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O
testamento de uma geração |
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Ruy
Fabiano |
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© Estadão
(página D7) do domingo 9 de outubro de 2004.
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Os anos 60 do século XX constituem um século dentro do século. Foram
de tal intensidade e abrangência as transformações comportamentais,
ideológicas e culturais ali operadas que seus efeitos morais e
psicossociais marcaram as gerações seguintes ¾ e continuam em plena
vigência, desafiando artistas, pensadores e estudiosos em geral. Foi um
século (isto é, uma década) que não acabou ¾ ainda.
Nela, entre outros, desfilam Beatles, Rollings Stones e Bob Dylan; a
revolução sexual, o movimento hippie, o culto às drogas e ao
psicodélico; a utopia marxista, a Guerra Fria, o assassinato de
Kennedy, a Guerra do Vietnã, a revolta estudantil em Paris, o cinema
cult/experimental de Godard, Pasolini, Visconti, Fellini, Antonioni,
Buñuel etc. Entre (muitas) outras coisas.
No Brasil, a década foi igualmente movimentada: golpe militar, cinema
novo, bossa nova (nascida na década anterior, mas consolidada e
exportada na dos 60), festivais da canção, músicas de protesto, jovem
guarda, tropicalismo, teatro experimental, drogas e barato total, tendo
como desfecho trágico, em dezembro de 1968, a edição do AI-5 e o
aprofundamento da ditadura militar.
Uma década insepulta a pairar como espectro na memória de um dos
séculos mais densos e movimentados da história humana. O Silêncio do
Delator , romance do escritor e jornalista paraibano José Nêumanne
Pinto, recém-lançado pela Editora A Girafa, propôs-se a inventariar
aquela geração. Inventário moral, estético, político-ideológico,
espiritual. O desafio não é pequeno, mas pode-se dizer que o autor o
enfrentou com categoria ¾ e saiu-se bem.
Conseguiu dar ao texto um ritmo vertiginoso, que se mantém ao longo das
suas 544 páginas, recheadas de citações da cultura pop e do universo
intelectual da esquerda marxista, como convém a uma década que sonhou
simultaneamente com a revolução pelas armas, pelas drogas e pela
música, e cujo charme está não no fracasso, mas no glamour com que o
protagonizou.
O fio condutor da narrativa é a música. Música Pop. Mais
precisamente, a música dos Beatles e de Bob Dylan, extraída dos
legendários discos Sergeant Pepper's lonely hearts club band (Beatles)
e Bringing it all back home (Bob Dylan). Cada capítulo se refere a uma
das faixas desses dois discos. E termina com uma estrofe do belo poema
Inventário , de Pedro Paulo de Sena Madureira, dedicado ao autor, que
de um de seus versos extraiu o título do romance.
A história se desenvolve em planos temporais distintos e simultâneos.
Em 2004, num lugar qualquer do Ocidente (o autor propositalmente não o
situa), dá-se o velório do protagonista e narrador, João Miguel,
professor universitário e escritor fracassado. Como um Brás Cubas
contemporâneo e mais cético ainda que o original, João Miguel narra a
história, os sonhos e frustrações de sua patota, cujo nome é uma
paródia do legendário disco dos Beatles: a "patota dos sovacões
solidários do recruta Pepé". Seu velório é o de sua geração,
que sonhou mudar o mundo, mas apenas o virou do avesso.
Os amigos do morto se reencontram no velório e, em torno das
lembranças que ele evoca, repassam os sonhos e desventuras da década
dos 60. O finado os escuta e intervém em pensamento, com observações
e relembranças. Não é ouvido, mas ouve ¾ e cabe-lhe conduzir a
narrativa. Nêumanne diz ter concebido essa história há mais de vinte
anos, sem conseguir ir além de um esboço no papel, que considerou
ruim. Foi no início deste ano, quando assistiu As Invasões Bárbaras ,
do diretor canadense Denys Arcand, que teve o estalo para fazê-lo. E o
fez compulsivamente, em nove meses de frenético labor matinal. O parto
deu-se em setembro.
Apesar do tom crítico e desencantado, o romance é uma comovida
homenagem àquela década, na evocação de seus poetas, líderes,
idéias e ideais. Para contar essa história, Nêumanne recorreu a
artifícios formais complexos, que, mesmo sem essa pretensão, inovam a
narrativa romanesca brasileira contemporânea.
O romance é contado em sete "vozes", conforme os versos do
samba A Voz do Morto , de Caetano Veloso ( Voz do Morto, Pés do Torto,
Cais do Porto, Vez do Louco, A Paz do Mundo, Atrás do Muro, Na Glória
). Em cada uma dessas vozes, são contadas as histórias dos personagens
da patota, suas lembranças e reflexões. E o corifeu desse coro de
narradores é o finado João Miguel ¾ João em homenagem a John Lennon,
e Miguel em homenagem a Mikhail Gorbachov, os dois coveiros das duas
utopias que embalaram os jovens rebeldes dos anos 60.
A história começa em 1967, quando um personagem-chave da narrativa,
Marco Antonio, codinome Coelho, apresenta à "patota dos sovacões
solidários" os dois discos que iriam marcar os demais anos da
década e se intrometer na seguinte. Coube-lhe também apresentar à
turma o LSD, como antes a havia apresentado à utopia marxista.
Coelho, um ser misterioso e intrigante, cujo enigma é decifrado apenas
no final do livro, personifica o espírito da década. A cada
aparição, abre novos horizontes de reflexão e perplexidade à patota.
Coloca-a diante de novos enigmas, mas nem de longe acena-lhes com a
solução, até porque não a tem ¾ e nem mesmo sabe se existe
uma.
A Geração de 60 buscou Deus onde Ele não estava. E concluiu que o
sonho, que nem sequer chegou a ter certeza de haver sonhado, havia
acabado. É desse sonho hipotético, que se transmuta em desalento e
ceticismo, onde ex-hippies e ex-marxistas acabam funcionários públicos
ou operadores do mercado financeiro, que o livro trata.
Não por acaso, o cenário é um velório. E o enredo o testamento moral
e existencial de uma geração.
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