior. E ele,
comovido, veio ao Brasil para receber o prêmio e subiu ao palco do
Teatro Municipal, em São Paulo.
Em resumo, houve muito o que destacar em 2004. Mas para que
o inventário seja possível, primeiramente é preciso calçar as sandálias
da humildade e dizer: a lista é pequena, não foi possível ler tudo,
editoras continuam escondendo os livros, livrarias continuam organizando
vitrines que são verdadeiros atentados ao livro e aos leitores que
sustentam o mercado editorial, e as bibliotecas passaram mais um ano sem
comprar livros.
E os leitores? Bem, esses, se dependeram da imprensa para
tomar conhecimento de lançamentos e relançamentos de livros, entraram
numa fria! Não há mais resenhas, não há mais editores, não há mais
discernimento, vivemos um tempo de terríveis liquidações nesse
particular.
|
|
|
|
|